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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Bucellas 2011

Os clássicos redimem-nos. (É possível que eu lesse esta frase ao meu mestre das montanhas e neblinas — um mestre indeliberado, ausente e silencioso — Francisco José Viegas.) Os clássicos salvam-nos da presunção, da ignorância, das certezas absolutas. Os clássicos reconduzem-nos ao essencial.

O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.

Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.



Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).

Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Entrevista com Francisco José Viegas

Nos vinhos, quais são os seus clássicos? Tem uma reserva de imprescindíveis?
Confesso que a resposta é negativa em relação a ambas as perguntas... Ou seja: não tenho uma reserva de vinhos imbatíveis. Depende muito da estação do ano, da meteorologia, da comida, daquilo que se vai fazer a seguir, daquilo que se fez antes. Um vinho não se bebe num laboratório, como se todo o bebedor fosse um provador e um detector organoléptico... De modo que há vinhos que são eternos porque apelam a uma memória, a um sentido da vida, a uma esperança no destino – não exagero. Eu nasci na aldeia onde se produziu o primeiro Barca Velha, o que me deixa sempre comovido. O Quinta da Leda de outrora era mesmo ao lado. O novíssimo Meandro e o Vale Meão, naturalmente. Fazem parte da minha geografia, da forma como se olha o rio, da maneira como recordo as idas do meu avô à Quinta do Vale Meão e eu o acompanhava (ele era operário, e fazia consertos na canalização da quinta...). O Quinta da Leda de 2009 é um bom exemplo de grande vinho, tal como o Robustus Niepoort ou o Poeira. À parte isso, há vinhos como o Valle Pradinhos, por exemplo, que evocam também uma parte da minha infância em casa dos avós maternos, perto de Bragança... De resto, apaixonam-me os novos brancos e rosés do Douro, que provam e sustentam a capacidade inventiva dos criadores da região. E às vezes tenho saudades de vinhos que já não existem, como o Grantom dos anos setenta... Ou do Evel branco de 2000, uma pérola que não se repete.

Tomemos o arroz de bacalhau de Jaime Ramos. Ramiro levou uma garrafa de vinho, não sabemos qual, para o jantar com o inspector. Aquele prato não tem o seu vinho perfeito?
Tem. Eles bebem Valle Pradinhos branco. Uma recordação de adolescência tardia, um sabor único, um aroma frágil.

Enochateia-se facilmente? Quantos descritores aromáticos parvos são precisos para irritar um duriense?
Irrito-me, sim. Os enochatos são uma categoria de gente aborrecida, capazes de destruir um vinho só com uma frase. A verdade é que se trata de uma forma de estar na vida, e eles dependem largamente da sua capacidade de alardear conhecimentos a propósito e despropósito. É como se vivessem num laboratório e numa “lista dos vinte mais”... Ora, que eu saiba, o comportamento de um vinho depende muito da companhia para jantar, das conversas à mesa, da comida, da paisagem, do apetite. Não acredito em características imutáveis de um vinho e suponho, mesmo, que um vinho perde qualidades quando é bebido com pessoas aborrecidas. A ideia de que um vinho sabe a madeiras velhas, ou a amoras silvestres, ou a cera de eucalipto ou a terebintina, é-me razoavelmente duvidosa. Um vinho é a sua paisagem, a sua poeira, a sua memória, o prazer que nos concede.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Espiral de dívida

Nem sei muito bem como exprimir esta pura alegria: homens que admiro — a quem estou penhorado pelo simples benefício da sua actividade, da sua erudição, do seu génio, do seu humor, da sua sensatez — consentirem em gastar algum tempo para responder a perguntas que lhes remeto. Posso dizer, sem exagero, que cada frase em retorno vale Barca Velha.

Nos livros aprende-se a viver. De resto, além do amor e da viagem, eles são a única coisa que prolonga as nossas vidas. O leitor sabe. Só por isso, devemos toda a gratidão do mundo aos nossos autores.

As “entrevistas frugais” regressam depois de amanhã, com Francisco José Viegas. Sou seu leitor, era fatal: perdi-me numa espiral de dívida.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vinhos essenciais

Um copo de Velletri
O Francisco José Viegas possui um talento raro entre os romancistas, os cronistas e até os críticos da especialidade contemporâneos: sempre que toca em assuntos de gastronomia, a sua escrita desperta apetites irresistíveis. A Academia Portuguesa de Gastronomia reconheceu-o em 2007, quando lhe atribuiu o Grande Prémio da Cultura e Literatura Gastronómica.
Na altura, Francisco José Viegas escrevia na «Notícias Sábado», revista do «Diário de Notícias» e do «Jornal de Notícias». Conservo algumas dessas páginas de tentação, preenchidas com charutos, cervejas e receitas de cozinha, que se liam já com delícias.
Há dois anos, numa crónica sobre Roma, publicada na revista «Volta ao Mundo», ele falava de um certo restaurante, onde se serve «a mais genuína comida romana», — e evocava os seus vinhos: «temperados e frios, essenciais».
Eu, que tive, entretanto, a felicidade de jantar nesse bendito restaurante e de provar os vinhos, o branco e o tinto, trazidos à mesa em jarros de vidro, senti-me grato à prosa inspirada e generosa do Francisco José Viegas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dois companheiros dourados

Bebi ontem dois bons vinhos de 2003: Terra Cota, um branco ribatejano, e o Colheita Tardia da Niepoort.
Foi uma feliz coincidência, reunirem-se no frigorífico dois companheiros de colheita. Imagino que um tal encontro não pudesse ocorrer em muitos outros lares, pela simples razão de que o Mercado, esse brutamontes, não gosta de brancos com mais de dois ou três anos de idade. O Mercado não tem vagar para subtilezas.
Os sete anos destes dois vinhos puseram em ambos sensivelmente o mesmo suave dourado. O Terra Cota, feito de Fernão Pires, está melífluo de aroma, mas não perdeu a frescura. Tem mesmo um agradável fundo vegetal, viçoso, que o torna muito bom de beber. A 3 € a garrafa, foi um achado.
O Colheita Tardia da Niepoort, comprei-o depois de ouvir na rádio a entrevista que o Francisco José Viegas fez a Alfredo Saramago, a propósito do lançamento de um livro em que o gastrónomo apresenta uma selecção de 125 vinhos. Esse programa, de 2007, ainda pode, e merece, ser ouvido. Sobre a degustação de um vinho e a linguagem dos críticos, diz Alfredo Saramago: — «Por exemplo: um determinado aroma a chocolate; um determinado aroma a frutos maduros. Sim, porque aquilo é feito de fruta, não é verdade? Mais madura ou menos madura. Há uma quantidade de termos que são perfeitamente compreensíveis, e que nós, de uma maneira ou de outra, chegamos lá. Há outros que são delírio.»
Mais adiante, o Francisco José Viegas confessa-se «destruído» por não ter encontrado uma garrafa deste Colheita Tardia, que, no livro do seu entrevistado, aparece assim descrito: «Cor magnífica. Bem estruturado. Aromas ricos. Mais um ano e será paixão.»
Quanto a mim, trata-se realmente de um belo vinho, com um aroma que lembra maracujá e uma doçura bem temperada de acidez. Não o achei apaixonante, mas agradou-me; e, como também dizia Alfredo Saramago, «esse agradar-me já é muito bom».