Caves São João – Soc. dos Vinhos Irmãos Unidos. DOC Dão. Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro. José Carvalheira (enol.). 13% vol. 2,29 € (Pingo Doce).
Isso que é vinho de cabra-macho! Vinho vinoso, dãonairoso, com bons aromas de fruta vinhácea e vegetação beiroa. Um clássico confiável, logo lídimo constituinte do nosso cânone vinário. Tomáramos umas Caves São João em cada esquina deste País das Uvas.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Fontanário de Pegões 2013 (branco)
Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões. DO Palmela. Fernão Pires, Arinto. Jaime Quendera (enol.). 12,5% vol. 1,98 € (Pingo Doce).
O primeiro 2013 que saboreio, e, se não o primeiríssimo, um dos primeiros a chegar às prateleiras. Seja como for, um branco novinho em parra. José António Salvador considera-o um clássico e já se lhe referiu como «o melhor Fernão Pires da actualidade» — convite gentil e irresistível a engraçar com ele (o vinho). Não é um daqueles brancos agudos, como prefiro; mas eu gosto tanto de boas formas como qualquer um. Este é de perfil curvilíneo, com as redondezas naturais de um Fernão Pires tradicional, bem-cheiroso, não apenas a fruta mas a alguma ervinha tenra e vicejante, e fresco quanto baste. Gostei bem. Admitimo-lo ao cânone?
Um verdadeiro entendido — um conhecedor — é assim que descreve a Fernão Pires:
«O carácter mais marcante da casta é, sem dúvida, a natureza e intensidade do seu aroma, podendo-se afirmar que é, entre as castas portuguesas, uma das mais aromáticas. Os seus aromas fazem lembrar frutos cítricos doces, como a laranja, e flores com aromas fortes e quentes, como a mimosa, a tília, a laranjeira e o loureiro. Estas notas aromáticas, parecidas com as de outras castas portuguesas, como a Alvarinho, a Loureiro, a Síria e a Antão Vaz, lembram um pouco os aromas do moscatel, sendo provável que todas elas lhe sejam próximas geneticamente.»
Virgílio Loureiro, no Guia Repsol 2004-2005 – Os Melhores Vinhos de Portugal
O primeiro 2013 que saboreio, e, se não o primeiríssimo, um dos primeiros a chegar às prateleiras. Seja como for, um branco novinho em parra. José António Salvador considera-o um clássico e já se lhe referiu como «o melhor Fernão Pires da actualidade» — convite gentil e irresistível a engraçar com ele (o vinho). Não é um daqueles brancos agudos, como prefiro; mas eu gosto tanto de boas formas como qualquer um. Este é de perfil curvilíneo, com as redondezas naturais de um Fernão Pires tradicional, bem-cheiroso, não apenas a fruta mas a alguma ervinha tenra e vicejante, e fresco quanto baste. Gostei bem. Admitimo-lo ao cânone?
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Um verdadeiro entendido — um conhecedor — é assim que descreve a Fernão Pires:
«O carácter mais marcante da casta é, sem dúvida, a natureza e intensidade do seu aroma, podendo-se afirmar que é, entre as castas portuguesas, uma das mais aromáticas. Os seus aromas fazem lembrar frutos cítricos doces, como a laranja, e flores com aromas fortes e quentes, como a mimosa, a tília, a laranjeira e o loureiro. Estas notas aromáticas, parecidas com as de outras castas portuguesas, como a Alvarinho, a Loureiro, a Síria e a Antão Vaz, lembram um pouco os aromas do moscatel, sendo provável que todas elas lhe sejam próximas geneticamente.»
Virgílio Loureiro, no Guia Repsol 2004-2005 – Os Melhores Vinhos de Portugal
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Selecção de Enófilos Palmela Reserva 2006
Enoport. DOC Palmela. Castelão. 13% vol. 3,59 € (Intermarché).
Ao deitá-lo no copo de uma comensal, notei que era transparentezinho. Mais notei que não só cheirava como sabia a After Eight Mint Chocolate Thins. Hostiazinhas de chocolate de menta After Eight. Sim, sim. Oh, coisinha boa.
Ao deitá-lo no copo de uma comensal, notei que era transparentezinho. Mais notei que não só cheirava como sabia a After Eight Mint Chocolate Thins. Hostiazinhas de chocolate de menta After Eight. Sim, sim. Oh, coisinha boa.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Sai um Trinarintus!
Há dias, bebericando com desconsolo o Prova Régia de 2012 (o ex-Bucelas, se não já o anti-Bucelas — não desfazendo), lembrou-me este texto do mestre MEC. Piquinho e tudo.
«Enquanto os tintos somam novas glórias, esperanças e curiosidades com cada mês que passa, os brancos tornam-se cada vez mais parecidos uns com os outros; mais adamados; mais frutados; mais parecidos com refrigerantes.
Se calhar é bom para quem gosta de beber fora das refeições e quer uma coisa fresquinha e pouco calórica com saborzinho a uva, a um breve passo do recente desmame de Trinaranjus, com a vantagem de se poder passar, à vista desarmada, por figurante do Sexo e a Cidade.
(...)
O vinho branco tornou-se, entre nós, numa bebida de senhoras; num instrumento dietético; num sumo de uva com piquinho; numa desgraça.»
Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)
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«Enquanto os tintos somam novas glórias, esperanças e curiosidades com cada mês que passa, os brancos tornam-se cada vez mais parecidos uns com os outros; mais adamados; mais frutados; mais parecidos com refrigerantes.
Se calhar é bom para quem gosta de beber fora das refeições e quer uma coisa fresquinha e pouco calórica com saborzinho a uva, a um breve passo do recente desmame de Trinaranjus, com a vantagem de se poder passar, à vista desarmada, por figurante do Sexo e a Cidade.
(...)
O vinho branco tornou-se, entre nós, numa bebida de senhoras; num instrumento dietético; num sumo de uva com piquinho; numa desgraça.»
Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Calminha com os nabucodonosores
Imagine o leitor que, para 2014, o seu médico de família (esse sábio) lhe prescreve a toma de uma garrafa de vinho por dia ― o regímen de Tommy Cooper e daquele bispo de Sevilha. Ora, o leitor, que é sabido e sedento, pensa: Vou mamar uma magnum* todos os dias, pois não!
Não obstante, se for ainda mais sitibundo, saiba o leitor que, por ordem crescente, pode mamar em alternativa: um jéroboam (equivalente a cerca de 4 garrafas comuns); um roboão (6); um matusalém (8); um salmanasar (12); um baltasar (16); ou um nabucodonosor (entre 18 e 22, frequentemente 20, cerca de 16 litros).
Todas estas palavras (à excepção de jéroboam, que aparece inalterada) são aportuguesadas do francês, referem-se geralmente a champanhe e constam no eminente Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
Assim munido dos nomes próprios, afira agora, leitor, qual é a verdadeira capacidade da sua sede. A sua tara, digamos. Mas cuide: se conduzir, não beba nabucodonosores.
* O Houaiss regista magnum como substantivo masculino ― de resto, à semelhança dos demais termos aqui referidos. Um meu parente, versado em línguas mortas e de trapos, objecta ― e muitíssimo bem:
Não obstante, se for ainda mais sitibundo, saiba o leitor que, por ordem crescente, pode mamar em alternativa: um jéroboam (equivalente a cerca de 4 garrafas comuns); um roboão (6); um matusalém (8); um salmanasar (12); um baltasar (16); ou um nabucodonosor (entre 18 e 22, frequentemente 20, cerca de 16 litros).
Todas estas palavras (à excepção de jéroboam, que aparece inalterada) são aportuguesadas do francês, referem-se geralmente a champanhe e constam no eminente Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
Assim munido dos nomes próprios, afira agora, leitor, qual é a verdadeira capacidade da sua sede. A sua tara, digamos. Mas cuide: se conduzir, não beba nabucodonosores.
* O Houaiss regista magnum como substantivo masculino ― de resto, à semelhança dos demais termos aqui referidos. Um meu parente, versado em línguas mortas e de trapos, objecta ― e muitíssimo bem:
Sendo magnum o neutro do adjectivo magnus, magna, magnum, parece correcto dizer «uma garrafa magnum», ou só «uma magnum», uma vez que garrafa é feminino.
Para sermos puristas, deveríamos dizer magna, para concordar com o substantivo, já que em português não há neutro: ou se é “marcolino” ou “firmino”.
De qualquer modo, magnum ou magna, importa é que o conteúdo seja “bão”.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Noite velha
Não fiz nada, bem sei, nem o farei
Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.
Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.
Fernando Pessoa (1931)
Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.
Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.
Fernando Pessoa (1931)
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Coríntios 11:23-25
«De facto, eu recebi do Senhor aquilo que vos transmiti. Isto é, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou pão, deu graças a Deus, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, entregue para vosso benefício. Façam isto, em memória de mim.” Do mesmo modo, no fim da ceia tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança feita através do meu sangue. Sempre que dele beberem, façam-no em memória de mim.”»
sábado, 21 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Natureza mortiça
| Derradeira colheita em Castelão puro do Djei Pi Praivâte Salécxane, antigo JP Garrafeira |
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Lavoisier era franciú
Pronto. Tanto andaram, que conseguiram acabar de matar o velho JP Garrafeira. Já há anos o tinham rebaptizado como «JP Private Selection». Rebaptizar! O que fizeram foi deitar fora o nome e arranjar — tipo — um naming, porque os vinhos precisam ganhar naming no mercado. Depois, um bebedor chinês que topasse com o bom JP Garrafeira certamente o veria com maus olhos em bico, derivado — hã — à falta de sainete.
Pois não é que o velho e bom Castelão estreme foi preterido por um misto — tipo, um blend — de Syrah, Castelão e Cabernet Sauvignon? Ou talvez sejam outras castas quaisquer, porque a ficha do vinho na Bacalhôa também está blended: indica-se este trio de uvas, mas descreve-se a vinificação como dantes:
Eu quero trasladar para aqui, não vá também desaparecer, o que Filipa Tomaz da Costa, a experiente enóloga da Bacalhôa (já conta, pelo menos, trinta vindimas), escreveu num fórum internético em 2008:
Mas então, dão-se os anéis valiosos e fica-se com imitações banais?
Nada se perde, tudo se transforma? Vê-se que Lavoisier não era portuga.
Pois não é que o velho e bom Castelão estreme foi preterido por um misto — tipo, um blend — de Syrah, Castelão e Cabernet Sauvignon? Ou talvez sejam outras castas quaisquer, porque a ficha do vinho na Bacalhôa também está blended: indica-se este trio de uvas, mas descreve-se a vinificação como dantes:
Produzido 100% a partir da casta Castelão (Periquita), oriunda de vinhas da denominação de origem Palmela. Os solos arenosos, o clima temperado quente que caracteriza esta região e as vinhas velhas de alta densidade de plantação constituem as condições ideais para a obtenção das uvas de grande qualidade que utilizamos. Método clássico de vinificação.
Eu quero trasladar para aqui, não vá também desaparecer, o que Filipa Tomaz da Costa, a experiente enóloga da Bacalhôa (já conta, pelo menos, trinta vindimas), escreveu num fórum internético em 2008:
No caso do Castelão, a casta tinta rainha de Setúbal, já reparou que nesta região já fazíamos monocastas mesmo antes de estarem na moda?
Esta casta tem o seu maior potencial aqui na Península de Setúbal. É uma casta que eu comparo um pouco aos Pinot Noir da Borgonha. Quando a fruta é de qualidade e bem vinificada, origina grandes vinhos, mas não se compadece com grandes produções...
Ela é a base do nosso vinho JP Garrafeira, agora chamado de JP Private Selection DOC Palmela. Esta marca tem um estilo muito próprio e que eu acho engraçado, devido a ser quase único na região.
Tem um estilo um pouco tradicional, o que me encanta, uma vez que hoje em dia não há nada parecido. É um vinho para acompanhar uma refeição. Não dizem que os vinhos estão massificados? Aqui é uma prova do contrário. Já estou a divagar! Pergunta se tem boa aceitação? Temos uma óptima aceitação nos mercados nórdicos e em Inglaterra, e em crescimento.
Mas então, dão-se os anéis valiosos e fica-se com imitações banais?
Nada se perde, tudo se transforma? Vê-se que Lavoisier não era portuga.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Ubuntu
Lembrei-me de partilhar consigo, leitor, a minha lista de compras vinárias para os próximos dias, rebuscada nos folhetos dos supermercados. Neste tempo algo barbárico onde calhámos, é um pequeno gesto, modestíssimo, de ubuntu: uma forma de sermos uns para os outros.
Lidl
Chaminé tinto (3,19 €)
Valle Pradinhos tinto (7,99 €)
Pingo Doce
Paulo Laureano Clássico tinto (1,99 €)
Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto (3,49 €)
Offley Porto Tawny 10 anos (7,49 €)
Adenda | No noticiário das 15h da TSF, ouviu-se Cavaco Silva (Sovaco* Silva, segundo aquele crianço da Orquestra Geração) embolar a palavra «ubuntu». Parecia que um membro da Academia Ubuntu lhe estava administrando a manobra de Heimlich. Deplorando a coincidência, devo esclarecer que não só ignoro escrupulosamente a agenda de Cavaco como VIVA EL-REI!
* «Sei que alguém gostaria de me perguntar: você fala em cu e boceta, mas usa axila em vez de sovaco. Porquê? A resposta é muito simples. Cu e boceta têm uma obscenidade fáustica, que ainda resiste ao uso e abuso desses termos nos dias atuais. Mas sovaco é uma palavra vulgar, de uma trivialidade reles e fosca.» ― Rubem Fonseca, em Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011)
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Lidl
Chaminé tinto (3,19 €)
Valle Pradinhos tinto (7,99 €)
Pingo Doce
Paulo Laureano Clássico tinto (1,99 €)
Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto (3,49 €)
Offley Porto Tawny 10 anos (7,49 €)
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Adenda | No noticiário das 15h da TSF, ouviu-se Cavaco Silva (Sovaco* Silva, segundo aquele crianço da Orquestra Geração) embolar a palavra «ubuntu». Parecia que um membro da Academia Ubuntu lhe estava administrando a manobra de Heimlich. Deplorando a coincidência, devo esclarecer que não só ignoro escrupulosamente a agenda de Cavaco como VIVA EL-REI!
* «Sei que alguém gostaria de me perguntar: você fala em cu e boceta, mas usa axila em vez de sovaco. Porquê? A resposta é muito simples. Cu e boceta têm uma obscenidade fáustica, que ainda resiste ao uso e abuso desses termos nos dias atuais. Mas sovaco é uma palavra vulgar, de uma trivialidade reles e fosca.» ― Rubem Fonseca, em Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011)