segunda-feira, 17 de junho de 2013
Soluço em seco
Pasteur terá dito: Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros. O taberneiro objectou: Só se for aquelas garrafas de livro e meio.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Vinhos de vinha
É bom ler o Jefford. Graças à sua crónica de 20 de Maio, descobri um casal americano que vive e produz vinho no alto de uma serra na Califórnia, na região do Vale de Napa.
Ela, Carole Meredith, é uma antiga professora do Departamento de Viticultura e Enologia da UC Davis, Universidade da Califórnia. Ele, Steve Lagier, é um vinicultor experiente, produtor de “vinhos de garagem” e, durante catorze anos, empregado na célebre Robert Mondavi, espécie de sinédoque para todo o Napa Valley.
Plantaram eles mesmos a sua pequena vinha, na zona montanhosa de Mount Veeder. Como dizem na introdução do seu sítio na Internet, não têm empregados, nem consultores, nem parceiros, nem investidores. Quando começaram, tinham somente os seus ordenados «e a determinação para trabalhar arduamente e viver gastando pouco.»
Cultivam Syrah, Mondeuse, Malbec e Zinfandel, todas variedades tintas. A vinificação é elementar. A fruta é escolhida na vinha, depois desengaçada e esmagada. Fermentado o mosto, não há lugar a mais maceração. O vinho é prensado e deposto em barris usados de carvalho francês (compram-nos três vezes usados e continuam a usá-los «até se começarem a desmantelar»), onde passa de dezoito a vinte meses. Nesse tempo, trasfegam-no duas vezes. Por fim, colam o vinho com claras de ovo (a colagem é um método de clarificação por acção de uma dada substância, aqui as claras de ovo, que faz sedimentar e precipitar as partículas em suspensão), trasfegam-no mais uma vez e engarrafam.
O que mais comove no caso de Carole e Steve é justamente uma certa visão do mundo, da vida, do vinho — clara, natural, simples, ou seja, essencial. Por isso se apresentam assim, sem tergiversações: «Estes são vinhos de vinha. A nossa responsabilidade é salvaguardar o vinho durante a sua passagem da vinha à garrafa e protegê-lo de demasiada enologia.»
Havemos de ir à Califórnia.
Ela, Carole Meredith, é uma antiga professora do Departamento de Viticultura e Enologia da UC Davis, Universidade da Califórnia. Ele, Steve Lagier, é um vinicultor experiente, produtor de “vinhos de garagem” e, durante catorze anos, empregado na célebre Robert Mondavi, espécie de sinédoque para todo o Napa Valley.
Plantaram eles mesmos a sua pequena vinha, na zona montanhosa de Mount Veeder. Como dizem na introdução do seu sítio na Internet, não têm empregados, nem consultores, nem parceiros, nem investidores. Quando começaram, tinham somente os seus ordenados «e a determinação para trabalhar arduamente e viver gastando pouco.»
Cultivam Syrah, Mondeuse, Malbec e Zinfandel, todas variedades tintas. A vinificação é elementar. A fruta é escolhida na vinha, depois desengaçada e esmagada. Fermentado o mosto, não há lugar a mais maceração. O vinho é prensado e deposto em barris usados de carvalho francês (compram-nos três vezes usados e continuam a usá-los «até se começarem a desmantelar»), onde passa de dezoito a vinte meses. Nesse tempo, trasfegam-no duas vezes. Por fim, colam o vinho com claras de ovo (a colagem é um método de clarificação por acção de uma dada substância, aqui as claras de ovo, que faz sedimentar e precipitar as partículas em suspensão), trasfegam-no mais uma vez e engarrafam.
O que mais comove no caso de Carole e Steve é justamente uma certa visão do mundo, da vida, do vinho — clara, natural, simples, ou seja, essencial. Por isso se apresentam assim, sem tergiversações: «Estes são vinhos de vinha. A nossa responsabilidade é salvaguardar o vinho durante a sua passagem da vinha à garrafa e protegê-lo de demasiada enologia.»
Havemos de ir à Califórnia.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Velázquez
Faz hoje anos que nasceu Diego Rodrigues da Silva y Velázquez (1599-1660). Não se estranhe os nomes portugueses: o pintor, nascido em Sevilha, era filho de um portuense.
É pois nosso dever, como ibéricos, brindarmos esta noite ao grão Velázquez. Com um grão cálice de porto, evidentemente.
É pois nosso dever, como ibéricos, brindarmos esta noite ao grão Velázquez. Com um grão cálice de porto, evidentemente.
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| Los borrachos, o El triunfo de Baco |
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Soluço cervejeiro
Pasteur terá dito: Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros. O taberneiro acudiu: Senhor doutor, mais uma cervejinha?
sábado, 1 de junho de 2013
Novas notas amadoras
E agora, algo completamente diferente.
Dona Ermelinda 2010
Casa Ermelinda Freitas. DO Palmela. Castelão, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional. Jaime Quendera (enol.). 14% vol. Cerca de 3 € (Pingo Doce).
Transporta balidos distantes, caracteres genuínos, vibrações suaves. Palmela leal.
Dona Ermelinda 2010
Casa Ermelinda Freitas. DO Palmela. Castelão, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional. Jaime Quendera (enol.). 14% vol. Cerca de 3 € (Pingo Doce).
Transporta balidos distantes, caracteres genuínos, vibrações suaves. Palmela leal.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Entrevista com Francisco José Viegas
Nos vinhos, quais são os seus clássicos? Tem uma reserva de imprescindíveis?
Confesso que a resposta é negativa em relação a ambas as perguntas... Ou seja: não tenho uma reserva de vinhos imbatíveis. Depende muito da estação do ano, da meteorologia, da comida, daquilo que se vai fazer a seguir, daquilo que se fez antes. Um vinho não se bebe num laboratório, como se todo o bebedor fosse um provador e um detector organoléptico... De modo que há vinhos que são eternos porque apelam a uma memória, a um sentido da vida, a uma esperança no destino – não exagero. Eu nasci na aldeia onde se produziu o primeiro Barca Velha, o que me deixa sempre comovido. O Quinta da Leda de outrora era mesmo ao lado. O novíssimo Meandro e o Vale Meão, naturalmente. Fazem parte da minha geografia, da forma como se olha o rio, da maneira como recordo as idas do meu avô à Quinta do Vale Meão e eu o acompanhava (ele era operário, e fazia consertos na canalização da quinta...). O Quinta da Leda de 2009 é um bom exemplo de grande vinho, tal como o Robustus Niepoort ou o Poeira. À parte isso, há vinhos como o Valle Pradinhos, por exemplo, que evocam também uma parte da minha infância em casa dos avós maternos, perto de Bragança... De resto, apaixonam-me os novos brancos e rosés do Douro, que provam e sustentam a capacidade inventiva dos criadores da região. E às vezes tenho saudades de vinhos que já não existem, como o Grantom dos anos setenta... Ou do Evel branco de 2000, uma pérola que não se repete.
Tomemos o arroz de bacalhau de Jaime Ramos. Ramiro levou uma garrafa de vinho, não sabemos qual, para o jantar com o inspector. Aquele prato não tem o seu vinho perfeito?
Tem. Eles bebem Valle Pradinhos branco. Uma recordação de adolescência tardia, um sabor único, um aroma frágil.
Enochateia-se facilmente? Quantos descritores aromáticos parvos são precisos para irritar um duriense?
Irrito-me, sim. Os enochatos são uma categoria de gente aborrecida, capazes de destruir um vinho só com uma frase. A verdade é que se trata de uma forma de estar na vida, e eles dependem largamente da sua capacidade de alardear conhecimentos a propósito e despropósito. É como se vivessem num laboratório e numa “lista dos vinte mais”... Ora, que eu saiba, o comportamento de um vinho depende muito da companhia para jantar, das conversas à mesa, da comida, da paisagem, do apetite. Não acredito em características imutáveis de um vinho e suponho, mesmo, que um vinho perde qualidades quando é bebido com pessoas aborrecidas. A ideia de que um vinho sabe a madeiras velhas, ou a amoras silvestres, ou a cera de eucalipto ou a terebintina, é-me razoavelmente duvidosa. Um vinho é a sua paisagem, a sua poeira, a sua memória, o prazer que nos concede.
Confesso que a resposta é negativa em relação a ambas as perguntas... Ou seja: não tenho uma reserva de vinhos imbatíveis. Depende muito da estação do ano, da meteorologia, da comida, daquilo que se vai fazer a seguir, daquilo que se fez antes. Um vinho não se bebe num laboratório, como se todo o bebedor fosse um provador e um detector organoléptico... De modo que há vinhos que são eternos porque apelam a uma memória, a um sentido da vida, a uma esperança no destino – não exagero. Eu nasci na aldeia onde se produziu o primeiro Barca Velha, o que me deixa sempre comovido. O Quinta da Leda de outrora era mesmo ao lado. O novíssimo Meandro e o Vale Meão, naturalmente. Fazem parte da minha geografia, da forma como se olha o rio, da maneira como recordo as idas do meu avô à Quinta do Vale Meão e eu o acompanhava (ele era operário, e fazia consertos na canalização da quinta...). O Quinta da Leda de 2009 é um bom exemplo de grande vinho, tal como o Robustus Niepoort ou o Poeira. À parte isso, há vinhos como o Valle Pradinhos, por exemplo, que evocam também uma parte da minha infância em casa dos avós maternos, perto de Bragança... De resto, apaixonam-me os novos brancos e rosés do Douro, que provam e sustentam a capacidade inventiva dos criadores da região. E às vezes tenho saudades de vinhos que já não existem, como o Grantom dos anos setenta... Ou do Evel branco de 2000, uma pérola que não se repete.
Tomemos o arroz de bacalhau de Jaime Ramos. Ramiro levou uma garrafa de vinho, não sabemos qual, para o jantar com o inspector. Aquele prato não tem o seu vinho perfeito?
Tem. Eles bebem Valle Pradinhos branco. Uma recordação de adolescência tardia, um sabor único, um aroma frágil.
Enochateia-se facilmente? Quantos descritores aromáticos parvos são precisos para irritar um duriense?
Irrito-me, sim. Os enochatos são uma categoria de gente aborrecida, capazes de destruir um vinho só com uma frase. A verdade é que se trata de uma forma de estar na vida, e eles dependem largamente da sua capacidade de alardear conhecimentos a propósito e despropósito. É como se vivessem num laboratório e numa “lista dos vinte mais”... Ora, que eu saiba, o comportamento de um vinho depende muito da companhia para jantar, das conversas à mesa, da comida, da paisagem, do apetite. Não acredito em características imutáveis de um vinho e suponho, mesmo, que um vinho perde qualidades quando é bebido com pessoas aborrecidas. A ideia de que um vinho sabe a madeiras velhas, ou a amoras silvestres, ou a cera de eucalipto ou a terebintina, é-me razoavelmente duvidosa. Um vinho é a sua paisagem, a sua poeira, a sua memória, o prazer que nos concede.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Espiral de dívida
Nem sei muito bem como exprimir esta pura alegria: homens que admiro — a quem estou penhorado pelo simples benefício da sua actividade, da sua erudição, do seu génio, do seu humor, da sua sensatez — consentirem em gastar algum tempo para responder a perguntas que lhes remeto. Posso dizer, sem exagero, que cada frase em retorno vale Barca Velha.
Nos livros aprende-se a viver. De resto, além do amor e da viagem, eles são a única coisa que prolonga as nossas vidas. O leitor sabe. Só por isso, devemos toda a gratidão do mundo aos nossos autores.
As “entrevistas frugais” regressam depois de amanhã, com Francisco José Viegas. Sou seu leitor, era fatal: perdi-me numa espiral de dívida.
Nos livros aprende-se a viver. De resto, além do amor e da viagem, eles são a única coisa que prolonga as nossas vidas. O leitor sabe. Só por isso, devemos toda a gratidão do mundo aos nossos autores.
As “entrevistas frugais” regressam depois de amanhã, com Francisco José Viegas. Sou seu leitor, era fatal: perdi-me numa espiral de dívida.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Outro tweet pasteurizado
Pasteur terá dito: Há mais livros numa garrafa de filosofia do que em todò vinho.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Tweet pasteurizado
Pasteur terá dito: Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros. Hic.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Vinhas Altas Reserva 2004
CAVIPOR, Caves Monteiros, Vinícola de Penafiel. Regional Minho. Sousão. Osvaldo Amado (enol.) (?). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).
Patê, rosmaninho, fumo. Grande frescura. Um carácter raro.
Patê, rosmaninho, fumo. Grande frescura. Um carácter raro.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Outro tweet taberneiro
Pasteur terá dito: Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros. Resposta do taberneiro: O senhor doutor hoje não bebe mais Nietzsche.
sábado, 11 de maio de 2013
Tweet taberneiro
Pasteur terá dito: Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros. Foi quando o taberneiro concluiu que eram horas de fechar a biblioteca.


