Ando com uma vontade de rosés, que nem lhes digo nada, amigos. Culpa do bom do Malhadinhas cor-de-rosa, que topei há tempos num supermercado fornecido pela distribuidora Garcias (não o encontro em mais nenhures, nem nos Supercor, onde há o branco e o tinto) e me acendeu esta sede nova. A cor muito bonita, com certa feição prometedora de secura; os aromas delicados e vinosos, ao invés de exuberantes e melosos; enfim, os sabores secos prometidos, maila frescura e a formosura apetecidas. Bendito Malhadinhas!
Depois desta aparição, tenho bebido outros rosés muito bons: o Terra d'Alter*, australentejano de Peter Bright; o do Pingo Doce, da Cooperativa de Santo Isidro de Pegões (medalha de prata em Bruxelas!), feito só de Castelão pelo infalível Jaime Quendera; um Ribera del Duero chamado Viñarroyo, 100% Tempranillo, com uma acidez soberba, descoberto no Rubro do Campo Pequeno; o Beyra, outro Tempranillo estreme (curiosamente, usa o nome espanhol da casta, mas acompanhado do português, Tinta Roriz), maravilhoso, ao nível dos brancos da mesma lavra; só para completar o ramalhete rosicler, ajunte-se o JP, malgrado a tampa de rosca e um tantinho de álcool a mais, que o Moscatel Roxo, o carácter bem seco e, já agora, o preço largamente compensam.
Saúde, leitores!
* Prove-se o Terra d'Alter tinto de 2013 quanto antes, novinho como está. «That age is best which is the first, / When youth and blood are warmer». Além de evocar estes versos, fez-me pensar em vinho de talha!
quinta-feira, 10 de julho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Bucellas 2011
Os clássicos redimem-nos. (É possível que eu lesse esta frase ao meu mestre das montanhas e neblinas — um mestre indeliberado, ausente e silencioso — Francisco José Viegas.) Os clássicos salvam-nos da presunção, da ignorância, das certezas absolutas. Os clássicos reconduzem-nos ao essencial.
O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.
Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.
Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).
Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.
O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.
Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.
⁂
Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).
Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.
0
comentário(s)
Palavra(s)-chave:
Arinto,
Brancos,
Bucelas,
Cânone Vinário,
Clássicos,
Fotografia,
Francisco José Viegas,
João Vicêncio,
Mestres,
Modéstia,
Novas Notas Amadoras,
Onésimo Teotónio Almeida
quarta-feira, 11 de junho de 2014
O fracote milagre
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Soluço conclusivo
Se as Caves São João são mudas, quer dizer que não conseguem fazer vinhos expressivos.
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Soluço otorrinolaringológico
Tem graça que as Caves Velhas ouvem bem, mas as Caves São João parecem surdas que nem calhaus.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Soluço são-joãozinho
As Caves São João é que podiam organizar um seminário de business management, ou wine business, ou que é, subordinado ao tema Como Fidelizar Clientes: Nunca Responder ao Correio desses Cabrões.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Vinho em Pó
A 19.ª Mostra de Vinhos de Marateca e Poceirão resumidamente ilustrada. De salientar o Prémio Este Levava-me ao Alcoolismo 2014, conforme disse uma senhora chique mas chique a valer ao provar o vinho número 2, que eu bem (ou)vi, do Sr. António José da Costa Carreira. Um Castelão puro Monte Carreira. Pois claro.
⁂
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Continuar
Adeus, Março ferido. Até nunca, Abril oco. Maio é maior, será melhor. Estamos vivos. O vinho continua.
«Todos estamos na vida como os equilibristas, pendentes de um fio, e necessitamos manter um certo equilíbrio com a realidade, com as coisas, com nós mesmos, com o que estamos fazendo, e desejamos esse equilíbrio que, se nos perguntam, dizemos que depende de coisas tremendas: a felicidade, a liberdade, a justiça, coisas, todas elas, muito importantes, mas a verdade é que, dia a dia, em cada momento, esse equilíbrio depende de cada um dos nossos pequenos prazeres, a que nos agarramos e graças aos quais nos mantemos no equilíbrio vital de cada dia. Os pequenos prazeres são pequenos, mas não deixam de ser importantes. Por isso creio que Ortega, embora não se referisse aos prazeres, quando disse que quem não concede valor às pequenas coisas da vida tampouco entende as coisas grandes, é porque também, no fundo, as coisas grandes se decompõem em pequenos prazeres.»
Fernando Savater
⁂
«Todos estamos na vida como os equilibristas, pendentes de um fio, e necessitamos manter um certo equilíbrio com a realidade, com as coisas, com nós mesmos, com o que estamos fazendo, e desejamos esse equilíbrio que, se nos perguntam, dizemos que depende de coisas tremendas: a felicidade, a liberdade, a justiça, coisas, todas elas, muito importantes, mas a verdade é que, dia a dia, em cada momento, esse equilíbrio depende de cada um dos nossos pequenos prazeres, a que nos agarramos e graças aos quais nos mantemos no equilíbrio vital de cada dia. Os pequenos prazeres são pequenos, mas não deixam de ser importantes. Por isso creio que Ortega, embora não se referisse aos prazeres, quando disse que quem não concede valor às pequenas coisas da vida tampouco entende as coisas grandes, é porque também, no fundo, as coisas grandes se decompõem em pequenos prazeres.»
Fernando Savater
quarta-feira, 12 de março de 2014
Xaropes para totós
O leitor por acaso sabe em que endereço de correio electrónico atendem as Caves São João?
«Já as aplicações medicinais das bebidas alcoólicas são muito interessantes — o vinho era utilizado para cauterizações, limpeza de ferimentos e fricções, além de servir na preparação de poções à base de ervas. Para as crianças, uma dose diária de vinho preveniria que urinassem na cama.
O célebre médico João Curvo Semedo (1635-1719), em sua obra Observações médicas doutrinárias de cem casos gravíssimos (...), recomendava a quem quisesse abandonar o “vício da bebice” servir ao beberrão “vinho em que se afogavam duas enguias vivas” ou “vinho em que se misturou um pouco de esterco de homem”. E ainda “recolher o suor dos campanhões (testículos) de um cavalo quando estivesse suado” e servir ao bêbado, que poderia também escolher entre um copo de “vinho tinto em que se deitou uma fatia de pão que estivesse duas horas no sovaco de um agonizante” ou “o vinho que se deitou por meia hora dentro dos sapatos do mesmo bêbado, quando os descalçar, estando ainda quentes”.»
Sergio de Paula Santos, em Memórias de Adega e Cozinha (2007)
⁂
«Já as aplicações medicinais das bebidas alcoólicas são muito interessantes — o vinho era utilizado para cauterizações, limpeza de ferimentos e fricções, além de servir na preparação de poções à base de ervas. Para as crianças, uma dose diária de vinho preveniria que urinassem na cama.
O célebre médico João Curvo Semedo (1635-1719), em sua obra Observações médicas doutrinárias de cem casos gravíssimos (...), recomendava a quem quisesse abandonar o “vício da bebice” servir ao beberrão “vinho em que se afogavam duas enguias vivas” ou “vinho em que se misturou um pouco de esterco de homem”. E ainda “recolher o suor dos campanhões (testículos) de um cavalo quando estivesse suado” e servir ao bêbado, que poderia também escolher entre um copo de “vinho tinto em que se deitou uma fatia de pão que estivesse duas horas no sovaco de um agonizante” ou “o vinho que se deitou por meia hora dentro dos sapatos do mesmo bêbado, quando os descalçar, estando ainda quentes”.»
Sergio de Paula Santos, em Memórias de Adega e Cozinha (2007)
sexta-feira, 7 de março de 2014
Adeus, Maestro
Nico Nicolaiewsky, o Maestro Pletskaya do maravilhoso Tangos & Tragédias, um espectáculo que era uma festa de música e riso e que fez quase trinta anos de carreira, morreu há um mês. Soubémo-lo há dois dias. Nessa noite, sentámo-nos com duas Caipirinhas. Ouvimos somente o início do Epitáfio dos Titãs e brindámos à vida e a ele. Paz à sua alma.
Lê-se no Facebook uma historinha luminosa, onde ecoa a voz e a benignidade do Maestro Pletskaya. No final de mais uma representação de Tangos & Tragédias, uma senhora dirigiu-se a ele, ainda no figurino, e disse-lhe que já tinha visto o espectáculo oito vezes (a sortuda; eu só pude ver cinco). Ele, decerto arregalando um sorriso de todo o tamanho, respondeu no seu sotaque inventado da Sbørnia: «E AINDA NON INTENDEU?!»
Lê-se no Facebook uma historinha luminosa, onde ecoa a voz e a benignidade do Maestro Pletskaya. No final de mais uma representação de Tangos & Tragédias, uma senhora dirigiu-se a ele, ainda no figurino, e disse-lhe que já tinha visto o espectáculo oito vezes (a sortuda; eu só pude ver cinco). Ele, decerto arregalando um sorriso de todo o tamanho, respondeu no seu sotaque inventado da Sbørnia: «E AINDA NON INTENDEU?!»
quarta-feira, 5 de março de 2014
Fredy
Após a derrota com o Benfica, domingo passado (a 11.ª no campeonato; o 13.º jogo em branco), o treinador do Belenenses, Marco Paulo, afirmou que os seus jogadores tiveram «uma grande capacidade de luta e entrega contra, talvez, a melhor equipa do campeonato». O capitão, Fernando Ferreira, declarou: «Esta é uma resposta clara do plantel perante uma equipa muito forte.» O guarda-redes, Matt Jones, disse: «Ficámos tristes, mas a verdade é que este jogo não era do nosso campeonato.»
Faça-se um favor a estas alminhas e piche-se em todas as paredes das áreas reservadas do Estádio do Restelo o axioma de Wittgenstein: «Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.» Se se achar melhor, substitua-se mundo por futebol. «Os limites da minha linguagem são os limites do meu futebol.» Enquanto persistam no discurso, na postura e na prática dos medíocres, não deixarão de ser medíocres.
Fredy — um rapaz de 24 anos que há 13 representa o Belenenses e que fala em alegria como uma forma de jogar futebol — salvou-nos a face. Expulso no domingo com dois cartões amarelos numa questão de segundos, por protestar com o árbitro (cujo trabalhinho o “mister” Jesus achou muita bom), retractou-se deste modo: «Perdi a cabeça. Meti-me a jeito. Foi uma criancice da minha parte. (...) O primeiro amarelo foi justo, mas o segundo já não. Apenas disse ao árbitro que ele estava a desrespeitar o clube. E, sejamos francos, foi isso que ele fez.»
Não é a primeira vez que Fredy dá aos seus companheiros um exemplo de galhardia, de honradez e de respeito pela camisola que veste. Depois da primeira mão das meias-finais da última Taça de Portugal, que o Belenenses disputou com o Vitória de Guimarães, ele, sorrindo que nem Matateu, prestou o seguinte esclarecimento: «Esta equipa nunca desiste, acredita sempre. Perdemos por 2-0, temos de ir lá ganhar por 3-0.»
Ergo o meu copo a este espírito: cá vai à saúde, ao êxito e à alegria do Fredy! — um grande jogador do Belenenses.
Faça-se um favor a estas alminhas e piche-se em todas as paredes das áreas reservadas do Estádio do Restelo o axioma de Wittgenstein: «Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.» Se se achar melhor, substitua-se mundo por futebol. «Os limites da minha linguagem são os limites do meu futebol.» Enquanto persistam no discurso, na postura e na prática dos medíocres, não deixarão de ser medíocres.
Fredy — um rapaz de 24 anos que há 13 representa o Belenenses e que fala em alegria como uma forma de jogar futebol — salvou-nos a face. Expulso no domingo com dois cartões amarelos numa questão de segundos, por protestar com o árbitro (cujo trabalhinho o “mister” Jesus achou muita bom), retractou-se deste modo: «Perdi a cabeça. Meti-me a jeito. Foi uma criancice da minha parte. (...) O primeiro amarelo foi justo, mas o segundo já não. Apenas disse ao árbitro que ele estava a desrespeitar o clube. E, sejamos francos, foi isso que ele fez.»
Não é a primeira vez que Fredy dá aos seus companheiros um exemplo de galhardia, de honradez e de respeito pela camisola que veste. Depois da primeira mão das meias-finais da última Taça de Portugal, que o Belenenses disputou com o Vitória de Guimarães, ele, sorrindo que nem Matateu, prestou o seguinte esclarecimento: «Esta equipa nunca desiste, acredita sempre. Perdemos por 2-0, temos de ir lá ganhar por 3-0.»
Ergo o meu copo a este espírito: cá vai à saúde, ao êxito e à alegria do Fredy! — um grande jogador do Belenenses.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Fastio mortal
Achado numa parede do Museu do Vinho de Redondo. O autor atribuído é o médico João Curvo Semedo (1635-1719).
«QUE PROVEITOS E DANOS FAZ O VINHO
Bebido em moderada quantidade, conforta o estômago, ajuda os cozimentos, alegra o coração e alenta muito, e regenera com grande brevidade os espíritos exaustados; mas, se se bebe em grande quantidade, destrói as forças, tira a vontade de comer, introduz fastio mortal e desbarata a boa temperança do fígado e do cérebro.»
⁂
«QUE PROVEITOS E DANOS FAZ O VINHO
Bebido em moderada quantidade, conforta o estômago, ajuda os cozimentos, alegra o coração e alenta muito, e regenera com grande brevidade os espíritos exaustados; mas, se se bebe em grande quantidade, destrói as forças, tira a vontade de comer, introduz fastio mortal e desbarata a boa temperança do fígado e do cérebro.»

