Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo.
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai, mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
Ricardo Reis (s. d.)
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Vinho apagador
Melhor ainda é esta, que à primeira vista de An Evening with Robin Williams não consegui perceber. É o início do excerto que aí ficou:
«Agora vou beber um pouco de vinho, por um momento. Um pequeno apagador no quadro da vida.»
«Agora vou beber um pouco de vinho, por um momento. Um pequeno apagador no quadro da vida.»
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Um filha-da-puta
Uma curiosidade sobre esse excerto de An Evening with Robin Williams, de 1982. Aquela primeira pilhéria reza assim: «Há vinhos brancos, há vinhos tintos, mas porque é que não há vinhos pretos, como: Rege, um filha-da-puta. Vai com peixe, carne, qualquer porcaria que ele quiser. Mas não era simpático ter alguém como o Mean Joe Greene a publicitá-lo? É melhor comprares isto, ou eu prego-te o cu a uma árvore.»
Ora, o exposto valeu a Robin Williams um processo judicial, intentado por um distribuidor de vinhos chamado David Rege. Este alegava ter o seu negócio — as Adegas Rege e os vinhos do mesmo nome — sofrido «dano e injúria» com a brincadeira de Williams, que, a seu ver, passava a ideia de os seus vinhos serem inferiores. Queixava-se de «“libelo comercial”, difamação pessoal, inflicção intencional e negligente de sofrimento emocional, invasão de privacidade e interferência intencional e negligente com ganho económico prospectivo».
Os tribunais não atenderam as pretensões de Rege. No arrazoado jurídico do que parece ser um processo conexo, há um número de considerações bem achadas e seriíssimas: «É fundamental que os tribunais não possam abafar a expressão ajuizando sobre a sua aptidão ou falta de jeito, a sua sensibilidade ou grosseria, nem sobre se ela magoa ou agrada.» «A comédia parte do absurdo e do inexplicável, e, como a fé, tolera o milagroso.» E, pelo meio, a melhor de todas (fazendo o favor de desculpar a minha tradução desabafada de “motherfucker”): «Escusado dizer, é conceptualmente difícil atribuir algum sentido a uma perspectiva de um vinho como um “filha-da-puta”.»
Ora, o exposto valeu a Robin Williams um processo judicial, intentado por um distribuidor de vinhos chamado David Rege. Este alegava ter o seu negócio — as Adegas Rege e os vinhos do mesmo nome — sofrido «dano e injúria» com a brincadeira de Williams, que, a seu ver, passava a ideia de os seus vinhos serem inferiores. Queixava-se de «“libelo comercial”, difamação pessoal, inflicção intencional e negligente de sofrimento emocional, invasão de privacidade e interferência intencional e negligente com ganho económico prospectivo».
Os tribunais não atenderam as pretensões de Rege. No arrazoado jurídico do que parece ser um processo conexo, há um número de considerações bem achadas e seriíssimas: «É fundamental que os tribunais não possam abafar a expressão ajuizando sobre a sua aptidão ou falta de jeito, a sua sensibilidade ou grosseria, nem sobre se ela magoa ou agrada.» «A comédia parte do absurdo e do inexplicável, e, como a fé, tolera o milagroso.» E, pelo meio, a melhor de todas (fazendo o favor de desculpar a minha tradução desabafada de “motherfucker”): «Escusado dizer, é conceptualmente difícil atribuir algum sentido a uma perspectiva de um vinho como um “filha-da-puta”.»
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Um bom rapaz
«Eu gosto do meu vinho como gosto das minhas mulheres: prestes a desfalecer.»
Copos ao alto pelo génio de Robin Williams. Consta que era um bom rapaz. Paz à sua alma.
Copos ao alto pelo génio de Robin Williams. Consta que era um bom rapaz. Paz à sua alma.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
O perfume do tempo
«The business of life is the acquisition of memories. In the end, that's all there is.» O negócio da vida é a aquisição de memórias. No fim, é tudo o que há.
A cogitação é de Mr. Carson, mordomo — e adegueiro, e escanção — de Downton Abbey. Havemos de ir a Yorkshire, shall we?
Aí ficam duas aquisições recentes. O Casal da Azenha Reserva Velho 1960 foi uma alegria que o Barrete Saloio nos deu. Uma cortesia entre Inácios, para nos consolar da falta do Morgado de Bucelas.
Essoutra memória, o José de Sousa 1998, adquiri-a particularmente, numa tardinha de domingo. No mesmo dia, ao almoço, tivemos Tapada do Chaves 2000 branco. Ambos agradaram muito. Como notou a dona da casa, tinham perfume.
A cogitação é de Mr. Carson, mordomo — e adegueiro, e escanção — de Downton Abbey. Havemos de ir a Yorkshire, shall we?
Aí ficam duas aquisições recentes. O Casal da Azenha Reserva Velho 1960 foi uma alegria que o Barrete Saloio nos deu. Uma cortesia entre Inácios, para nos consolar da falta do Morgado de Bucelas.
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| Aroma gordo, balsâmico, de café, carne, especiarias e sei lá que mais. Excelente com o toucinho do céu da D. Fernanda. |
Essoutra memória, o José de Sousa 1998, adquiri-a particularmente, numa tardinha de domingo. No mesmo dia, ao almoço, tivemos Tapada do Chaves 2000 branco. Ambos agradaram muito. Como notou a dona da casa, tinham perfume.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Soluço de grande intensidade
SMS recebido:
Estou a ver anúncio a novo vinho da Herdade do Peso. Trinca Bolotas. Grande intensidade aromática, dizem. Gosto do nome.
SMS enviado:
Também gosto do nome. Da grande intensidade aromática nem tanto. De um modo geral a grande intensidade aborrece-me. É coisa para adolescentes e jovenzinhas.
Estou a ver anúncio a novo vinho da Herdade do Peso. Trinca Bolotas. Grande intensidade aromática, dizem. Gosto do nome.
SMS enviado:
Também gosto do nome. Da grande intensidade aromática nem tanto. De um modo geral a grande intensidade aborrece-me. É coisa para adolescentes e jovenzinhas.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Maridagens sushinesas
Soluço cândido
Certo bom rapazinho de ainda nem 25 anos vinha jantar, maila namorada, ao nosso Cafofo. Perguntou se havia de trazer vinho. Respondi-lhe com a pilhéria do costume:
― É claro que não precisas trazer nada, mas, se quiseres, só não vale repetir o Quinta da Mimosa. Traz Mouchão, por exemplo.
― Teu chão?
― Mouchão. É baratinho.
― E onde é que há disso?
― Em todo o lado. Caso não encontres, traz Barca Velha, ou assim.
― Está bem. Mas quantas? E é branco ou é tinto?
― É claro que não precisas trazer nada, mas, se quiseres, só não vale repetir o Quinta da Mimosa. Traz Mouchão, por exemplo.
― Teu chão?
― Mouchão. É baratinho.
― E onde é que há disso?
― Em todo o lado. Caso não encontres, traz Barca Velha, ou assim.
― Está bem. Mas quantas? E é branco ou é tinto?
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Rosicler
Ando com uma vontade de rosés, que nem lhes digo nada, amigos. Culpa do bom do Malhadinhas cor-de-rosa, que topei há tempos num supermercado fornecido pela distribuidora Garcias (não o encontro em mais nenhures, nem nos Supercor, onde há o branco e o tinto) e me acendeu esta sede nova. A cor muito bonita, com certa feição prometedora de secura; os aromas delicados e vinosos, ao invés de exuberantes e melosos; enfim, os sabores secos prometidos, maila frescura e a formosura apetecidas. Bendito Malhadinhas!
Depois desta aparição, tenho bebido outros rosés muito bons: o Terra d'Alter*, australentejano de Peter Bright; o do Pingo Doce, da Cooperativa de Santo Isidro de Pegões (medalha de prata em Bruxelas!), feito só de Castelão pelo infalível Jaime Quendera; um Ribera del Duero chamado Viñarroyo, 100% Tempranillo, com uma acidez soberba, descoberto no Rubro do Campo Pequeno; o Beyra, outro Tempranillo estreme (curiosamente, usa o nome espanhol da casta, mas acompanhado do português, Tinta Roriz), maravilhoso, ao nível dos brancos da mesma lavra; só para completar o ramalhete rosicler, ajunte-se o JP, malgrado a tampa de rosca e um tantinho de álcool a mais, que o Moscatel Roxo, o carácter bem seco e, já agora, o preço largamente compensam.
Saúde, leitores!
* Prove-se o Terra d'Alter tinto de 2013 quanto antes, novinho como está. «That age is best which is the first, / When youth and blood are warmer». Além de evocar estes versos, fez-me pensar em vinho de talha!
Depois desta aparição, tenho bebido outros rosés muito bons: o Terra d'Alter*, australentejano de Peter Bright; o do Pingo Doce, da Cooperativa de Santo Isidro de Pegões (medalha de prata em Bruxelas!), feito só de Castelão pelo infalível Jaime Quendera; um Ribera del Duero chamado Viñarroyo, 100% Tempranillo, com uma acidez soberba, descoberto no Rubro do Campo Pequeno; o Beyra, outro Tempranillo estreme (curiosamente, usa o nome espanhol da casta, mas acompanhado do português, Tinta Roriz), maravilhoso, ao nível dos brancos da mesma lavra; só para completar o ramalhete rosicler, ajunte-se o JP, malgrado a tampa de rosca e um tantinho de álcool a mais, que o Moscatel Roxo, o carácter bem seco e, já agora, o preço largamente compensam.
Saúde, leitores!
* Prove-se o Terra d'Alter tinto de 2013 quanto antes, novinho como está. «That age is best which is the first, / When youth and blood are warmer». Além de evocar estes versos, fez-me pensar em vinho de talha!
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Bucellas 2011
Os clássicos redimem-nos. (É possível que eu lesse esta frase ao meu mestre das montanhas e neblinas — um mestre indeliberado, ausente e silencioso — Francisco José Viegas.) Os clássicos salvam-nos da presunção, da ignorância, das certezas absolutas. Os clássicos reconduzem-nos ao essencial.
O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.
Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.
Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).
Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.
O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.
Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.
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Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).
Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.
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Palavra(s)-chave:
Arinto,
Brancos,
Bucelas,
Cânone Vinário,
Clássicos,
Fotografia,
Francisco José Viegas,
João Vicêncio,
Mestres,
Modéstia,
Novas Notas Amadoras,
Onésimo Teotónio Almeida
quarta-feira, 11 de junho de 2014
O fracote milagre
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Soluço conclusivo
Se as Caves São João são mudas, quer dizer que não conseguem fazer vinhos expressivos.


