Mostrar mensagens com a etiqueta Rubem Fonseca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rubem Fonseca. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de maio de 2015

Amar e beber vinho

Rubem Fonseca fez ontem 90 anos. Noventa. É de homem ― e é de mestre. Salve, mestre! Viva o mestre!

⁂

«“Entre meus leitores existem também os que são tão idiotas quanto os legumes humanos que passam todas as horas de lazer olhando televisão. Eu gostaria de poder dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos. Para cada central nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fodidos antes mesmo da bomba explodir.”
(…)
“Última pergunta: você gosta de escrever?”
“Não. Nenhum escritor gosta realmente de escrever. Eu gosto de amar e de beber vinho: na minha idade eu não deveria perder tempo com outras coisas, mas não consigo parar de escrever. É uma doença.”»

Rubem Fonseca, em Feliz Ano Novo (1975)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Ubuntu

Lembrei-me de partilhar consigo, leitor, a minha lista de compras vinárias para os próximos dias, rebuscada nos folhetos dos supermercados. Neste tempo algo barbárico onde calhámos, é um pequeno gesto, modestíssimo, de ubuntu: uma forma de sermos uns para os outros.

⁂

Lidl
Chaminé tinto (3,19 €)
Valle Pradinhos tinto (7,99 €)

Pingo Doce
Paulo Laureano Clássico tinto (1,99 €)
Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto (3,49 €)
Offley Porto Tawny 10 anos (7,49 €)

⁂

Adenda | No noticiário das 15h da TSF, ouviu-se Cavaco Silva (Sovaco* Silva, segundo aquele crianço da Orquestra Geração) embolar a palavra «ubuntu». Parecia que um membro da Academia Ubuntu lhe estava administrando a manobra de Heimlich. Deplorando a coincidência, devo esclarecer que, não só ignoro escrupulosamente a agenda de Cavaco, como VIVA EL-REI!

* «Sei que alguém gostaria de me perguntar: você fala em cu e boceta, mas usa axila em vez de sovaco. Porquê? A resposta é muito simples. Cu e boceta têm uma obscenidade fáustica, que ainda resiste ao uso e abuso desses termos nos dias atuais. Mas sovaco é uma palavra vulgar, de uma trivialidade reles e fosca.» ― Rubem Fonseca, em Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Grandes talagadas

Por falar em Periquita e no Brasil, aqui fica mais um pouco de grande arte. («Minha arte é maior ainda: eu amo aqueles que me amam.»)

«Raul chegou com uma garrafa de Periquita debaixo do braço.
“Tem lugar no Brasil em que periquita é xoxota. Por isso comprei este vinho para nós tomarmos.”
“J. M. da Fonseca. É um bom vinho português.”
“Esses galegos inventam cada nome”, disse Raul. “Você conhece aquela do português que foi ao médico e botou o pau pra fora pedindo para ser examinado?”
Abrimos o Periquita.
“Certos vinhos podem ser bebidos em grandes talagadas, fora das refeições, como um refresco inebriante. Este, porém, iria melhor com umas tripas à moda do Porto.”
Bebemos o vinho estalando a língua e emitindo outros sons não vocabulares.»

Rubem Fonseca, em A Grande Arte (1983)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Classicismo

Eu também sou muito cioso das minhas garrafas.

«Sua mãe não bebia vinho, quando muito um cálice pequeno de licor ou de Porto, ou então uma taça de champanhe. Não era da boa tradição as mulheres tomarem vinho, ainda mais da maneira copiosa dos homens. (Jean-François Revel conta que na Antiguidade beber vinho era proibido às mulheres e que há relatos históricos de maridos que mataram as esposas por terem ido beber vinho às escondidas na adega.)»

Rubem Fonseca, em «José», pp. 11-12 (Sextante, 2012)