sábado, 6 de abril de 2013

Lei fundamental

O vinho cai sempre bem. Nós é que caímos mal.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Salmo

«1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor (...)
13 Ele rega os montes desde as suas câmaras: a terra farta-se do fruto das suas obras.
14 Faz crescer a erva para os animais, e a verdura para o serviço do homem, para que tire da terra o alimento.
15 E o vinho que alegra o coração do homem e faz reluzir o seu rosto como azeite, e o pão que fortalece o seu coração.»

Salmos, 104

domingo, 17 de março de 2013

Irreverente 2011 (branco)

UDACA. Regional Terras do Dão (Serra da Estrela). Encruzado, Malvasia Fina, Bical. Carlos Costa Silva (enol.) (?). 13,3% Vol. 2,49 € (Leclerc).
Perfume citrino (lima, vem escrito). (Fermentado em carvalho francês.) Belo corpo, fresco, maduro, um nadinha doce. Uma delícia.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Bebe sempre, sob todolos pretextos

«Estes vinhos [dos países mediterrâneos], que se conhecem por nomes eufónicos, ricos de álcool, perfumados, luminosos, fortes e contrastados como a paisagem onde se criaram, têm na grande variedade das bebidas estimulantes ou refrescantes um lugar à parte, raro e nobre. O homem do povo bebe sempre, em toda a parte, e sob todos os pretextos, os vinhos comuns. No Inverno o vinho aquece e dá conforto, que tantas vezes falta nas casas; no Verão refresca, ajuda a digestão, aguça o apetite que decresce pelos grandes calores.

A cultura da vinha ultrapassa hoje, e muito, os limites do mundo mediterrâneo. Mas pode dizer-se que onde ela chega e o consumo do vinho é ainda corrente, chega também alguma coisa mais que recorda o Sul. Onde se bebe cidra ou cerveja é outra terra e outra gente.»

Orlando Ribeiro, em Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Estudo Geográfico (1945)

sábado, 9 de março de 2013

Dona Ermelinda 2011 (branco)

Casa Ermelinda Freitas. DO Palmela (Fernando Pó). Fernão Pires, Arinto, Chardonnay. Jaime Quendera (enol.). 13,5% Vol. Cerca de 3 € (Intermarché).
Fruta madura (limão, melão, meloa?) e manteiga. Muito saboroso.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Uma coisa viva

Quinta da Fidalga 1980
(Muito obrigado, F.)

«Gosto de pensar na vida do vinho. Em como é uma coisa viva. Gosto de pensar sobre o que se passava no ano em que as uvas estavam a crescer. Como o sol brilhava. Se choveu. Gosto de pensar em todas as pessoas que cuidaram e colheram as uvas. E, se é um vinho velho, quantas delas devem estar agora mortas. Gosto de como o vinho continua a evoluir, de como, se eu abrisse uma garrafa de vinho hoje, ele teria um sabor diferente do que se a tivesse aberto noutro dia qualquer. Porque uma garrafa de vinho está de facto viva. E está constantemente a evoluir e a ganhar complexidade. Isto é, até atingir o auge, como o teu 61. E então começa o seu firme, inevitável declínio.
And it tastes so fucking good.»

Maya para Miles, no filme Sideways

sábado, 2 de março de 2013

Ninguém bebia

Um homem alto e louro, bem vestido. Óbvio inglês. Tweed. Lenço a enfeitar o pescoço. Fumador de cigarros Camel. Leitor de David Lodge e Julian Barnes. Sport, humor negro. Nome, John Walker. Nosso professor no primeiro ano da faculdade.

Pontualidade infame. Capaz de chegar às 8h45 para a aula das 8 horas. Começou por atrasos menores, até aprendermos a esperar por ele. Excelente português, nunca usado com os alunos. Achava ridícula a forma como se pronuncia «Titanic» em Portugal.

Um dia em que me apresentei de camisa clara e gravata escura com bonecos, fez-me ficar de pé no meio da sala pequena, entre as mesas dispostas em u. Único rapaz na turma, dez, doze raparigas. (A minha mulher.) (Estudar Literatura é muito viril. Não tanto como gravatas com bonecos.) Depois mandou-me sair, beber café, dar uma volta. Elas ficaram a descrever-me, ele a escrever no quadro. Barbudo; sombrio; misterioso. Very typical.

Outra vez perguntou-nos se fumávamos. Se bebíamos. Ninguém fumava, ninguém bebia. Possivelmente era verdade. Ele, semblante sério: «Fazem muito bem em não fumar e não beber.» Pausa. «Mas não sabem o que perdem.»

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Grandes talagadas

Por falar em Periquita e no Brasil, aqui fica mais um pouco de grande arte. («Minha arte é maior ainda: eu amo aqueles que me amam.»)

«Raul chegou com uma garrafa de Periquita debaixo do braço.
“Tem lugar no Brasil em que periquita é xoxota. Por isso comprei este vinho para nós tomarmos.”
“J. M. da Fonseca. É um bom vinho português.”
“Esses galegos inventam cada nome”, disse Raul. “Você conhece aquela do português que foi ao médico e botou o pau pra fora pedindo para ser examinado?”
Abrimos o Periquita.
“Certos vinhos podem ser bebidos em grandes talagadas, fora das refeições, como um refresco inebriante. Este, porém, iria melhor com umas tripas à moda do Porto.”
Bebemos o vinho estalando a língua e emitindo outros sons não vocabulares.»

Rubem Fonseca, em A Grande Arte (1983)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Fontanário de Pegões 2009 (Tinto)

O Fontanário de Pegões Velhos, erigido cerca de 1728, é outra obra aquária do rei que, ao que parece, abominava o vinho.

Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões. DO Palmela. Castelão, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon. Jaime Quendera (enol.). 13,5% Vol. 2,48 € (Continente).
Faz pensar em fruta passa e alguma erva aromática. Acho que tem o que se chama de aroma vinoso, ou seja, cheira a vinho, sem notas, nuances nem toques. De igual modo, a acidez, os taninos sensíveis, embora suaves, e o sabor — a vinosidade? — não são propriamente ao jeito moderno. Gostei.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Cheiro de cachorro molhado

Uma cena do filme Estômago. Para todos os «wine lovers» (são pessoas que adoram wine).
Grande, abençoado Brasil!



«Não adianta ser aquelas uva rubi que nós encontra na feira não, porque ali não dá pé, não dá pra fazer o vinho. Pra fazer o vinho, o sujeito massaroca a uva bem massarocadinho mesmo, deixa fermentando, faz o gás, e aí pega a baba e joga nuns tonel de madeira de fazer pinga, assim — agora, só a baba, sem a pinga! Por isso que o vinho tem essas coisa de sentir cheiro, né? Porque é o seguinte: ele fica um ano e meio ali naquele barril, com o cheiro tudo fechadinho lá dentro; então, quando nós abre a garrafa, ó, vem aquele cheiro de frô, vem aquele cheiro de uva, vem aquele cheiro de mato, vem aquele cheiro de madeira, vem até um cheiro de bundum de animal — de bicho mesmo! É. Tem uns vinho que tem cheiro de cachorro molhado!»

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sociedade do Desassossego

A Sociedade do Desassossego reunia às sextas-feiras, pela noite dentro, num velho sótão que ficava fora do mundo. (Por vezes, a mãe de um dos associados fundadores subia do mundo até ao sótão, que aliás era seu, ou então gritava de longe o nome do filho, quando a assembleia se tornava barulhenta.)

Tratava-se de uma agremiação minúscula e bastante pacata, mais um trio jantante — ou melhor, petiscante — do que um cenáculo à medida de João da Ega. Os nossos serões não contemplavam filosofias severas nem decotes graciosos, o que não deixávamos de lamentar.

Todavia, tínhamos Literatura. À luz de um candeeiro de petróleo muito mais velho que nós (só admitíamos a electricidade na aparelhagem de som), começávamos sempre por ler uma pequena declaração de princípios. Em linhas gerais, propunhamo-nos compreender os mistérios da existência e maravilhar-nos perpetuamente com a espantosa realidade das coisas. Nada de muito extravagante.

Em seguida, outro de nós recitava o Cântico Negro de José Régio, acto solene e obrigatório. «Eu tenho a minha Loucura! / Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, / E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…»

Entretanto, os lábios dos consócios já mergulhavam nos copos, para se unirem ao tinto sacramental. Se bem me lembro, a nossa ordem de trabalhos não separava os livros do petisco, de modo que a praxe consistia em intercalar os poetas com os chouriços, os queijos e as fatias de broa de Avintes.

O vinho era escolhido com uma ingenuidade feliz. Conhecíamos genericamente as marcas mais populares, como Monte Velho ou Periquita, e tínhamos pouco dinheiro. De resto, procurávamos simplesmente o que nos sabia melhor. (Foi nessa época, estou em crer, que descobri que gostava muito do vinho das Terras do Sado. Achava-o perfumado. Dava-me prazer. Apetecia-o. Eis como ingressei na carreira de apreciador.)

Líamos sobretudo poesia, em busca de clarões e de milagres. Confiávamos em Shelley: «ela despe o véu de familiaridade ao mundo, e revela a beleza nua e adormecida, que é o espírito das suas formas.»

Deo gratias, faltava-nos vocação para ascetas ou para místicos. Não praticávamos a salutar mortificação dos sentidos e, o que é pior, gostávamos demasiado de rir. Por isso, regularmente nos voltávamos para o Onésimo — o Onésimo, como os maiores — e as suas «diacrónicas», distribuídas pelos números da revista Ler ou reunidas em volumes como Viagens na Minha Era (2001).

Mais tarde apareceu outro, com este título: Livro-me do Desassossego (2006). Já o sótão se tinha livrado de nós. Com o tempo, também nos livrámos uns dos outros.

Por sorte, o Onésimo continua a escrever as «diacrónicas». Eu ainda gosto muito do vinho das Terras do Sado. O desassossego permanece, e nós também. Nada está perdido.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Adega de Vila Real 2011 (Branco)

DOC Douro. Viosinho, Malvasia Fina, Fernão Pires. Rui Madeira, Luís Cortinhas (enol.). 13% Vol. 2,29 € (Continente).
De cheiro cativante, lembra aromas tão diferentes como de queijo, marmelo e verniz… Bastante esperto e saboroso.