sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sai um Trinarintus!

Há dias, bebericando com desconsolo o Prova Régia de 2012 (o ex-Bucelas, se não já o anti-Bucelas — não desfazendo), lembrou-me este texto do mestre MEC. Piquinho e tudo.


«Enquanto os tintos somam novas glórias, esperanças e curiosidades com cada mês que passa, os brancos tornam-se cada vez mais parecidos uns com os outros; mais adamados; mais frutados; mais parecidos com refrigerantes.

Se calhar é bom para quem gosta de beber fora das refeições e quer uma coisa fresquinha e pouco calórica com saborzinho a uva, a um breve passo do recente desmame de Trinaranjus, com a vantagem de se poder passar, à vista desarmada, por figurante do Sexo e a Cidade.
(...)
O vinho branco tornou-se, entre nós, numa bebida de senhoras; num instrumento dietético; num sumo de uva com piquinho; numa desgraça.»

Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Calminha com os nabucodonosores

Imagine o leitor que, para 2014, o seu médico de família (esse sábio) lhe prescreve a toma de uma garrafa de vinho por dia ― o regímen de Tommy Cooper e daquele bispo de Sevilha. Ora, o leitor, que é sabido e sedento, pensa: Vou mamar uma magnum* todos os dias, pois não!

Não obstante, se for ainda mais sitibundo, saiba o leitor que, por ordem crescente, pode mamar em alternativa: um jéroboam (equivalente a cerca de 4 garrafas comuns); um roboão (6); um matusalém (8); um salmanasar (12); um baltasar (16); ou um nabucodonosor (entre 18 e 22, frequentemente 20, cerca de 16 litros).

Todas estas palavras (à excepção de jéroboam, que aparece inalterada) são aportuguesadas do francês, referem-se geralmente a champanhe e constam no eminente Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Assim munido dos nomes próprios, afira agora, leitor, qual é a verdadeira capacidade da sua sede. A sua tara, digamos. Mas cuide: se conduzir, não beba nabucodonosores.

* O Houaiss regista magnum como substantivo masculino ― de resto, à semelhança dos demais termos aqui referidos. Um meu parente, versado em línguas mortas e de trapos, objecta ― e muitíssimo bem:
Sendo magnum o neutro do adjectivo magnus, magna, magnum, parece correcto dizer «uma garrafa magnum», ou só «uma magnum», uma vez que garrafa é feminino.
Para sermos puristas, deveríamos dizer magna, para concordar com o substantivo, já que em português não há neutro: ou se é “marcolino” ou “firmino”.
De qualquer modo, magnum ou magna, importa é que o conteúdo seja “bão”.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Noite velha

Não fiz nada, bem sei, nem o farei

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.

Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.

Fernando Pessoa (1931)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Coríntios 11:23-25

«De facto, eu recebi do Senhor aquilo que vos transmiti. Isto é, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou pão, deu graças a Deus, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, entregue para vosso benefício. Façam isto, em memória de mim.” Do mesmo modo, no fim da ceia tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança feita através do meu sangue. Sempre que dele beberem, façam-no em memória de mim.”»

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Lavoisier era franciú

Pronto. Tanto andaram, que conseguiram acabar de matar o velho JP Garrafeira. Já há anos o tinham rebaptizado como «JP Private Selection». Rebaptizar! O que fizeram foi deitar fora o nome e arranjar — tipo — um naming, porque os vinhos precisam ganhar naming no mercado. Depois, um bebedor chinês que topasse com o bom JP Garrafeira certamente o veria com maus olhos em bico, derivado — hã — à falta de sainete.

Pois não é que o velho e bom Castelão estreme foi preterido por um misto — tipo, um blend — de Syrah, Castelão e Cabernet Sauvignon? Ou talvez sejam outras castas quaisquer, porque a ficha do vinho na Bacalhôa também está blended: indica-se este trio de uvas, mas descreve-se a vinificação como dantes:

Produzido 100% a partir da casta Castelão (Periquita), oriunda de vinhas da denominação de origem Palmela. Os solos arenosos, o clima temperado quente que caracteriza esta região e as vinhas velhas de alta densidade de plantação constituem as condições ideais para a obtenção das uvas de grande qualidade que utilizamos. Método clássico de vinificação.

Eu quero trasladar para aqui, não vá também desaparecer, o que Filipa Tomaz da Costa, a experiente enóloga da Bacalhôa (já conta, pelo menos, trinta vindimas), escreveu num fórum internético em 2008:

No caso do Castelão, a casta tinta rainha de Setúbal, já reparou que nesta região já fazíamos monocastas mesmo antes de estarem na moda?
Esta casta tem o seu maior potencial aqui na Península de Setúbal. É uma casta que eu comparo um pouco aos Pinot Noir da Borgonha. Quando a fruta é de qualidade e bem vinificada, origina grandes vinhos, mas não se compadece com grandes produções...
Ela é a base do nosso vinho JP Garrafeira, agora chamado de JP Private Selection DOC Palmela. Esta marca tem um estilo muito próprio e que eu acho engraçado, devido a ser quase único na região.
Tem um estilo um pouco tradicional, o que me encanta, uma vez que hoje em dia não há nada parecido. É um vinho para acompanhar uma refeição. Não dizem que os vinhos estão massificados? Aqui é uma prova do contrário. Já estou a divagar! Pergunta se tem boa aceitação? Temos uma óptima aceitação nos mercados nórdicos e em Inglaterra, e em crescimento.

Mas então, dão-se os anéis valiosos e fica-se com imitações banais?

Nada se perde, tudo se transforma? Vê-se que Lavoisier não era portuga.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Ubuntu

Lembrei-me de partilhar consigo, leitor, a minha lista de compras vinárias para os próximos dias, rebuscada nos folhetos dos supermercados. Neste tempo algo barbárico onde calhámos, é um pequeno gesto, modestíssimo, de ubuntu: uma forma de sermos uns para os outros.


Lidl
Chaminé tinto (3,19 €)
Valle Pradinhos tinto (7,99 €)

Pingo Doce
Paulo Laureano Clássico tinto (1,99 €)
Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto (3,49 €)
Offley Porto Tawny 10 anos (7,49 €)


Adenda | No noticiário das 15h da TSF, ouviu-se Cavaco Silva (Sovaco* Silva, segundo aquele crianço da Orquestra Geração) embolar a palavra «ubuntu». Parecia que um membro da Academia Ubuntu lhe estava administrando a manobra de Heimlich. Deplorando a coincidência, devo esclarecer que não só ignoro escrupulosamente a agenda de Cavaco como VIVA EL-REI!

* «Sei que alguém gostaria de me perguntar: você fala em cu e boceta, mas usa axila em vez de sovaco. Porquê? A resposta é muito simples. Cu e boceta têm uma obscenidade fáustica, que ainda resiste ao uso e abuso desses termos nos dias atuais. Mas sovaco é uma palavra vulgar, de uma trivialidade reles e fosca.» ― Rubem Fonseca, em Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Advertência oriental

Há no Lidl um vinho espanhol, DO Terra Alta, chamado Vespral Reserva. É feito com Tempranillo e Garnacha. Estão agora a vender a colheita de 2008, por 1,89 €. Eh pá, vocês, que não querem ser vistos a manusear vinhos chinfrins, enfiem um boné e uns óculos escuros e vão lá comprá-lo. Depois venham-me falar em tintos bons comò caramelo.

A propósito, o Señorio de Gayan Gran Reserva 2007 está de novo à venda no Aldi. Bem bom. Eu cá já me orientei, e olhem que fui ao natural, só com a barba e as lunetas. Salvo seja, salvo seja.

Quem adverte amigo é.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Rescaldo

Ceámos tarde, na sala de estar, abrigados do frio, revendo cenas de Os Maias de Luiz Fernando Carvalho. A canjinha não me escaldou, mas acudiu-me à alma. O arroz com favas ainda apanhou um resto de cacholeira. Calhou soberbo. A mulher amada está com a mão milagrosa. Não comemos o ananás: além do Madeira, faltava o mel e laranjas, e era tarde, e fazia um frio avançadiço de glacificar. Substituímo-lo por Pedaçudas, umas grossas bolachas de chocolate ― igualmente, lavor de Fada ― que farão legenda e o Eça haveria de apreciar. O Colares era Viúva Gomes deste século, um 2003 de quartilho, donde, não me fartei propriamente. Oxalá o seu espírito se haja alegrado.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Carambíssima!

Esta noite, cá em casa, temos uma ementa especial para a ceia. Primeiro, uma canja fervente, para esquentarmos.

Jacinto ocupou a sede ancestral ― e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou ― e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: ― «Está bom!»
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
― Também lá volto! exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira.

Como prato principal, arroz com favas.

E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado ― e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas.

Para a sobremesa, estou a magicar um ananás com Algarseco e mel ― porque não temos Madeira.

Mas o Domingos servia o ananás. E o Ega provou e rompeu em clamores de entusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delícia!
― Como fazes tu isto? Com Madeira...
― E génio! exclamou Carlos. Delicioso, não é verdade? Ora digam-me se tudo o que eu pudesse fazer pela civilização valeria este prato de ananás! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer civilização...

Quanto ao vinho, será Colares, como vem nos livros.

Ah, que dia! Jantei num gabinete do Hotel Central, solitário e egoísta, com a mesa alastrada de Bordéus, Borgonha, Champagne, Reno, licores de todas as comunidades religiosas ― como para matar uma sede de trinta anos! Mas só me fartei de Colares.

E, caramba, rapazes, carambíssima! Lá vai à do Eça, que nasceu faz hoje 168 anos!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

After half a glass

Adrian Mole, o diarista inventado por Sue Townsend, é um nome que avulta no longo rol de motivos para se ser anglófilo. (Nessa lista, também constam Tristram Shandy, o chá Earl Grey, o bolo da Sra. Darwin, o queijo Stilton, o especial apreço pelas aves e pelos jardins, a BBC, séries televisivas como Fawlty Towers e Rev., bandas como os Madness e os Blur, o exílio de D. Manuel II, Sir Winston Churchill, a fleuma e o humor negro, Postman Pat e Shawn the Sheep, Matt Jones, aliás, Matthew Robert Jones, aliás, Mr. Jones, o keeper do Belenenses etc.)

Adrian, herói sem glória da fé em si mesmo, continua a escrever os seus diários, começados aos treze anos e três quartos. No volume que acabo de ler, intitulado The Capuccino Years (1999), encontra-se a seguinte entrada, aqui transcrita em dedicação aos detractores da Pátria:

Quarta-feira, 15 de Abril

Esta noite, com a ajuda da Eleanor, o Glenn copiou o seu nome e a sua morada, e também «Gazza», «Hoddle» e «Campeonato do Mundo».

Abri uma garrafa de Mateus Rosé e convidei a Eleanor a juntar-se a mim e celebrar o progresso dele. Quase desejei não o ter feito ― ao fim de meio copo, ela começou a mirar-me muito intensamente. Acho que me estou a desinteressar dela um pouco.