sábado, 2 de março de 2013

Ninguém bebia

Um homem alto e louro, bem vestido. Óbvio inglês. Tweed. Lenço a enfeitar o pescoço. Fumador de cigarros Camel. Leitor de David Lodge e Julian Barnes. Sport, humor negro. Nome, John Walker. Nosso professor no primeiro ano da faculdade.

Pontualidade infame. Capaz de chegar às 8h45 para a aula das 8 horas. Começou por atrasos menores, até aprendermos a esperar por ele. Excelente português, nunca usado com os alunos. Achava ridícula a forma como se pronuncia «Titanic» em Portugal.

Um dia em que me apresentei de camisa clara e gravata escura com bonecos, fez-me ficar de pé no meio da sala pequena, entre as mesas dispostas em u. Único rapaz na turma, dez, doze raparigas. (A minha mulher.) (Estudar Literatura é muito viril. Não tanto como gravatas com bonecos.) Depois mandou-me sair, beber café, dar uma volta. Elas ficaram a descrever-me, ele a escrever no quadro. Barbudo; sombrio; misterioso. Very typical.

Outra vez perguntou-nos se fumávamos. Se bebíamos. Ninguém fumava, ninguém bebia. Possivelmente era verdade. Ele, semblante sério: «Fazem muito bem em não fumar e não beber.» Pausa. «Mas não sabem o que perdem.»

1 comentário:

Flavio Silva disse...

De acordo quanto ao não beber (beber prazenteiramente, mas moderadamente e, essencialmente, vinho). Já quanto ao não fumar, respeitando quem tem prazer em fazê-lo, o assassino carcinoma leva-me a discordar. E isto é a razão e o coração a falar.