Salve, irmãs e irmãos. Vai um copo, em nome dos velhos tempos?
Sugiro que optemos por um de três truísticos, mui tragáveis, sem tremendos truques tintos que provei e bebi com prazer ultimamente, a saber: o vetusto Periquita de 2018, da José Maria da Fonseca; o vinho da casa do restaurante do Sport Clube e Olivais, de que só sei dizer que é servido fresco, se se quiser e como é melhor, em garrafas de litro de Faisão branco adamado; e o modestíssimo Porta da Tapada 2016, da Adega Cooperativa de Azueira.
O que une este trio de vinhitos — diminutivo enaltecedor, como sabe quem alguma vez tenha ouvido Joaquim Bação perguntar sobre o vinho de talha da sua bela Adega Velha, em Mourão: «O vinhito bebe-se?» — é o corpo lépido, o balanço fresco e afrutado, a simpleza do vinho próprio para beber — e, no Periquita e no Porta da Tapada, pelo menos, a predominância do Castelão, possivelmente, a nossa casta mais sábia.
Bebamos, pois! À razão!
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Fraternidade
Mundo! Irmãos! Feliz Dia de São Martinho!
«Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio, voltou-se para mim e disse: “Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras.”
Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita...
A fraternidade tem subtilezas.
Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia — não há diferença de qualidade, mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, eu, o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.»
Bernardo Soares (s. d.)
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«Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio, voltou-se para mim e disse: “Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras.”
Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita...
A fraternidade tem subtilezas.
Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia — não há diferença de qualidade, mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, eu, o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.»
Bernardo Soares (s. d.)
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Carlos
«— Bucelas? — murmurou-lhe sobre o ombro o escudeiro.
O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe à luz a cor rica, provou-o com a ponta do lábio, e piscando o olho para Afonso:
— É do nosso!
— Do velho — disse Afonso. — Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom néctar?
— Magnificente! — exclamou o preceptor com uma energia fogosa.
Então Carlos, estendendo o braço por cima da mesa, reclamou também Bucelas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Vilaça. O avô não consentiu; o menino teria o seu cálice de Colares, como de costume, e um só. Carlos cruzou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Vilaça poderia apanhar uma gotinha de Bucelas? Aí estava uma linda maneira de receber os hóspedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera o sr. administrador, havia de pôr à noite para o chá o fato novo de veludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para Bucelas... Então não entendia.
O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão severo.
— Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que palram à mesa.
Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
— Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...
Houve um sorriso em volta da mesa. A própria viscondessa, deleitada, agitou preguiçosamente o leque: o abade, com a sua boa face banhada em êxtase para o menino, apertava as mãos cabeludas contra o peito, tanto aquilo lhe parecia engraçado: e Afonso tossia por trás do guardanapo, como limpando as barbas — a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava nos olhos.»
Eça de Queiroz, em Os Maias (1888)
O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe à luz a cor rica, provou-o com a ponta do lábio, e piscando o olho para Afonso:
— É do nosso!
— Do velho — disse Afonso. — Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom néctar?
— Magnificente! — exclamou o preceptor com uma energia fogosa.
Então Carlos, estendendo o braço por cima da mesa, reclamou também Bucelas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Vilaça. O avô não consentiu; o menino teria o seu cálice de Colares, como de costume, e um só. Carlos cruzou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Vilaça poderia apanhar uma gotinha de Bucelas? Aí estava uma linda maneira de receber os hóspedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera o sr. administrador, havia de pôr à noite para o chá o fato novo de veludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para Bucelas... Então não entendia.
O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão severo.
— Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que palram à mesa.
Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
— Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...
Houve um sorriso em volta da mesa. A própria viscondessa, deleitada, agitou preguiçosamente o leque: o abade, com a sua boa face banhada em êxtase para o menino, apertava as mãos cabeludas contra o peito, tanto aquilo lhe parecia engraçado: e Afonso tossia por trás do guardanapo, como limpando as barbas — a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava nos olhos.»
Eça de Queiroz, em Os Maias (1888)
segunda-feira, 18 de abril de 2016
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Catapereiro 2015 (branco)
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Vinha bêbado
VINHA BÊBADO SEMPRE PARA CASA
Vinha bêbado sempre para casa
Resmungando uma coisa só metade.
Mas os que não vêm bêbados p’ra casa,
Trarão consigo mais verdade?
Sim, o que é vinho tolda a inteligência:
O homem sonha e supõe que isso é pensar.
Mas o não beber vinho dá ciência?
O andar direito é acertar?
Não, o critério é errado; que o que importa
Não é saber, cá neste mundo vão,
Se se pode encontrar a casa e a porta,
Mas se se encontra o coração.
Fernando Pessoa (1934)
Vinha bêbado sempre para casa
Resmungando uma coisa só metade.
Mas os que não vêm bêbados p’ra casa,
Trarão consigo mais verdade?
Sim, o que é vinho tolda a inteligência:
O homem sonha e supõe que isso é pensar.
Mas o não beber vinho dá ciência?
O andar direito é acertar?
Não, o critério é errado; que o que importa
Não é saber, cá neste mundo vão,
Se se pode encontrar a casa e a porta,
Mas se se encontra o coração.
Fernando Pessoa (1934)
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Quinta de S. Francisco 2010
Amigos leitores: é Primavera; e nós estamos vivos.
Comp. Agr. do Sanguinhal. DOC Óbidos. Castelão, Aragonez, Touriga Nacional. Miguel Móteo (enol.). 13,5% vol. 4,99 € (Intermarché).
Notas aromáticas de pimento {verde}, fruta silvestre, resina {de pinheiro}, After Eight Mint Chocolate Thins e café. Aveludado (mas ainda com uma suave rugosidade, e tintureiro, descobre-se nos dentes), fino, de contornos nítidos, frutado, com um bom travo vegetal.
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Comp. Agr. do Sanguinhal. DOC Óbidos. Castelão, Aragonez, Touriga Nacional. Miguel Móteo (enol.). 13,5% vol. 4,99 € (Intermarché).
Notas aromáticas de pimento {verde}, fruta silvestre, resina {de pinheiro}, After Eight Mint Chocolate Thins e café. Aveludado (mas ainda com uma suave rugosidade, e tintureiro, descobre-se nos dentes), fino, de contornos nítidos, frutado, com um bom travo vegetal.
quinta-feira, 31 de março de 2016
Terra d'Alter Reserva 2012
Ih... deixei-me hibernar. Granda urso.
Terras de Alter, Comp. de Vinhos. Regional Alentejano (Fronteira). Trincadeira, Tinta Caiada, Aragonez e outras de vinhas velhas. Peter Bright (enol.). 15% vol. Cerca de 14 € (Café Alentejo).
Aroma complexo, insinuante, de flores, frutos e plantas silvestres, com notas balsâmicas e uma exalação de perfume feminino. Grande na boca, em estrutura, sabor e final. Seriamente bom.
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Terras de Alter, Comp. de Vinhos. Regional Alentejano (Fronteira). Trincadeira, Tinta Caiada, Aragonez e outras de vinhas velhas. Peter Bright (enol.). 15% vol. Cerca de 14 € (Café Alentejo).
Aroma complexo, insinuante, de flores, frutos e plantas silvestres, com notas balsâmicas e uma exalação de perfume feminino. Grande na boca, em estrutura, sabor e final. Seriamente bom.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Feliz vinho novo
Eh pá, ontem comprei um tinto de 2015. Terra d'Alter, o tal australentejano. Bebi-o ao jantar e hoje ao almoço, com mais curiosidade do que satisfação. O vinho está adstringente e fechado no tocante a aromas. Olhem, vai bem é com uma daquelas guloseimas algarvias em massa de amêndoa e doce e fios de ovos. Ou com uma batatinha de maçapão. Ou com as duas.
Feito de Trincadeira, Aragonez e Syrah, diz que passou seis meses em carvalho francês. Seis meses. Portanto, isto é vinho de Junho, Julho, o mais tardar. O sol em Fronteira está forte, ó Peter.
Feliz vinho novo! Feliz ano novo!
Feito de Trincadeira, Aragonez e Syrah, diz que passou seis meses em carvalho francês. Seis meses. Portanto, isto é vinho de Junho, Julho, o mais tardar. O sol em Fronteira está forte, ó Peter.
| Para não pensarem que estou a mangar. |
Feliz vinho novo! Feliz ano novo!
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Apanhei-te, Beaujolinho
Senhoras e senhores, amigos leitores. Ontem, abandonado, apeado, desterrado, e por todas as formas impossibilitado de rumar à Festa do Vinho Novo no Café Tati, como apetecia, mas profissionalmente obstinado e provisoriamente ousado, montei-me no meu fiel duas-pernas e caminhei mais de seis quilómetros em busca de uma garrafa de Beaujolais Nouveau. Quer dizer, deu-me a maluqueira. Ou será que tenho um problema com a bebida? Fosse o que fosse, passou-me tudo quando me sentei a beber sensivelmente o meu quartilho de Gamay.
Quanto a notas de prova, basta repetir as de Bernard Pivot, que não falham por muito: «um vinho alegre, arrojado, de bochechas vermelhas, boca de Primavera, que se degusta menos do que se emborca como um elixir de juventude e de bom humor»; «uma curiosidade, uma felicidade de circunstância, uma gulodice temporã e apetitosa», com «os seus aromas de pomar de padre e de canteiro de professor primário».
À votre, amis français.
| Grâces à Dieu. |
Quanto a notas de prova, basta repetir as de Bernard Pivot, que não falham por muito: «um vinho alegre, arrojado, de bochechas vermelhas, boca de Primavera, que se degusta menos do que se emborca como um elixir de juventude e de bom humor»; «uma curiosidade, uma felicidade de circunstância, uma gulodice temporã e apetitosa», com «os seus aromas de pomar de padre e de canteiro de professor primário».
À votre, amis français.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Vinho novo, vida nova
«Para compreender o sucesso fenomenal do beaujolais nouveau, é preciso ser melhor psicólogo do que enólogo. Novembro é o mês mais triste do ano. Tempo frio, húmido, ventoso. O Verão e as férias não são mais do que fotografias. No dia 1 ou 2, visitou-se os cemitérios. O dia 11 celebra a vitória de milhões de mortos. Há sempre greves. O Natal parece ainda muito longe. Aborrece-se. Tem-se o moral nas meias. E eis que, na terceira quinta-feira, irrompe um vinho alegre, arrojado, de bochechas vermelhas, boca de Primavera, que se degusta menos do que se emborca como um elixir de juventude e de bom humor. Na melancolia do Outono, uma vontade de festa popular exprime-se através do beaujolais nouveau. A sua sorte é chegar no momento certo.
Não é senão uma curiosidade, uma felicidade de circunstância, uma gulodice temporã e apetitosa. Em Tóquio como em Nova Iorque, em Vancouver como em Seul, ele destoa, porque é um dos raros produtos a afastar-se da tradição do grande luxo à francesa. Recebe-se-lo sem cerimónias e aprecia-se — senão, porque o beberiam estes estrangeiros? — os seus aromas de pomar de padre e de canteiro de professor primário.»
Bernard Pivot, em Dictionnaire Amoureux du Vin (2006)
Não é senão uma curiosidade, uma felicidade de circunstância, uma gulodice temporã e apetitosa. Em Tóquio como em Nova Iorque, em Vancouver como em Seul, ele destoa, porque é um dos raros produtos a afastar-se da tradição do grande luxo à francesa. Recebe-se-lo sem cerimónias e aprecia-se — senão, porque o beberiam estes estrangeiros? — os seus aromas de pomar de padre e de canteiro de professor primário.»
Bernard Pivot, em Dictionnaire Amoureux du Vin (2006)
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Damasceno 2013 (branco)
Quinta da Serralheira – Vinhos. Regional Península de Setúbal. Fernão Pires, Chardonnay, Verdelho. Nuno Cancela de Abreu (enol.). 13,5% vol. 14 € (?) (490 Taberna STB).
Citrino como um limão maduro nos aromas, arredondado nos sabores, mineral nos confins. Deu excelente conta de si com duas ostras de Setúbal (tão-só as que restavam às 14h de um domingo de Verão), um tachinho de mexilhões e um delicado arroz de lingueirão.