terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Senso e sensibilidade

«Ernest parecia contente com as rotinas de comer e beber que tinha imposto a si mesmo. Bebia um copo de vinho ao almoço, uma quantidade moderada ao jantar, e mantinha o seu Scotch nocturno reduzido a duas doses. O seu almoço favorito era um copo de vinho tinto e uma sanduíche de manteiga de amendoim e cebola crua. Pela primeira vez desde que eu o conhecia, ele ia livremente a casa de outras pessoas jantar, pois todos eram bons amigos que o deixavam fazer as próprias bebidas e em cuja comida simples de Ketchum ele podia confiar. Levava sempre o vinho, que seleccionava das suas reservas de garrafas boas mas relativamente baratas. “Desisti dos vinhos caros pela Quaresma de 1947”, Ernest explicou certa vez, “e nunca os retomei. Também deixei de fumar muito antes disso, porque o fumo de cigarro é o pior inimigo do nariz, e como é que se pode apreciar um bom vinho que não se consegue verdadeiramente cheirar?”»

A. E. Hotchner, em Papa Hemingway: A Personal Memoir

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Grande Lu

Outra coisa que tenho em comum com o grande Lu (Para ser grande, sê inteiro): eu também não acredito por aí além na Medicina.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sinais

Cultura, história, sabedoria: Fernando Alves com o Prof. Virgílio Loureiro, primeiro molhando a palavra em branco de talha, depois voltando da Amareleja. O exemplo dos antigos e o exemplo da Geórgia. Sinais de apreensão.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Belém, Belém, Belém

Quinze minutos à Belenenses justificam brindar. E o 169.º aniversário do Eça também. À sua! À do Lu, verdadeiro adepto verdadeiro, que vale por uma ― duas ― dez claques! À nossa!


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Soluço quase erótico

Uma flor que colhi há semanas na ficha técnica do Malhadinhas branco e deixei a secar na pasta dos descarregos:

«Aroma | Intenso, selvagem quase erótico.»

Vinhos feitos com Folgasão é no que dá.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Soluço moral

Beber com moderação, mas sem cobardia.


A propósito, ainda se apanha por estes dias no Aldi o Moscatel de Setúbal da Adega de Palmela, a colheita de 2012, premiada pela Decanter com medalha de prata, a cerca de 3,50 €. Não ajas como se foras viver dez mil anos, nem como se foram eternas as promoções dos supermercados.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Soluço espiclondrífico

No folheto da actual campanha de vinhos do Continente, que brinda o povo com as espiclondríficas, “lavantes” e “sucrosas” notas de prova de Aníbal Coutinho, lê-se esta explicação dos vinhos do Alentejo:

«Produzidos sobre sol intenso, tornam-se vinhos com uma graduação acima da média nacional, que lhes confere um sabor macio.» Ou seja, os vinhos alentejanos são mais alcoólicos do que os outros porque apanham sol por baixo. E depois:

«Os brancos caracterizam-se pelas suas cores e aromas expressivos, dominados pelas castas presentes em maior quantidade.» Portanto, as castas presentes em menor quantidade não logram dominar. Nos brancos alentejanos, pelo menos.

Dúvidas? Então podem sair e ir ao Continente comprar Vinha do Putto. Diz que tem notas de pastelaria doce. Mesmo a pastelaria que eu mais gramo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A fé da malta

Hoje, se o leitor me dá licença, faz anos o meu clube: o Clube de Futebol Os Belenenses. (Clube de Futebol. Não é Futebol Clube. Não é Sport nada. É Clube de Futebol. Os rapazes da praia eram portugueses de Belém.) 95 anos.

A data justifica que se saia de casa propositadamente para comprar um Ramos Pinto, digamos um Bons Ares ou um Duas Quintas. Porque os brindes, os vivas e os votos desta noite hão-de ressoar sobre os telhados do mundo a fé da malta: ― Com este símbolo, vencerás.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Hoje adiemos

Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre

Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
        Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo.
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
        Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.

Tombai, mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
        No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
        O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.

Ricardo Reis (s. d.)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vinho apagador

Melhor ainda é esta, que à primeira vista de An Evening with Robin Williams não consegui perceber. É o início do excerto que aí ficou:

«Agora vou beber um pouco de vinho, por um momento. Um pequeno apagador no quadro da vida.»

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Um filha-da-puta

Uma curiosidade sobre esse excerto de An Evening with Robin Williams, de 1982. Aquela primeira pilhéria reza assim: «Há vinhos brancos, há vinhos tintos, mas porque é que não há vinhos pretos, como: Rege, um filha-da-puta. Vai com peixe, carne, qualquer porcaria que ele quiser. Mas não era simpático ter alguém como o Mean Joe Greene a publicitá-lo? É melhor comprares isto, ou eu prego-te o cu a uma árvore.»

Ora, o exposto valeu a Robin Williams um processo judicial, intentado por um distribuidor de vinhos chamado David Rege. Este alegava ter o seu negócio — as Adegas Rege e os vinhos do mesmo nome — sofrido «dano e injúria» com a brincadeira de Williams, que, a seu ver, passava a ideia de os seus vinhos serem inferiores. Queixava-se de «“libelo comercial”, difamação pessoal, inflicção intencional e negligente de sofrimento emocional, invasão de privacidade e interferência intencional e negligente com ganho económico prospectivo».

Os tribunais não atenderam as pretensões de Rege. No arrazoado jurídico do que parece ser um processo conexo, há um número de considerações bem achadas e seriíssimas: «É fundamental que os tribunais não possam abafar a expressão ajuizando sobre a sua aptidão ou falta de jeito, a sua sensibilidade ou grosseria, nem sobre se ela magoa ou agrada.» «A comédia parte do absurdo e do inexplicável, e, como a fé, tolera o milagroso.» E, pelo meio, a melhor de todas (fazendo o favor de desculpar a minha tradução desabafada de “motherfucker”): «Escusado dizer, é conceptualmente difícil atribuir algum sentido a uma perspectiva de um vinho como um “filha-da-puta”.»