terça-feira, 23 de setembro de 2014

A fé da malta

Hoje, se o leitor me dá licença, faz anos o meu clube: o Clube de Futebol Os Belenenses. (Clube de Futebol. Não é Futebol Clube. Não é Sport nada. É Clube de Futebol. Os rapazes da praia eram portugueses de Belém.) 95 anos.

A data justifica que se saia de casa propositadamente para comprar um Ramos Pinto, digamos um Bons Ares ou um Duas Quintas. Porque os brindes, os vivas e os votos desta noite hão-de ressoar sobre os telhados do mundo a fé da malta: ― Com este símbolo, vencerás.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Hoje adiemos

Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre

Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
          Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo.
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
          Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.

Tombai, mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
          No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
          O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.

Ricardo Reis (s. d.)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vinho apagador

Melhor ainda é esta, que à primeira vista de An Evening with Robin Williams não consegui perceber. É o início do excerto que aí ficou:

«Agora vou beber um pouco de vinho, por um momento. Um pequeno apagador no quadro da vida.»

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Um filha-da-puta

Uma curiosidade sobre esse excerto de An Evening with Robin Williams, de 1982. Aquela primeira pilhéria reza assim: «Há vinhos brancos, há vinhos tintos, mas porque é que não há vinhos pretos, como: Rege, um filha-da-puta. Vai com peixe, carne, qualquer porcaria que ele quiser. Mas não era simpático ter alguém como o Mean Joe Greene a publicitá-lo? É melhor comprares isto, ou eu prego-te o cu a uma árvore.»

Ora, o exposto valeu a Robin Williams um processo judicial, intentado por um distribuidor de vinhos chamado David Rege. Este alegava ter o seu negócio — as Adegas Rege e os vinhos do mesmo nome — sofrido «dano e injúria» com a brincadeira de Williams, que, a seu ver, passava a ideia de os seus vinhos serem inferiores. Queixava-se de «“libelo comercial”, difamação pessoal, inflicção intencional e negligente de sofrimento emocional, invasão de privacidade e interferência intencional e negligente com ganho económico prospectivo».

Os tribunais não atenderam as pretensões de Rege. No arrazoado jurídico do que parece ser um processo conexo, há um número de considerações bem achadas e seriíssimas: «É fundamental que os tribunais não possam abafar a expressão ajuizando sobre a sua aptidão ou falta de jeito, a sua sensibilidade ou grosseria, nem sobre se ela magoa ou agrada.» «A comédia parte do absurdo e do inexplicável, e, como a fé, tolera o milagroso.» E, pelo meio, a melhor de todas (fazendo o favor de desculpar a minha tradução desabafada de “motherfucker”): «Escusado dizer, é conceptualmente difícil atribuir algum sentido a uma perspectiva de um vinho como um “filha-da-puta”.»

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Um bom rapaz

«Eu gosto do meu vinho como gosto das minhas mulheres: prestes a desfalecer.»

Copos ao alto pelo génio de Robin Williams. Consta que era um bom rapaz. Paz à sua alma.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O perfume do tempo

«The business of life is the acquisition of memories. In the end, that's all there is.» O negócio da vida é a aquisição de memórias. No fim, é tudo o que há.

A cogitação é de Mr. Carson, mordomo — e adegueiro, e escanção — de Downton Abbey. Havemos de ir a Yorkshire, shall we?

Aí ficam duas aquisições recentes. O Casal da Azenha Reserva Velho 1960 foi uma alegria que o Barrete Saloio nos deu. Uma cortesia entre Inácios, para nos consolar da falta do Morgado de Bucelas.

Aroma gordo, balsâmico, de café, carne, especiarias e sei lá
que mais. Excelente com o toucinho do céu da D. Fernanda.

Essoutra memória, o José de Sousa 1998, adquiri-a particularmente, numa tardinha de domingo. No mesmo dia, ao almoço, tivemos Tapada do Chaves 2000 branco. Ambos agradaram muito. Como notou a dona da casa, tinham perfume.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Soluço de grande intensidade

SMS recebido:
Estou a ver anúncio a novo vinho da Herdade do Peso. Trinca Bolotas. Grande intensidade aromática, dizem. Gosto do nome.

SMS enviado:
Também gosto do nome. Da grande intensidade aromática nem tanto. De um modo geral a grande intensidade aborrece-me. É coisa para adolescentes e jovenzinhas.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Maridagens sushinesas

Dois vinhos supimpas para acompanhar sushi (nós usamos mais dizer sushinês, que é o misto de comidas de olhos em bico que às vezes compramos): JP rosicler (no caso vertente de ontem, o 2012) e Terra d'Alter Viognier (ibidem, o 2013).

Chin-chin!

Soluço cândido

Certo bom rapazinho de ainda nem 25 anos vinha jantar, maila namorada, ao nosso Cafofo. Perguntou se havia de trazer vinho. Respondi-lhe com a pilhéria do costume:

― É claro que não precisas trazer nada, mas, se quiseres, só não vale repetir o Quinta da Mimosa. Traz Mouchão, por exemplo.

― Teu chão?

Mouchão. É baratinho.

― E onde é que há disso?

― Em todo o lado. Caso não encontres, traz Barca Velha, ou assim.

― Está bem. Mas quantas? E é branco ou é tinto?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Rosicler

Ando com uma vontade de rosés, que nem lhes digo nada, amigos. Culpa do bom do Malhadinhas cor-de-rosa, que topei há tempos num supermercado fornecido pela distribuidora Garcias (não o encontro em mais nenhures, nem nos Supercor, onde há o branco e o tinto) e me acendeu esta sede nova. A cor muito bonita, com certa feição prometedora de secura; os aromas delicados e vinosos, ao invés de exuberantes e melosos; enfim, os sabores secos prometidos, maila frescura e a formosura apetecidas. Bendito Malhadinhas!

Depois desta aparição, tenho bebido outros rosés muito bons: o Terra d'Alter*, australentejano de Peter Bright; o do Pingo Doce, da Cooperativa de Santo Isidro de Pegões (medalha de prata em Bruxelas!), feito só de Castelão pelo infalível Jaime Quendera; um Ribera del Duero chamado Viñarroyo, 100% Tempranillo, com uma acidez soberba, descoberto no Rubro do Campo Pequeno; o Beyra, outro Tempranillo estreme (curiosamente, usa o nome espanhol da casta, mas acompanhado do português, Tinta Roriz), maravilhoso, ao nível dos brancos da mesma lavra; só para completar o ramalhete rosicler, ajunte-se o JP, malgrado a tampa de rosca e um tantinho de álcool a mais, que o Moscatel Roxo, o carácter bem seco e, já agora, o preço largamente compensam.

Saúde, leitores!

* Prove-se o Terra d'Alter tinto de 2013 quanto antes, novinho como está. «That age is best which is the first, / When youth and blood are warmer». Além de evocar estes versos, fez-me pensar em vinho de talha!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Bucellas 2011

Os clássicos redimem-nos. (É possível que eu lesse esta frase ao meu mestre das montanhas e neblinas — um mestre indeliberado, ausente e silencioso — Francisco José Viegas.) Os clássicos salvam-nos da presunção, da ignorância, das certezas absolutas. Os clássicos reconduzem-nos ao essencial.

O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.

Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.



Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).

Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O fracote milagre

«Ouvi dizer que ele transformou água em vinho, mas
aquilo era um Periquita mesopotâmico muita fraquinho.»

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Soluço conclusivo

Se as Caves São João são mudas, quer dizer que não conseguem fazer vinhos expressivos.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Soluço otorrinolaringológico

Tem graça que as Caves Velhas ouvem bem, mas as Caves São João parecem surdas que nem calhaus.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Soluço são-joãozinho

As Caves São João é que podiam organizar um seminário de business management, ou wine business, ou que é, subordinado ao tema Como Fidelizar Clientes: Nunca Responder ao Correio desses Cabrões.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Vinho em Pó

A 19.ª Mostra de Vinhos de Marateca e Poceirão resumidamente ilustrada. De salientar o Prémio Este Levava-me ao Alcoolismo 2014, conforme disse uma senhora chique mas chique a valer ao provar o vinho número 2, que eu bem (ou)vi, do Sr. António José da Costa Carreira. Um Castelão puro Monte Carreira. Pois claro.



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Continuar

Adeus, Março ferido. Até nunca, Abril oco. Maio é maior, será melhor. Estamos vivos. O vinho continua.


«Todos estamos na vida como os equilibristas, pendentes de um fio, e necessitamos manter um certo equilíbrio com a realidade, com as coisas, com nós mesmos, com o que estamos fazendo, e desejamos esse equilíbrio que, se nos perguntam, dizemos que depende de coisas tremendas: a felicidade, a liberdade, a justiça, coisas, todas elas, muito importantes, mas a verdade é que, dia a dia, em cada momento, esse equilíbrio depende de cada um dos nossos pequenos prazeres, a que nos agarramos e graças aos quais nos mantemos no equilíbrio vital de cada dia. Os pequenos prazeres são pequenos, mas não deixam de ser importantes. Por isso creio que Ortega, embora não se referisse aos prazeres, quando disse que quem não concede valor às pequenas coisas da vida tampouco entende as coisas grandes, é porque também, no fundo, as coisas grandes se decompõem em pequenos prazeres.»

Fernando Savater

quarta-feira, 12 de março de 2014

Xaropes para totós

O leitor por acaso sabe em que endereço de correio electrónico atendem as Caves São João?


«Já as aplicações medicinais das bebidas alcoólicas são muito interessantes — o vinho era utilizado para cauterizações, limpeza de ferimentos e fricções, além de servir na preparação de poções à base de ervas. Para as crianças, uma dose diária de vinho preveniria que urinassem na cama.

O célebre médico João Curvo Semedo (1635-1719), em sua obra Observações médicas doutrinárias de cem casos gravíssimos (...), recomendava a quem quisesse abandonar o “vício da bebice” servir ao beberrão “vinho em que se afogavam duas enguias vivas” ou “vinho em que se misturou um pouco de esterco de homem”. E ainda “recolher o suor dos campanhões (testículos) de um cavalo quando estivesse suado” e servir ao bêbado, que poderia também escolher entre um copo de “vinho tinto em que se deitou uma fatia de pão que estivesse duas horas no sovaco de um agonizante” ou “o vinho que se deitou por meia hora dentro dos sapatos do mesmo bêbado, quando os descalçar, estando ainda quentes”.»

Sergio de Paula Santos, em Memórias de Adega e Cozinha (2007)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Adeus, Maestro

Nico Nicolaiewsky, o Maestro Pletskaya do maravilhoso Tangos & Tragédias, um espectáculo que era uma festa de música e riso e que fez quase trinta anos de carreira, morreu há um mês. Soubémo-lo há dois dias. Nessa noite, sentámo-nos com duas Caipirinhas. Ouvimos somente o início do Epitáfio dos Titãs e brindámos à vida e a ele. Paz à sua alma.

Lê-se no Facebook uma historinha luminosa, onde ecoa a voz e a benignidade do Maestro Pletskaya. No final de mais uma representação de Tangos & Tragédias, uma senhora dirigiu-se a ele, ainda no figurino, e disse-lhe que já tinha visto o espectáculo oito vezes (a sortuda; eu só pude ver cinco). Ele, decerto arregalando um sorriso de todo o tamanho, respondeu no seu sotaque inventado da Sbørnia: «E AINDA NON INTENDEU?!»

quarta-feira, 5 de março de 2014

Fredy

Após a derrota com o Benfica, domingo passado (a 11.ª no campeonato; o 13.º jogo em branco), o treinador do Belenenses, Marco Paulo, afirmou que os seus jogadores tiveram «uma grande capacidade de luta e entrega contra, talvez, a melhor equipa do campeonato». O capitão, Fernando Ferreira, declarou: «Esta é uma resposta clara do plantel perante uma equipa muito forte.» O guarda-redes, Matt Jones, disse: «Ficámos tristes, mas a verdade é que este jogo não era do nosso campeonato.»

Faça-se um favor a estas alminhas e piche-se em todas as paredes das áreas reservadas do Estádio do Restelo o axioma de Wittgenstein: «Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.» Se se achar melhor, substitua-se mundo por futebol. «Os limites da minha linguagem são os limites do meu futebol.» Enquanto persistam no discurso, na postura e na prática dos medíocres, não deixarão de ser medíocres.

Fredy — um rapaz de 24 anos que há 13 representa o Belenenses e que fala em alegria como uma forma de jogar futebol — salvou-nos a face. Expulso no domingo com dois cartões amarelos numa questão de segundos, por protestar com o árbitro (cujo trabalhinho o “mister” Jesus achou muita bom), retractou-se deste modo: «Perdi a cabeça. Meti-me a jeito. Foi uma criancice da minha parte. (...) O primeiro amarelo foi justo, mas o segundo já não. Apenas disse ao árbitro que ele estava a desrespeitar o clube. E, sejamos francos, foi isso que ele fez.»

Não é a primeira vez que Fredy dá aos seus companheiros um exemplo de galhardia, de honradez e de respeito pela camisola que veste. Depois da primeira mão das meias-finais da última Taça de Portugal, que o Belenenses disputou com o Vitória de Guimarães, ele, sorrindo que nem Matateu, prestou o seguinte esclarecimento: «Esta equipa nunca desiste, acredita sempre. Perdemos por 2-0, temos de ir lá ganhar por 3-0.»

Ergo o meu copo a este espírito: cá vai à saúde, ao êxito e à alegria do Fredy! — um grande jogador do Belenenses.