Após a derrota com o Benfica, domingo passado (a 11.ª no campeonato; o 13.º jogo em branco), o treinador do Belenenses, Marco Paulo, afirmou que os seus jogadores tiveram «uma grande capacidade de luta e entrega contra, talvez, a melhor equipa do campeonato». O capitão, Fernando Ferreira, declarou: «Esta é uma resposta clara do plantel perante uma equipa muito forte.» O guarda-redes, Matt Jones, disse: «Ficámos tristes, mas a verdade é que este jogo não era do nosso campeonato.»
Faça-se um favor a estas alminhas e piche-se em todas as paredes das áreas reservadas do Estádio do Restelo o axioma de Wittgenstein: «Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.» Se se achar melhor, substitua-se mundo por futebol. «Os limites da minha linguagem são os limites do meu futebol.» Enquanto persistam no discurso, na postura e na prática dos medíocres, não deixarão de ser medíocres.
Fredy — um rapaz de 24 anos que há 13 representa o Belenenses e que fala em alegria como uma forma de jogar futebol — salvou-nos a face. Expulso no domingo com dois cartões amarelos numa questão de segundos, por protestar com o árbitro (cujo trabalhinho o “mister” Jesus achou muita bom), retractou-se deste modo: «Perdi a cabeça. Meti-me a jeito. Foi uma criancice da minha parte. (...) O primeiro amarelo foi justo, mas o segundo já não. Apenas disse ao árbitro que ele estava a desrespeitar o clube. E, sejamos francos, foi isso que ele fez.»
Não é a primeira vez que Fredy dá aos seus companheiros um exemplo de galhardia, de honradez e de respeito pela camisola que veste. Depois da primeira mão das meias-finais da última Taça de Portugal, que o Belenenses disputou com o Vitória de Guimarães, ele, sorrindo que nem Matateu, prestou o seguinte esclarecimento: «Esta equipa nunca desiste, acredita sempre. Perdemos por 2-0, temos de ir lá ganhar por 3-0.»
Ergo o meu copo a este espírito: cá vai à saúde, ao êxito e à alegria do Fredy! — um grande jogador do Belenenses.
quarta-feira, 5 de março de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Fastio mortal
Achado numa parede do Museu do Vinho de Redondo. O autor atribuído é o médico João Curvo Semedo (1635-1719).
«QUE PROVEITOS E DANOS FAZ O VINHO
Bebido em moderada quantidade, conforta o estômago, ajuda os cozimentos, alegra o coração e alenta muito, e regenera com grande brevidade os espíritos exaustados; mas, se se bebe em grande quantidade, destrói as forças, tira a vontade de comer, introduz fastio mortal e desbarata a boa temperança do fígado e do cérebro.»
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«QUE PROVEITOS E DANOS FAZ O VINHO
Bebido em moderada quantidade, conforta o estômago, ajuda os cozimentos, alegra o coração e alenta muito, e regenera com grande brevidade os espíritos exaustados; mas, se se bebe em grande quantidade, destrói as forças, tira a vontade de comer, introduz fastio mortal e desbarata a boa temperança do fígado e do cérebro.»
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
À Pitú
A Caipirinha é o melhor cacharolete — o melhor drinque — o melhor samba (que é outro nome para cachaça) — de um álcool só. Nem só de vinho vive o amador, gente boa.
«Uma das grandes vantagens de sermos portugueses é termos um clima perfeitamente oposto ao brasileiro. Em boa verdade, é no inverno que nos chegam do Brasil as melhores limas e, como tal, é natural que aliviemos o frio e a falta de luz do sol com umas belas Caipirinhas.
(...)
Para já, há pelo menos duas Caipirinhas. Existe a mais conhecida entre nós — a baiana — que leva gelo picado e é batida (agitada no shaker). Mas a Caipirinha carioca, mais preguiçosa mas não menos deliciosa (sobretudo se a cachaça, das quais há mais de mil de diferentes idades e proveniências, for valente), é quase desconhecida.
Para fazer uma Caipirinha carioca, usa-se meia lima ou uma lima inteira, cortada em quatro ou oito pedaços respectivamente; pisa-se, com um pilão ou um cabo de vassoura, caso não se tenha um maço brasileiro específico para Caipirinhas; amassando-o ligeiramente com açúcar pilé (o melhor de todos é o açúcar brasileiro União, de grânulo muito fino, à beira do icing sugar europeu) e acrescentam-se, num copo old-fashioned, três ou quatro cubos completos de gelo.
Por cima, deita-se a cachaça; dá-se-lhe três ou quatro voltas com uma colherzinha ou um misturador de plástico, para puxar o açúcar — e pronto! Dirão os meus compatriotas que se trata de uma Caipirinha preguiçosa mas, se a lima e a cachaça forem boas, não há melhor.
(...)
Temos hoje em Portugal uma pequena mas digna escolha de cachaças (eu cá prefiro a Velho Barreiro, mas todas as que há são boas; sendo só pena que a clássica Pitú já não se ache em lado nenhum) (...)»
Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)
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| Tão boa. |
«Uma das grandes vantagens de sermos portugueses é termos um clima perfeitamente oposto ao brasileiro. Em boa verdade, é no inverno que nos chegam do Brasil as melhores limas e, como tal, é natural que aliviemos o frio e a falta de luz do sol com umas belas Caipirinhas.
(...)
Para já, há pelo menos duas Caipirinhas. Existe a mais conhecida entre nós — a baiana — que leva gelo picado e é batida (agitada no shaker). Mas a Caipirinha carioca, mais preguiçosa mas não menos deliciosa (sobretudo se a cachaça, das quais há mais de mil de diferentes idades e proveniências, for valente), é quase desconhecida.
Para fazer uma Caipirinha carioca, usa-se meia lima ou uma lima inteira, cortada em quatro ou oito pedaços respectivamente; pisa-se, com um pilão ou um cabo de vassoura, caso não se tenha um maço brasileiro específico para Caipirinhas; amassando-o ligeiramente com açúcar pilé (o melhor de todos é o açúcar brasileiro União, de grânulo muito fino, à beira do icing sugar europeu) e acrescentam-se, num copo old-fashioned, três ou quatro cubos completos de gelo.
Por cima, deita-se a cachaça; dá-se-lhe três ou quatro voltas com uma colherzinha ou um misturador de plástico, para puxar o açúcar — e pronto! Dirão os meus compatriotas que se trata de uma Caipirinha preguiçosa mas, se a lima e a cachaça forem boas, não há melhor.
(...)
Temos hoje em Portugal uma pequena mas digna escolha de cachaças (eu cá prefiro a Velho Barreiro, mas todas as que há são boas; sendo só pena que a clássica Pitú já não se ache em lado nenhum) (...)»
Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)
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| Tão voláteis, os amores de Inverno. |
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Elogio da simpleza
Já deitando o Inverno mais as suas filhinhas intempéries pelos olhos, recolhemos ao nosso São Alentejo para uma cura de vinhos de talha, iguarias de toda a sorte, paisagens bucólicas, bons ares — e sol, muito sol. O Alentejo, como ancião e sábio, benévolo e verdadeiro, é naturalmente pródigo em gentilezas. Todos os dias nos abençoou com céu azul e sol em abundância.
Banhámo-nos dele o mais que pudemos. Enquanto não caísse a noite, peregrinávamos: em Évora, deambulámos vagarosamente pelas ruas, provámos um Riesling de Sousel e tomámos uma chávena de Earl Grey numa livraria; em Portalegre, sentámo-nos na Sé, descemos ao Rossio para ver o plátano e tornámos acima para ir beber o gin e comer o touro; subimos à Serra, respirámos, parámos a ouvir os rebanhos; passámos na Adega Mayor, trouxemos vinho tinto e chocolates; em Vila de Frades, fomos às laranjas e às talhas e ao pão.
Ao fim do dia, rumávamos de volta ao Al-Andaluz. Al-Andaluz, aprendemos, é o nome do antigo território árabe no sul da Península Ibérica, abrangendo o Alentejo, o Algarve e a Andaluzia de hoje. O emirado, devindo califado e depois reino, desapareceu, como todas as coisas à face da Terra. Contudo, um pequeno reduto dessa civilização de antanho subsiste em Reguengos de Monsaraz. O emir — ou califa — ou rei — da Taberna Al-Andaluz chama-se José Manuel Morgado. Chamemos-lhe D. José.
D. José é um amante do toreo, um carácter galhardo e um gastrónomo culto. Recebe com brios e é um matador exímio, um espada triunfal, dos apetites que o procuram. Entremeses, platos, postres — y vinos, por supuesto: D. José desfere uma só estocada, certeira e fatal.
Nós outros, ainda o prândio ia no adro e já estávamos deliciados, graças a um senhor pomadão sugerido por ele, da vizinha Granja de Mourão, com uma redolência maravilhosa de maracujá (era tinto, sim, senhoras e senhores) e um destes corpinhos de fazer parar operações STOP.
Seguidamente, foi um ver se te avias de manjares los más exquisitos. Saboreemo-los de novo e em nuvem:
Torradinhas com azeite bastantes. Grossos cogumelos assados. Ovos com espargos-bravos. Filetes alimados do melhor biqueirão do mundo, nidificado na foz do Guadiana. Saladinha de sangue de porco cozido. Um módico de rodelas de um embutido dito Catalão de Barrancos. Uma açorda — uma perfeição — recendente a poejo e hortelã-da-ribeira, com duas postas da pescada mais branca — «cor da neve recém-caída» — e fresca jamais pescada. Bolo “rançoso” de Reguengos, que de râncio nada tinha. Com ele, uma dose mélea de xerez. Uma fatia de queijo de Serpa, uma colher de doce de abóbora, um raminho virente de poejo. Et cetera, enfim, tudo bem arrematado ora com uma infusão calmante, ora com a ínfima dose de uma aguardente digestiva — lotada por D. José ele mesmo.
Da Vinci ensina: «A simplicidade é a sofisticação suprema». Thoreau insiste: «Simplicidade, simplicidade, simplicidade!» Eu, só sabendo que nada sei, soarei simplesmente sobre os telhados do mundo, por respeito dos mestres e despeito das filhinhas intempéries do Inverno, o meu barbárico — OLÉ!
Banhámo-nos dele o mais que pudemos. Enquanto não caísse a noite, peregrinávamos: em Évora, deambulámos vagarosamente pelas ruas, provámos um Riesling de Sousel e tomámos uma chávena de Earl Grey numa livraria; em Portalegre, sentámo-nos na Sé, descemos ao Rossio para ver o plátano e tornámos acima para ir beber o gin e comer o touro; subimos à Serra, respirámos, parámos a ouvir os rebanhos; passámos na Adega Mayor, trouxemos vinho tinto e chocolates; em Vila de Frades, fomos às laranjas e às talhas e ao pão.
Ao fim do dia, rumávamos de volta ao Al-Andaluz. Al-Andaluz, aprendemos, é o nome do antigo território árabe no sul da Península Ibérica, abrangendo o Alentejo, o Algarve e a Andaluzia de hoje. O emirado, devindo califado e depois reino, desapareceu, como todas as coisas à face da Terra. Contudo, um pequeno reduto dessa civilização de antanho subsiste em Reguengos de Monsaraz. O emir — ou califa — ou rei — da Taberna Al-Andaluz chama-se José Manuel Morgado. Chamemos-lhe D. José.
D. José é um amante do toreo, um carácter galhardo e um gastrónomo culto. Recebe com brios e é um matador exímio, um espada triunfal, dos apetites que o procuram. Entremeses, platos, postres — y vinos, por supuesto: D. José desfere uma só estocada, certeira e fatal.
Nós outros, ainda o prândio ia no adro e já estávamos deliciados, graças a um senhor pomadão sugerido por ele, da vizinha Granja de Mourão, com uma redolência maravilhosa de maracujá (era tinto, sim, senhoras e senhores) e um destes corpinhos de fazer parar operações STOP.
Seguidamente, foi um ver se te avias de manjares los más exquisitos. Saboreemo-los de novo e em nuvem:
Torradinhas com azeite bastantes. Grossos cogumelos assados. Ovos com espargos-bravos. Filetes alimados do melhor biqueirão do mundo, nidificado na foz do Guadiana. Saladinha de sangue de porco cozido. Um módico de rodelas de um embutido dito Catalão de Barrancos. Uma açorda — uma perfeição — recendente a poejo e hortelã-da-ribeira, com duas postas da pescada mais branca — «cor da neve recém-caída» — e fresca jamais pescada. Bolo “rançoso” de Reguengos, que de râncio nada tinha. Com ele, uma dose mélea de xerez. Uma fatia de queijo de Serpa, uma colher de doce de abóbora, um raminho virente de poejo. Et cetera, enfim, tudo bem arrematado ora com uma infusão calmante, ora com a ínfima dose de uma aguardente digestiva — lotada por D. José ele mesmo.
Da Vinci ensina: «A simplicidade é a sofisticação suprema». Thoreau insiste: «Simplicidade, simplicidade, simplicidade!» Eu, só sabendo que nada sei, soarei simplesmente sobre os telhados do mundo, por respeito dos mestres e despeito das filhinhas intempéries do Inverno, o meu barbárico — OLÉ!
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Ouro sobre azul
Mais razões para exaltarmos as Caves São João – Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos. As imagens e o texto que se seguem são achados do nosso tesoureiro Belenenses Ilustrado.
«A cerveja sempre foi a bebida preferida de Matateu.
Carlos Silva, um belenense de nascença que foi seu companheiro de equipa, declarou, em A BOLA de 16 de Abril de 1987, que Sebastião Lucas da Fonseca era homem para beber 30 cervejas por dia. Quase um barril!
Nessa entrevista garantiu ainda que o moçambicano estava autorizado a beber uma cervejinha no intervalo dos jogos, na sua qualidade de ídolo.
Enquanto o resto da equipa se contentava com o chazinho do costume. “Era o seu doping”, explicou Carlos.
Essas revelações de Carlos Silva coincidem com os boatos que corriam em Belém sobre a cervejinha do intervalo, mas as pessoas diziam que Matateu a bebia às escondidas do treinador, na casinha privada onde alguém a escondia atrás da sanita.
A dúvida, então, é se Matateu bebia apenas a cerveja permitida ou esta mais uma clandestina...»
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| Foi por este que se começou a falar em ataque de boca. |
«A cerveja sempre foi a bebida preferida de Matateu.
Carlos Silva, um belenense de nascença que foi seu companheiro de equipa, declarou, em A BOLA de 16 de Abril de 1987, que Sebastião Lucas da Fonseca era homem para beber 30 cervejas por dia. Quase um barril!
Nessa entrevista garantiu ainda que o moçambicano estava autorizado a beber uma cervejinha no intervalo dos jogos, na sua qualidade de ídolo.
Enquanto o resto da equipa se contentava com o chazinho do costume. “Era o seu doping”, explicou Carlos.
Essas revelações de Carlos Silva coincidem com os boatos que corriam em Belém sobre a cervejinha do intervalo, mas as pessoas diziam que Matateu a bebia às escondidas do treinador, na casinha privada onde alguém a escondia atrás da sanita.
A dúvida, então, é se Matateu bebia apenas a cerveja permitida ou esta mais uma clandestina...»
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| Cerveja, nem vê-la. |
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Frei João 2011 (branco)
Caves São João – Soc. dos Vinhos Irmãos Unidos. DOC Bairrada. Chardonnay, Bical, Maria Gomes. José Carvalheira (enol.). 12,5% vol. 2,59 € (Continente).
Aberto há dias de mais, despediu-se tão famoso como os dedais estreantes. Eis um vinho branco que enaltece o vinho branco. Não tem nada, mas nadinha, de exuberante ou tropical. É citriníssimo, senhores. Um ensaio sobre a frescura. Só não arrepia porque o ronda alegremente uma evocação de frutos secos, se não de bolo de arroz (que, justamente, quando feito a preceito, tem um sublime saborzinho de limão). Experimente tomá-lo — em vez de o beber — com algumas páginas de mestre Rubem Fonseca e uma porção de amêndoas de Vila Flor de Trás-os-Montes. Mas cautela com as amargosas! Arrepiam!
Aberto há dias de mais, despediu-se tão famoso como os dedais estreantes. Eis um vinho branco que enaltece o vinho branco. Não tem nada, mas nadinha, de exuberante ou tropical. É citriníssimo, senhores. Um ensaio sobre a frescura. Só não arrepia porque o ronda alegremente uma evocação de frutos secos, se não de bolo de arroz (que, justamente, quando feito a preceito, tem um sublime saborzinho de limão). Experimente tomá-lo — em vez de o beber — com algumas páginas de mestre Rubem Fonseca e uma porção de amêndoas de Vila Flor de Trás-os-Montes. Mas cautela com as amargosas! Arrepiam!
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Porta dos Cavaleiros 2010
Caves São João – Soc. dos Vinhos Irmãos Unidos. DOC Dão. Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro. José Carvalheira (enol.). 13% vol. 2,29 € (Pingo Doce).
Isso que é vinho de cabra-macho! Vinho vinoso, dãonairoso, com bons aromas de fruta vinhácea e vegetação beiroa. Um clássico confiável, logo lídimo constituinte do nosso cânone vinário. Tomáramos umas Caves São João em cada esquina deste País das Uvas.
Isso que é vinho de cabra-macho! Vinho vinoso, dãonairoso, com bons aromas de fruta vinhácea e vegetação beiroa. Um clássico confiável, logo lídimo constituinte do nosso cânone vinário. Tomáramos umas Caves São João em cada esquina deste País das Uvas.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Fontanário de Pegões 2013 (branco)
Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões. DO Palmela. Fernão Pires, Arinto. Jaime Quendera (enol.). 12,5% vol. 1,98 € (Pingo Doce).
O primeiro 2013 que saboreio, e, se não o primeiríssimo, um dos primeiros a chegar às prateleiras. Seja como for, um branco novinho em parra. José António Salvador considera-o um clássico e já se lhe referiu como «o melhor Fernão Pires da actualidade» — convite gentil e irresistível a engraçar com ele (o vinho). Não é um daqueles brancos agudos, como prefiro; mas eu gosto tanto de boas formas como qualquer um. Este é de perfil curvilíneo, com as redondezas naturais de um Fernão Pires tradicional, bem-cheiroso, não apenas a fruta mas a alguma ervinha tenra e vicejante, e fresco quanto baste. Gostei bem. Admitimo-lo ao cânone?
Um verdadeiro entendido — um conhecedor — é assim que descreve a Fernão Pires:
«O carácter mais marcante da casta é, sem dúvida, a natureza e intensidade do seu aroma, podendo-se afirmar que é, entre as castas portuguesas, uma das mais aromáticas. Os seus aromas fazem lembrar frutos cítricos doces, como a laranja, e flores com aromas fortes e quentes, como a mimosa, a tília, a laranjeira e o loureiro. Estas notas aromáticas, parecidas com as de outras castas portuguesas, como a Alvarinho, a Loureiro, a Síria e a Antão Vaz, lembram um pouco os aromas do moscatel, sendo provável que todas elas lhe sejam próximas geneticamente.»
Virgílio Loureiro, no Guia Repsol 2004-2005 – Os Melhores Vinhos de Portugal
O primeiro 2013 que saboreio, e, se não o primeiríssimo, um dos primeiros a chegar às prateleiras. Seja como for, um branco novinho em parra. José António Salvador considera-o um clássico e já se lhe referiu como «o melhor Fernão Pires da actualidade» — convite gentil e irresistível a engraçar com ele (o vinho). Não é um daqueles brancos agudos, como prefiro; mas eu gosto tanto de boas formas como qualquer um. Este é de perfil curvilíneo, com as redondezas naturais de um Fernão Pires tradicional, bem-cheiroso, não apenas a fruta mas a alguma ervinha tenra e vicejante, e fresco quanto baste. Gostei bem. Admitimo-lo ao cânone?
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Um verdadeiro entendido — um conhecedor — é assim que descreve a Fernão Pires:
«O carácter mais marcante da casta é, sem dúvida, a natureza e intensidade do seu aroma, podendo-se afirmar que é, entre as castas portuguesas, uma das mais aromáticas. Os seus aromas fazem lembrar frutos cítricos doces, como a laranja, e flores com aromas fortes e quentes, como a mimosa, a tília, a laranjeira e o loureiro. Estas notas aromáticas, parecidas com as de outras castas portuguesas, como a Alvarinho, a Loureiro, a Síria e a Antão Vaz, lembram um pouco os aromas do moscatel, sendo provável que todas elas lhe sejam próximas geneticamente.»
Virgílio Loureiro, no Guia Repsol 2004-2005 – Os Melhores Vinhos de Portugal
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Selecção de Enófilos Palmela Reserva 2006
Enoport. DOC Palmela. Castelão. 13% vol. 3,59 € (Intermarché).
Ao deitá-lo no copo de uma comensal, notei que era transparentezinho. Mais notei que não só cheirava como sabia a After Eight Mint Chocolate Thins. Hostiazinhas de chocolate de menta After Eight. Sim, sim. Oh, coisinha boa.
Ao deitá-lo no copo de uma comensal, notei que era transparentezinho. Mais notei que não só cheirava como sabia a After Eight Mint Chocolate Thins. Hostiazinhas de chocolate de menta After Eight. Sim, sim. Oh, coisinha boa.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Sai um Trinarintus!
Há dias, bebericando com desconsolo o Prova Régia de 2012 (o ex-Bucelas, se não já o anti-Bucelas — não desfazendo), lembrou-me este texto do mestre MEC. Piquinho e tudo.
«Enquanto os tintos somam novas glórias, esperanças e curiosidades com cada mês que passa, os brancos tornam-se cada vez mais parecidos uns com os outros; mais adamados; mais frutados; mais parecidos com refrigerantes.
Se calhar é bom para quem gosta de beber fora das refeições e quer uma coisa fresquinha e pouco calórica com saborzinho a uva, a um breve passo do recente desmame de Trinaranjus, com a vantagem de se poder passar, à vista desarmada, por figurante do Sexo e a Cidade.
(...)
O vinho branco tornou-se, entre nós, numa bebida de senhoras; num instrumento dietético; num sumo de uva com piquinho; numa desgraça.»
Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)
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«Enquanto os tintos somam novas glórias, esperanças e curiosidades com cada mês que passa, os brancos tornam-se cada vez mais parecidos uns com os outros; mais adamados; mais frutados; mais parecidos com refrigerantes.
Se calhar é bom para quem gosta de beber fora das refeições e quer uma coisa fresquinha e pouco calórica com saborzinho a uva, a um breve passo do recente desmame de Trinaranjus, com a vantagem de se poder passar, à vista desarmada, por figurante do Sexo e a Cidade.
(...)
O vinho branco tornou-se, entre nós, numa bebida de senhoras; num instrumento dietético; num sumo de uva com piquinho; numa desgraça.»
Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Calminha com os nabucodonosores
Imagine o leitor que, para 2014, o seu médico de família (esse sábio) lhe prescreve a toma de uma garrafa de vinho por dia ― o regímen de Tommy Cooper e daquele bispo de Sevilha. Ora, o leitor, que é sabido e sedento, pensa: Vou mamar uma magnum* todos os dias, pois não!
Não obstante, se for ainda mais sitibundo, saiba o leitor que, por ordem crescente, pode mamar em alternativa: um jéroboam (equivalente a cerca de 4 garrafas comuns); um roboão (6); um matusalém (8); um salmanasar (12); um baltasar (16); ou um nabucodonosor (entre 18 e 22, frequentemente 20, cerca de 16 litros).
Todas estas palavras (à excepção de jéroboam, que aparece inalterada) são aportuguesadas do francês, referem-se geralmente a champanhe e constam no eminente Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
Assim munido dos nomes próprios, afira agora, leitor, qual é a verdadeira capacidade da sua sede. A sua tara, digamos. Mas cuide: se conduzir, não beba nabucodonosores.
* O Houaiss regista magnum como substantivo masculino ― de resto, à semelhança dos demais termos aqui referidos. Um meu parente, versado em línguas mortas e de trapos, objecta ― e muitíssimo bem:
Não obstante, se for ainda mais sitibundo, saiba o leitor que, por ordem crescente, pode mamar em alternativa: um jéroboam (equivalente a cerca de 4 garrafas comuns); um roboão (6); um matusalém (8); um salmanasar (12); um baltasar (16); ou um nabucodonosor (entre 18 e 22, frequentemente 20, cerca de 16 litros).
Todas estas palavras (à excepção de jéroboam, que aparece inalterada) são aportuguesadas do francês, referem-se geralmente a champanhe e constam no eminente Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
Assim munido dos nomes próprios, afira agora, leitor, qual é a verdadeira capacidade da sua sede. A sua tara, digamos. Mas cuide: se conduzir, não beba nabucodonosores.
* O Houaiss regista magnum como substantivo masculino ― de resto, à semelhança dos demais termos aqui referidos. Um meu parente, versado em línguas mortas e de trapos, objecta ― e muitíssimo bem:
Sendo magnum o neutro do adjectivo magnus, magna, magnum, parece correcto dizer «uma garrafa magnum», ou só «uma magnum», uma vez que garrafa é feminino.
Para sermos puristas, deveríamos dizer magna, para concordar com o substantivo, já que em português não há neutro: ou se é “marcolino” ou “firmino”.
De qualquer modo, magnum ou magna, importa é que o conteúdo seja “bão”.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Noite velha
Não fiz nada, bem sei, nem o farei
Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.
Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.
Fernando Pessoa (1931)
Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.
Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.
Fernando Pessoa (1931)
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Coríntios 11:23-25
«De facto, eu recebi do Senhor aquilo que vos transmiti. Isto é, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou pão, deu graças a Deus, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, entregue para vosso benefício. Façam isto, em memória de mim.” Do mesmo modo, no fim da ceia tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança feita através do meu sangue. Sempre que dele beberem, façam-no em memória de mim.”»
sábado, 21 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Natureza mortiça
| Derradeira colheita em Castelão puro do Djei Pi Praivâte Salécxane, antigo JP Garrafeira |
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Lavoisier era franciú
Pronto. Tanto andaram, que conseguiram acabar de matar o velho JP Garrafeira. Já há anos o tinham rebaptizado como «JP Private Selection». Rebaptizar! O que fizeram foi deitar fora o nome e arranjar — tipo — um naming, porque os vinhos precisam ganhar naming no mercado. Depois, um bebedor chinês que topasse com o bom JP Garrafeira certamente o veria com maus olhos em bico, derivado — hã — à falta de sainete.
Pois não é que o velho e bom Castelão estreme foi preterido por um misto — tipo, um blend — de Syrah, Castelão e Cabernet Sauvignon? Ou talvez sejam outras castas quaisquer, porque a ficha do vinho na Bacalhôa também está blended: indica-se este trio de uvas, mas descreve-se a vinificação como dantes:
Eu quero trasladar para aqui, não vá também desaparecer, o que Filipa Tomaz da Costa, a experiente enóloga da Bacalhôa (já conta, pelo menos, trinta vindimas), escreveu num fórum internético em 2008:
Mas então, dão-se os anéis valiosos e fica-se com imitações banais?
Nada se perde, tudo se transforma? Vê-se que Lavoisier não era portuga.
Pois não é que o velho e bom Castelão estreme foi preterido por um misto — tipo, um blend — de Syrah, Castelão e Cabernet Sauvignon? Ou talvez sejam outras castas quaisquer, porque a ficha do vinho na Bacalhôa também está blended: indica-se este trio de uvas, mas descreve-se a vinificação como dantes:
Produzido 100% a partir da casta Castelão (Periquita), oriunda de vinhas da denominação de origem Palmela. Os solos arenosos, o clima temperado quente que caracteriza esta região e as vinhas velhas de alta densidade de plantação constituem as condições ideais para a obtenção das uvas de grande qualidade que utilizamos. Método clássico de vinificação.
Eu quero trasladar para aqui, não vá também desaparecer, o que Filipa Tomaz da Costa, a experiente enóloga da Bacalhôa (já conta, pelo menos, trinta vindimas), escreveu num fórum internético em 2008:
No caso do Castelão, a casta tinta rainha de Setúbal, já reparou que nesta região já fazíamos monocastas mesmo antes de estarem na moda?
Esta casta tem o seu maior potencial aqui na Península de Setúbal. É uma casta que eu comparo um pouco aos Pinot Noir da Borgonha. Quando a fruta é de qualidade e bem vinificada, origina grandes vinhos, mas não se compadece com grandes produções...
Ela é a base do nosso vinho JP Garrafeira, agora chamado de JP Private Selection DOC Palmela. Esta marca tem um estilo muito próprio e que eu acho engraçado, devido a ser quase único na região.
Tem um estilo um pouco tradicional, o que me encanta, uma vez que hoje em dia não há nada parecido. É um vinho para acompanhar uma refeição. Não dizem que os vinhos estão massificados? Aqui é uma prova do contrário. Já estou a divagar! Pergunta se tem boa aceitação? Temos uma óptima aceitação nos mercados nórdicos e em Inglaterra, e em crescimento.
Mas então, dão-se os anéis valiosos e fica-se com imitações banais?
Nada se perde, tudo se transforma? Vê-se que Lavoisier não era portuga.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Ubuntu
Lembrei-me de partilhar consigo, leitor, a minha lista de compras vinárias para os próximos dias, rebuscada nos folhetos dos supermercados. Neste tempo algo barbárico onde calhámos, é um pequeno gesto, modestíssimo, de ubuntu: uma forma de sermos uns para os outros.
Lidl
Chaminé tinto (3,19 €)
Valle Pradinhos tinto (7,99 €)
Pingo Doce
Paulo Laureano Clássico tinto (1,99 €)
Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto (3,49 €)
Offley Porto Tawny 10 anos (7,49 €)
Adenda | No noticiário das 15h da TSF, ouviu-se Cavaco Silva (Sovaco* Silva, segundo aquele crianço da Orquestra Geração) embolar a palavra «ubuntu». Parecia que um membro da Academia Ubuntu lhe estava administrando a manobra de Heimlich. Deplorando a coincidência, devo esclarecer que não só ignoro escrupulosamente a agenda de Cavaco como VIVA EL-REI!
* «Sei que alguém gostaria de me perguntar: você fala em cu e boceta, mas usa axila em vez de sovaco. Porquê? A resposta é muito simples. Cu e boceta têm uma obscenidade fáustica, que ainda resiste ao uso e abuso desses termos nos dias atuais. Mas sovaco é uma palavra vulgar, de uma trivialidade reles e fosca.» ― Rubem Fonseca, em Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011)
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Lidl
Chaminé tinto (3,19 €)
Valle Pradinhos tinto (7,99 €)
Pingo Doce
Paulo Laureano Clássico tinto (1,99 €)
Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto (3,49 €)
Offley Porto Tawny 10 anos (7,49 €)
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Adenda | No noticiário das 15h da TSF, ouviu-se Cavaco Silva (Sovaco* Silva, segundo aquele crianço da Orquestra Geração) embolar a palavra «ubuntu». Parecia que um membro da Academia Ubuntu lhe estava administrando a manobra de Heimlich. Deplorando a coincidência, devo esclarecer que não só ignoro escrupulosamente a agenda de Cavaco como VIVA EL-REI!
* «Sei que alguém gostaria de me perguntar: você fala em cu e boceta, mas usa axila em vez de sovaco. Porquê? A resposta é muito simples. Cu e boceta têm uma obscenidade fáustica, que ainda resiste ao uso e abuso desses termos nos dias atuais. Mas sovaco é uma palavra vulgar, de uma trivialidade reles e fosca.» ― Rubem Fonseca, em Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011)
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Advertência oriental
Há no Lidl um vinho espanhol, DO Terra Alta, chamado Vespral Reserva. É feito com Tempranillo e Garnacha. Estão agora a vender a colheita de 2008, por 1,89 €. Eh pá, vocês, que não querem ser vistos a manusear vinhos chinfrins, enfiem um boné e uns óculos escuros e vão lá comprá-lo. Depois venham-me falar em tintos bons comò caramelo.
A propósito, o Señorio de Gayan Gran Reserva 2007 está de novo à venda no Aldi. Bem bom. Eu cá já me orientei, e olhem que fui ao natural, só com a barba e as lunetas. Salvo seja, salvo seja.
Quem adverte amigo é.
A propósito, o Señorio de Gayan Gran Reserva 2007 está de novo à venda no Aldi. Bem bom. Eu cá já me orientei, e olhem que fui ao natural, só com a barba e as lunetas. Salvo seja, salvo seja.
Quem adverte amigo é.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Rescaldo
Ceámos tarde, na sala de estar, abrigados do frio, revendo cenas de Os Maias de Luiz Fernando Carvalho. A canjinha não me escaldou, mas acudiu-me à alma. O arroz com favas ainda apanhou um resto de cacholeira. Calhou soberbo. A mulher amada está com a mão milagrosa. Não comemos o ananás: além do Madeira, faltava o mel e laranjas, e era tarde, e fazia um frio avançadiço de glacificar. Substituímo-lo por Pedaçudas, umas grossas bolachas de chocolate ― igualmente, lavor de Fada ― que farão legenda e o Eça haveria de apreciar. O Colares era Viúva Gomes deste século, um 2003 de quartilho, donde, não me fartei propriamente. Oxalá o seu espírito se haja alegrado.



