quarta-feira, 3 de junho de 2015

Inspiração


«O terceiro prazer é um que me ajuda a trabalhar. Não estou certo de que seja conveniente inclui-lo como tal. Mas vou a ele. Trata-se da combinação de moxama com amêndoas. Quando me ponho a escrever pelas tardes, sento-me diante do computador, sirvo-me um uísque — a este não incluo porque é algo meramente medicinal e estritamente laboral —, que acompanho com uns bocados de moxama e umas amêndoas. Parece-me algo completamente decisivo para escrever e para atrair a inspiração. Porque a inspiração não é os céus que se abrem, te chamam e te dizem algo. A inspiração surge com este tipo de coisas. Há um aforismo extraordinário de Lichtenberg que diz: “Não saberemos nunca quantos versos sublimes de Shakespeare se devem a um copo de vinho bebido a tempo.” E é verdade. Possivelmente, alguns dos versos da literatura que mais admiramos devem-se a que alguém bebeu um copo de vinho a tempo, e a partir desse momento pôde escrever esse verso extraordinário. Alguns artigos, bons ou maus, que consegui escrever foi pela combinação afortunada da moxama e das amêndoas.»

Fernando Savater

Mojama de atún y almendras del Algarve

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Debaixo do loureiro


Ontem almocei debaixo de um loureiro. Comi o almoço favorito do Hemingway: uma sanduíche de manteiga de amendoim e cebola crua ― e Água das Pedras da Bairrada.

Duas notas: a cebola nova não serve para esta sanduíche literária, que se quer brava comò Ernesto; e beber vinho de uma garrafa de Água das Pedras não é grande coisa. Mas não beber vinho é bem pior.

Cheirava bem, debaixo do loureiro.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Amar e beber vinho

Rubem Fonseca fez ontem 90 anos. Noventa. É de homem ― e é de mestre. Salve, mestre! Viva o mestre!


«“Entre meus leitores existem também os que são tão idiotas quanto os legumes humanos que passam todas as horas de lazer olhando televisão. Eu gostaria de poder dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos. Para cada central nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fodidos antes mesmo da bomba explodir.”
(…)
“Última pergunta: você gosta de escrever?”
“Não. Nenhum escritor gosta realmente de escrever. Eu gosto de amar e de beber vinho: na minha idade eu não deveria perder tempo com outras coisas, mas não consigo parar de escrever. É uma doença.”»

Rubem Fonseca, em Feliz Ano Novo (1975)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dia da Minha Mãe

Dia da Minha Mãe, lucro dos filhos: filetes de pescada fresca, arroz verde de hortelã, salada de alfaces, ervas, flores e cebola novíssima (Mãezinha, oh, que cebola), depois pão-de-ló com creme de limão e framboesas, e casca de laranja cristalizada com chocolate. Claro que não íamos beber nenhuma merda de nenhum Merlot.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Almendra 2014 (branco)


CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira. DOC Douro. Rabigato, Viosinho, Moscatel Galego Branco. 12% vol. 2,99 € (Supercor).

Muito aromático. Lembra um Sauvignon Blanc, mijo de gato, toranja, essas coisas. Acidez salivante. Aquela verdurinha boa. Quer-se bebê-lo em grandes talagadas, como um refresco inebriante.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

terça-feira, 24 de março de 2015

Desculpas

«Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras. É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.»

Almada Negreiros

quarta-feira, 11 de março de 2015

Introspecção


«Entrei e jantei. Foi uma refeição grande para a França, mas parecia muito cuidadosamente doseada depois de Espanha. Bebi uma garrafa de vinho para acompanhar. Era um Château Margaux. Foi agradável estar a beber devagar, e estar a saborear o vinho, e estar a beber sozinho. Uma garrafa de vinho fazia boa companhia.»

Ernest Hemingway, em Fiesta (1926)

quinta-feira, 5 de março de 2015

Circunspecção

«“Ora”, o conde levantou uma garrafa. “Acho que isto está fresco.”
Eu trouxe uma toalha e ele enxugou a garrafa e ergueu-a. “Gosto de beber champanhe de magnums. O vinho é melhor, mas teria sido demasiado difícil refrescá-lo.” Segurava a garrafa, olhando-a. Preparei os copos.
“Ouça. Podia abri-la”, Brett sugeriu.
“Sim, minha querida. Agora vou abri-la.”
Era espantoso champanhe.
“Ora, isto é que é vinho”, Brett ergueu o seu copo. “Devíamos brindar a qualquer coisa. ‘Cá vai à realeza.’”
“Este vinho é demasiado bom para beber em brindes, minha querida. Não queira misturar emoções com um vinho destes. Perde o sabor.”
O copo de Brett estava vazio.
“Devia escrever um livro sobre vinhos, conde”, disse eu.
“Mr. Barnes,” respondeu o conde, “tudo o que eu quero dos vinhos é apreciá-los.”
“Apreciemos um pouco mais deste”, Brett empurrou o seu copo para diante.
O conde verteu muito cuidadosamente. “Pronto, minha querida. Agora aprecie esse devagar, e depois pode ficar bêbeda.”
“Bêbeda? Bêbeda?”
“Minha querida, você é encantadora quando está bêbeda.”
“Ouçam o homem.”
“Mr. Barnes”, o conde encheu o meu copo. “Ela é a única senhora que jamais conheci que é tão encantadora quando está bêbeda como quando está sóbria.”
“Você não tem andado muito por aí, pois não?”
“Sim, minha querida. Tenho andado muitíssimo por aí. Tenho andado por aí um grande bocado.”
“Beba o seu vinho”, disse Brett. “Todos temos andado por aí. Atrevo-me a dizer que aqui o Jake tem visto tanto quanto você.”
“Minha querida, estou certo de que Mr. Barnes tem visto muito. Não pense que não penso assim, cavalheiro. Tenho visto muito também.”»

Ernest Hemingway, em Fiesta (1926)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Amar Beber Calar

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
          Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe
          E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis (1923)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

As bodas de Caná

«No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados. A certa altura da boda faltou o vinho. Então a mãe de Jesus disse-lhe: “Já não têm vinho!” Jesus respondeu: “E que temos tu e eu a ver com isso, mulher? A minha hora ainda não chegou.”

Ela então disse aos criados de mesa: “Façam tudo o que ele vos disser.” Havia ali seis vasilhas de pedra das que os judeus utilizavam para as suas cerimónias de purificação. Cada uma levava uns cem litros de água. Jesus mandou aos criados: “Encham de água essas vasilhas.” Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: “Tirem agora um pouco e levem ao mestre de cerimónias para ele provar.” Eles assim fizeram. O mestre de cerimónias provou a água transformada em vinho. Não sabia o que tinha acontecido, pois só os criados é que estavam ao corrente do facto. Mandou então chamar o noivo e observou-lhe: “É costume nas bodas servir primeiro o vinho melhor e só depois de os convidados terem bebido bem é que se serve o menos bom. Mas tu guardaste o melhor até agora!”

Deste modo, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais. Assim manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele.»

João 2

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Senso e sensibilidade

«Ernest parecia contente com as rotinas de comer e beber que tinha imposto a si mesmo. Bebia um copo de vinho ao almoço, uma quantidade moderada ao jantar, e mantinha o seu Scotch nocturno reduzido a duas doses. O seu almoço favorito era um copo de vinho tinto e uma sanduíche de manteiga de amendoim e cebola crua. Pela primeira vez desde que eu o conhecia, ele ia livremente a casa de outras pessoas jantar, pois todos eram bons amigos que o deixavam fazer as próprias bebidas e em cuja comida simples de Ketchum ele podia confiar. Levava sempre o vinho, que seleccionava das suas reservas de garrafas boas mas relativamente baratas. “Desisti dos vinhos caros pela Quaresma de 1947”, Ernest explicou certa vez, “e nunca os retomei. Também deixei de fumar muito antes disso, porque o fumo de cigarro é o pior inimigo do nariz, e como é que se pode apreciar um bom vinho que não se consegue verdadeiramente cheirar?”»

A. E. Hotchner, em Papa Hemingway: A Personal Memoir