sexta-feira, 22 de junho de 2012

Portas do Tejo 2011

Trouxe este branco do Pingo Doce do Fórum Sintra. Ainda o não vi em nenhum outro supermercado.
Recentemente, foi galardoado com «Ouro» no III Concurso de Vinhos Engarrafados do Tejo. No Concurso Nacional de Vinhos de 2012, alcançou a «Prata».
De resto, foi o Portas do Tejo branco que, no ano passado, rendeu à Cooperativa de Almeirim um valioso contrato de fornecimento para a Suécia.
Entre nós, dá-se menos de 2 € por uma garrafa. A crise da dívida não é a crise da liquidez. Graças a Deus.

Portas do Tejo 2011
Adega Cooperativa de Almeirim. Regional Tejo. Fernão Pires, Moscatel Graúdo. 12% Vol. 1,79 €.
Amarelo-claro. Lembra banana e manjericão! (Entretanto, também provei a colheita de 2010. Manteiga e maracujá!) É teso. Sabe à Moscatel. Vai passar o Verão cá em casa.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Beyra 2011

Beyra – Vinhos de Altitude. DOC Beira Interior. Síria, Fonte Cal. 13% Vol. 3,95 €.
Amarelo-claro. Vivo aroma citrino. Tângera e toranja. Acidez apetitosa. Muito bom.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Versejar

Outra gota respingada do livrinho de citações «Save Water, Drink Wine».

«Vinho é poesia engarrafada.»

terça-feira, 12 de junho de 2012

Rayo 2010

Descobri este tinto no Supercor. O letreiro junto às garrafas informava que «Rayo de Arraiolos» é uma marca exclusiva do El Corte Inglés e que o enólogo é Rui Reguinga.
A julgar pela coincidência de castas, teor alcoólico e demais indicações, o vinho em apreço e o Fonte da Serrana poderão ser o mesmo.

Rayo 2010
Soc. Agr. D. Diniz. Regional Alentejano. Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional. 13,5% Vol. 2,85 €.
Rubi transparente. Bem aromático. Fruta, torrefacção, caramelos de fruta. Bom de beber.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Bebe vinho e serás salvo

Uma querida amiga trouxe-nos de Birmingham um livrinho catita. Tem por título «Save Water, Drink Wine». Poupe água, beba vinho.
Podemos dizer que se trata de um livro auto-motivacional. Auto-motiva a beber vinho. Portanto, é uma obra de inestimável valor civilizacional e filosófico. Penso que, vertida para o Português, pode ser instrumental para vencermos a crise. Pois verterei nesta página, às pinguinhas, o meu contributo à Pátria!
Vede se a primeira não corrobora inteiramente o que digo. Vem atribuída à sabedoria popular medieval. Da Alemanha.

«Bebe vinho, e dormirás bem. Dorme, e não pecarás. Evita o pecado, e serás salvo. Logo, bebe vinho e serás salvo.»

terça-feira, 5 de junho de 2012

Dias de vinho e bolos

Pedra do Urso e figueirinha

No tempo em que era aluno da Faculdade de Letras, as terças-feiras eram dias especialmente saborosos. Findas as aulas matutinas, percorria, de metro e autocarro, a curta distância entre a Cidade Universitária e a casa dos meus Avós. (Também o meu Avô Zé Reinaldo frequentara a Cidade Universitária. Não perdia uma só ocasião de dizer que tinha andado nas duas Faculdades, Letras e Direito. «Pois andei! Andei a instalar a canalização.»)
Quando chegava, havia o meu Avô de estar, com um garfo determinado, a recalcar pacientemente os bifes no grelhador. «Adeus, rapaz!» É possível que, ao mesmo tempo, ombro a ombro diante do fogão elevado, a minha Avó Natividade ultimasse o apronto dos condutos, simples, infalíveis, apetitosos.
A mesa estaria posta, com os apetrechos necessários, pão, uns pratinhos sob os copos, para não sujar a toalha. Ocupávamos os nossos lugares. Eu sentava-me à direita do meu Avô, defronte à minha Avó e ao louceiro espelhado.
Enquanto a Natividade distribuía arrozes, saladas com coentros, às vezes batatas fritas (que faz salivar mais um comilão de vinte anos do que bifes e batatas fritas?), o Zé Reinaldo abria a garrafa de Pedra do Urso, visivelmente satisfeito, e enchia bem cheios os copos, como era de regra, até ao rebordo. Fechava a garrafa, pousava-a em seu pratinho. Tomava o copo. Devagar, com cuidado, curvando-se um pouco, levava-o aos lábios, que avançava e dispunha como se o fora beijar, e sorvia o primeiro gole regalado do vinho ligeiramente fresco.
«Comprei esta garrafa para a gente beber, hã?» O meu Avô visivelmente satisfeito. «Este vinho é bom.» (Passados tantos anos, fui eu comprar uma garrafa de Pedra do Urso, e depois outras, para sondar o seu mistério. — Oriundo da Cooperativa da Covilhã. Vinho de Mesa. Rufete, Jaen, Trincadeira. 12,5% Vol. Rubi transparente. Frutado, levemente perfumado. Bem composto, do tipo corredio. — Este vinho é bom, e nem só por ser dos favoritos do meu Avô. Como o Porta dos Cavaleiros, de que gosto muito também por me fazer lembrá-lo, as histórias que contava de quando andou por Viseu, na construção do edifício da Segurança Social, o meu telefonema só para lhe dizer — «Estou na Porta dos Cavaleiros!»)
O meu Avô galhofeiro. «Olha que hoje era peixe! A tua Avó é que teve pena de ti…» Também era ela que nunca esquecia os pudins de chocolate, as roscas de manteiga, as bolinhas de maçapão. «Para que vejas a Avó que aqui tens!» E, com os olhos escuros brilhantes, dobrando os dedos grossos e morenos, fazia-lhe no rosto uma carícia.
Contentes e despreocupados o bastante, o meu Avô e eu bebíamos a garrafa de Pedra do Urso que ele comprava para a gente beber. Mesmo que fosse com peixe, decerto aquele vinho não me consolaria menos. Bebíamos com sede cada decilitro. Decilitrávamos o Pedra do Urso. Nem por isso bebíamos muito. Antes dos dietistas, dos higienistas, dos moralistas modernos, um homem que bebesse pouco era que bebia só meia garrafa às refeições. Nós nem esse pouco, mas eu, mal saído da abstinência, não tardava a sentir um formigueiro suavíssimo na planta dos pés. Por fim, não obstante todo o peso de livros, sebentas e bolos, voltava leve para a Faculdade, com boas cores, saciado e feliz.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Angelus Reserva 2000

Decididamente, preciso aqui de um marcador para absurdos.
Este vinho, encontrei-o no Intermarché de Torres Vedras. (Começa a tomar forma um padrão…) Apanhei a última das últimas garrafas.
2,48 €? Mas anda tudo doudo?

Angelus Reserva 2000
Caves Aliança. DOC Bairrada. Baga. 13% Vol. 2,48 €.
Vermelho-escuro. Aroma complexo, maduro, frutado, fumado, balsâmico. Fino, fresco, taninoso e longo. Óptimo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O sangue de Nosso Senhor

«— Então para desgastar, vá mais esse copito do 47, disse o cónego.
Ele mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um ah de satisfação, e repoltreando-se:
— Boa gota! Assim pode-se viver!
Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaquetão de flanela e o guardanapo atado ao pescoço.
— Boa gota! repetiu, deste não provou hoje você nas galhetas…
— Credo, mano! exclamou D. Josefa com a boca cheia de fios de aletria, muito escandalizada da irreverência.
O cónego encolheu os ombros com desprezo.
— O credo é prà missa! Esta pretensão de se meter sempre em questões que não percebe! Pois fique sabendo que é duma grande importância a questão da qualidade do vinho, na missa. É que é necessário que o vinho seja bom…
— Concorre para a dignidade do santo sacrifício, disse o pároco muito sério, fazendo uma carícia de joelho a Amélia.
— E não é só isso, disse o cónego tomando logo o tom pedagogo. É que o vinho, quando não é bom e tem ingredientes, deixa um depósito nas galhetas; e, se o sacristão não é cuidadoso e não as limpa, as galhetas ganham um cheiro péssimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, não está prevenido e faz-lhe uma careta. Ora aí tem a senhora!
E deu um forte chupão ao cálix. Mas estava falador nessa noite, e depois de arrotar devagar, interpelou de novo D. Josefa, assombrada de tanta ciência.
— E diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora: o vinho, no divino sacrifício, deve ser branco ou tinto?
D. Josefa parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor.
— Emende a menina, mugiu o cónego de dedo em riste para Amélia.
Ela recusou-se, com um risinho. Como não era sacristão, não sabia…
— Emende o senhor pároco!
Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia ser branco…
— E porquê?
Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.
— E porque? continuava o cónego, pedante e roncão.
Não sabia.
— Porque Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pela primeira vez consagrou, fê-lo com vinho branco. E a razão é muito simples: é porque na Judeia nesse tempo, como é notório, não se fabricava vinho tinto… Repita-me a senhora a aletria, faça favor.»

Eça de Queiroz, em «O Crime do Padre Amaro»

terça-feira, 22 de maio de 2012

Alento Reserva 2008 (Tinto)

Luís Louro. Regional Alentejano. Aragonez, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah. 14,5% Vol. Oferta do produtor (preço ronda 11 €).
Vermelho bem escuro. Aroma rico, de compotas de fruta vermelha e silvestre, com um frescor como de coentros, que se faz balsâmico. Elegante, saboroso, persistente. Um vinho esmerado.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Entrevista com Onésimo Teotónio Almeida. Capítulo III: Dois touros.

É possível que o Onésimo não tenha uma anedota ou um episódio em redor do vinho?
Episódios? Com vinho? Bom, já contei alguns. Lembro-me de, quando jovem, me terem oferecido um passeio à ilha do Faial, algo nada fácil para quem vivia em S. Miguel. Ficava longe, no cabo do mundo. Levaram-me à festa de S. João da Caldeira. O Núcleo Cultural da Horta patrocinara um concurso de quadras e insistiu em que eu participasse. Escrevi umas quantas, mas só me recordo de uma a propósito da animação que lá vi, activada a garrafão:
S. João quando novinho
Veio à festa da Caldeira
Nunca tinha visto vinho,
Dançou pela noite inteira.
As outras eram mais ou menos nesse tom. Nada de especial, porém o tema era o ambiente da festa aquecido pelo vinho.
As anedotas são sobretudo de borrachos. Costumo contá-las em série e receio que sejam todas conhecidas. Além de que anedotas de bêbados exigem encenação. Por escrito, não passam bem. As melhores do género que conheço são de irlandeses; ora essas metem inevitavelmente whiskey ou cerveja. Para incluir vinho têm de ser da Europa mediterrânica. Ou atlântica. Por isso aí vai uma das minhas ilhas:
Numa tourada à corda na Terceira um dos arrojados toureiros, que em plena rua se atiram a enfrentar o bravo animal, estava toldado pelo vinho, não conseguindo por isso ser rápido bastante quando o touro investiu contra ele e quase o espatifou. No hospital, a explicar ao médico os ossos partidos, contou então que viu o touro a correr contra ele e quis fugir: Grosso como estava, comecei a ver dois touros. Havia uma árvore ali perto e ia proteger-me por detrás dela mas, como estava a ver tudo a dobrar, também vi duas árvores. Tinha que ser rápido e então tive a pouca sorte de me esconder detrás da árvore falsa…  e apanhei com o touro verdadeiro.
Para terminar, vai uma ocorrida num almoço com um colega professor de Filosofia na Brown, Jim Van Cleve. Perguntei-lhe se ia beber alguma coisa, pois iria pedir o meu indispensável vinho. Escusou-se com o facto de ter de dar uma aula a seguir. Também eu tenho, comentei. Beba um copo, homem! Vai ver que o discurso lhe sai mais suave. O Jim esperou uns momentos antes de reagir: E o raciocínio… mais tosco.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Entrevista com Onésimo Teotónio Almeida. Capítulo II: Não exagerar.

O seu gosto do vinho é mais português ou mais americano? Na LUSAlândia, sê l(USA)landês?
Não sou nacional-vinhista. Por razões pragmáticas, aqui na Nova Inglaterra para consumo caseiro compro sempre vinho português (muito fácil encontrá-lo) e é ele que usamos para ofertas, quando a ocasião surge. Por metade do preço ou ainda menos, adquiro vinho da qualidade de badaladas marcas francesas ou italianas. E faço publicidade do que é nosso.
Nos restaurantes, se há vinho português, encomendo-o pelas mesmas razões. Não havendo, opto por chilenos ou australianos. E, claro, há sempre alguns seguros vinhos californianos. Por sinal, foi na Califórnia, em Napa Valley, que provei os melhores da minha vida. Na adega de Franz Copolla, o realizador de «O Padrinho». Sei que há outras igualmente boas, mesmo em Portugal, porém foi lá que tive acesso a especialidades fora do alcance da minha bolsa, graças a uma bióloga que ali trabalhava, filha de um casal amigo açor-californiano e morador em Napa. Tratamento VIP, toda a tarde fizeram-nos provar vinhos de altíssima qualidade (vi o preço de uma das garrafas: 800 dólares). Mas não foi esse o critério. Néctares de deuses gregos. Além da sensação inigualável ao bebê-los, a total ausência de ressaca, ou sequer ligeira dor de cabeça, na manhã seguinte. Depois de um sono suave com os anjos.
Ah! E noblesse oblige. Acontece de vez em quando ir a casa de emigrantes portugueses que fazem vinho. Há que provar e, por mais carrascão que seja, agradecer aprovativamente. Mas não exagerar porque, se nos descuidamos em simpatia, somos obrigados a levar connosco umas quantas garrafas.