Hero do Castanheiro. DOC Palmela. Castelão. 14,2% Vol. 3,99 €.
Vermelho-escuro. A princípio, um odor forte e adocicado, que, não sendo desagradável, chega a lembrar algo parecido com estrume… Depois, primorosamente casado com o carvalho, um vivo aroma de fruta vermelha em compota, que, abrindo, se torna mais fresco e mais fino. Vibrante na boca, com muito sabor e cauda longa. Realmente, um belo vinho.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
Porto, para os acalmar
«O cónego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma solenidade cómica exclamou:
— Hereticus est! É herege!
— Hereticus est! também eu digo, rosnou o padre Amaro.
Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce.
— Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas, disse logo prudentemente o abade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!
Natário, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:
— Absolver é exercer a graça. A graça só é atributo de Deus: em nenhum autor encontra que a graça seja transmissível. Logo...
— Ponho duas objecções... gritou Amaro com o dedo em riste, em atitude de polémica.
— Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abade aflito. Deixem a sabatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!
Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções clássicas:
— Mil oitocentos e quinze! dizia. Disto não se bebe todos os dias.
Para o saborear, depois de o fazer reluzir à luz na transparência dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as saúdes! A primeira foi ao abade, que murmurava: — Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.»
Eça de Queiroz, em «O Crime do Padre Amaro»
— Hereticus est! É herege!
— Hereticus est! também eu digo, rosnou o padre Amaro.
Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce.
— Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas, disse logo prudentemente o abade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!
Natário, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:
— Absolver é exercer a graça. A graça só é atributo de Deus: em nenhum autor encontra que a graça seja transmissível. Logo...
— Ponho duas objecções... gritou Amaro com o dedo em riste, em atitude de polémica.
— Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abade aflito. Deixem a sabatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!
Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções clássicas:
— Mil oitocentos e quinze! dizia. Disto não se bebe todos os dias.
Para o saborear, depois de o fazer reluzir à luz na transparência dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as saúdes! A primeira foi ao abade, que murmurava: — Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.»
Eça de Queiroz, em «O Crime do Padre Amaro»
quarta-feira, 18 de abril de 2012
As relíquias
Sábado à tarde, neurose ligeira. No entanto, o projecto de fazer arroz-doce.
É senso comum que o arroz-doce reclama um Tawny decente. (Isso, um homem com a telha e Você a fazer piadinhas. «Tawny Carreira»… Francamente.)
Como de ordinário, vamos às compras de vitualhas. Não vejo nem Porto santo, nem Porto alegre. Acode-me à lembrança o supermercado na vila, onde é raro irmos.
Então aí, que foi que eu pilhei? Duas relíquias portuguesas. JP Garrafeira 1989. Menos de 5 €. Prova Régia 2000. Menos de 4.
Não dei com um Porto seguro. Mas é que já a neurose, deliquescida, me não ralou.
O pequeno, suave milagre.
É senso comum que o arroz-doce reclama um Tawny decente. (Isso, um homem com a telha e Você a fazer piadinhas. «Tawny Carreira»… Francamente.)
Como de ordinário, vamos às compras de vitualhas. Não vejo nem Porto santo, nem Porto alegre. Acode-me à lembrança o supermercado na vila, onde é raro irmos.
Então aí, que foi que eu pilhei? Duas relíquias portuguesas. JP Garrafeira 1989. Menos de 5 €. Prova Régia 2000. Menos de 4.
| Portuguese relics with citrus and morning sunshine |
Não dei com um Porto seguro. Mas é que já a neurose, deliquescida, me não ralou.
O pequeno, suave milagre.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Bebamos!
«— Meus senhores, proponho que saudemos o aniversário de Carlos — bradou, em tom de brinde.
— Apoiado — responderam todos, imitando-o.
— Carlos — continuou o primeiro — bebo aos teus vinte anos! Contes pelos trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as paixões que fizeres nascer; e possas tu…
— Não se admitem longos speeches; olá! Bebamos! — disse uma voz.
— É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a frase que sai — acrescentou outra.
— Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sábio, é o vinho que a merece; pois é ele, neste momento, o que mais sabe.
— Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, à difícil digestão dos teus calembours.
— Então? Bebamos! — insistiu o coro.
E o brinde foi geral.»
Júlio Dinis, em «Uma Família Inglesa»
— Apoiado — responderam todos, imitando-o.
— Carlos — continuou o primeiro — bebo aos teus vinte anos! Contes pelos trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as paixões que fizeres nascer; e possas tu…
— Não se admitem longos speeches; olá! Bebamos! — disse uma voz.
— É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a frase que sai — acrescentou outra.
— Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sábio, é o vinho que a merece; pois é ele, neste momento, o que mais sabe.
— Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, à difícil digestão dos teus calembours.
— Então? Bebamos! — insistiu o coro.
E o brinde foi geral.»
Júlio Dinis, em «Uma Família Inglesa»
terça-feira, 10 de abril de 2012
Monte Mayor 2010 (Rosê)
Adega Mayor. Regional Alentejano. Aragonez, Castelão. 13% Vol. Oferta do produtor.
Cor clara, entre vermelho e rosa. Mais expressivo na boca do que no nariz, tem aroma de cássis e sabor de caramelo, framboesa, e caramelo de framboesa. Agradavelmente seco, bem feito, com uma rica acidez.
Cor clara, entre vermelho e rosa. Mais expressivo na boca do que no nariz, tem aroma de cássis e sabor de caramelo, framboesa, e caramelo de framboesa. Agradavelmente seco, bem feito, com uma rica acidez.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Jovem senhora de idade
O Jogo da Bola, como é conhecida a airosa praça central da Ericeira, tem dois renques de plátanos centenários. São dezoito, ao todo. Desde que o Mundo se não acabe entretanto, devemos visitá-los e saudá-los repetidas vezes em 2013. Completarão 110 anos, votados à abnegada função de prover oxigénio à atmosfera, refúgio às aves e sombra aos veraneantes.
Estes plátanos vetustos, comparados com o grandioso espécime do Rossio de Portalegre, não passam de uns rapazes entradotes. Aquela soberba árvore, cuja copa rondará 35 metros de diâmetro, foi plantada em 1838. Camilo não tinha mais que 13 anos, e outros sete andariam antes de nascer o Eça.
Posta em sossego a pouca distância, a Tapada do Chaves, embora muito mais jovem, também é senhora de provecta idade.
Placidamente estirada numa encosta da Serra de São Mamede, a contemplar a paisagem bucólica, não pode deixar de notar que, nos anos deste século, os caminhos se afastaram. De raro em raro, lá passa fora um ou outro automóvel transviado.
Se algum entra a propriedade do Frangoneiro, a prestar visita à senhora, ela não se altera nem se espanta. Ao invés, com modos dignos e serenos, chama de volta o enorme cão pachorrento, que sai a ver quem chega. Um belo animal, igualmente entrado na velhice, com um porte de respeito, o olhar doce e melancólico. Obedece de pronto à voz firme e, desinteressado, retorna ao chão e à modorra o corpanzil.
A senhora, então, fazendo as honras, apresenta os seus domínios. Mostra a vinha mais antiga. Oitenta e tal anos, já não sabe precisar. Na casa onde moraram os Baptista Fino, conta como, em 1998, quatro anos após se ter construído uma linda adega, a família vendeu tudo aquilo ao grupo da Murganheira. Depois passou-se um mau bocado, com o imbróglio em que se achou a Sociedade Lusa de Negócios. Uma macacoa que, por pouco, levava desta pra melhor a senhora.
Agora, convalescida, no seio de um Interior abatido, observa que o fulgor dos tempos áureos pouco alumia o Futuro. Do alto posto da idade, olha-se ao redor com prudente cepticismo.
Mas então. Lá o que se há-de fazer é persistir em fabricar o bom vinho do Alto Alentejo. Ora coma você este queijo, esse enchido, uma côdea de pão, e prove cá o branco novo e os tintos «Reserva». Quanto ao mais, cavalheiro, é vento que passa sobre os plátanos.
(A propósito da Tapada do Chaves, deve ler-se um texto de Pedro Garcias, publicado há tempo no «Fugas». Aliás, este redactor lê-se sempre com proveito. Escreve sobre o vinho como poucos, num estilo desenvolto, elegante e sensato. Confira.)
Estes plátanos vetustos, comparados com o grandioso espécime do Rossio de Portalegre, não passam de uns rapazes entradotes. Aquela soberba árvore, cuja copa rondará 35 metros de diâmetro, foi plantada em 1838. Camilo não tinha mais que 13 anos, e outros sete andariam antes de nascer o Eça.
| O plátano de Portalegre |
Posta em sossego a pouca distância, a Tapada do Chaves, embora muito mais jovem, também é senhora de provecta idade.
Placidamente estirada numa encosta da Serra de São Mamede, a contemplar a paisagem bucólica, não pode deixar de notar que, nos anos deste século, os caminhos se afastaram. De raro em raro, lá passa fora um ou outro automóvel transviado.
Se algum entra a propriedade do Frangoneiro, a prestar visita à senhora, ela não se altera nem se espanta. Ao invés, com modos dignos e serenos, chama de volta o enorme cão pachorrento, que sai a ver quem chega. Um belo animal, igualmente entrado na velhice, com um porte de respeito, o olhar doce e melancólico. Obedece de pronto à voz firme e, desinteressado, retorna ao chão e à modorra o corpanzil.
| Aspecto da Tapada do Chaves |
A senhora, então, fazendo as honras, apresenta os seus domínios. Mostra a vinha mais antiga. Oitenta e tal anos, já não sabe precisar. Na casa onde moraram os Baptista Fino, conta como, em 1998, quatro anos após se ter construído uma linda adega, a família vendeu tudo aquilo ao grupo da Murganheira. Depois passou-se um mau bocado, com o imbróglio em que se achou a Sociedade Lusa de Negócios. Uma macacoa que, por pouco, levava desta pra melhor a senhora.
Agora, convalescida, no seio de um Interior abatido, observa que o fulgor dos tempos áureos pouco alumia o Futuro. Do alto posto da idade, olha-se ao redor com prudente cepticismo.
Mas então. Lá o que se há-de fazer é persistir em fabricar o bom vinho do Alto Alentejo. Ora coma você este queijo, esse enchido, uma côdea de pão, e prove cá o branco novo e os tintos «Reserva». Quanto ao mais, cavalheiro, é vento que passa sobre os plátanos.
(A propósito da Tapada do Chaves, deve ler-se um texto de Pedro Garcias, publicado há tempo no «Fugas». Aliás, este redactor lê-se sempre com proveito. Escreve sobre o vinho como poucos, num estilo desenvolto, elegante e sensato. Confira.)
terça-feira, 3 de abril de 2012
Sobre o Arinto derramado
Como sucede com livros e filmes, faço por não repetir vinhos. Se almejo a conhecer deles o maior número possível, e tão bons e variegados quanto os haja, é meu dever e meu escrúpulo só deitar mão às garrafas nunca dantes esvaziadas. Não terei tempo de provar muitas centenas de vinhos canónicos, os de antanho como os vindouros. Eis justamente porque é mister empregar cada moeda do erário vínico nesses que não bebi, e dar corpo ao meu próprio cânone.
Oh, mas as Circes e as sereias que a cada passo se insinuam! Sibilino apelo sussurrante de certas vasilhas d’Alsácia! Sabe Deus quantas verti daquele glorioso Bucellas 2005, ao cabo de apurado quatro anos…
O caso é que o meu enlevo hoje, embora outro, escorre de outra alsaciana, e tem outros quatro anos de apurado. Daqui a poucas garrafas, míseras 18, hei-de chorar um rio sobre o Arinto derramado. É o tal da Quinta de Chocapalha, que não verga o formoso nervo nem diante um risoto de grelos com Roquefort. Com Roquefort, senhores!
A cada novo copo deste branco, e vão dúzias, sinto-me um Jacinto a descobrir a fava autêntica.
Deste, nem em Bucelas, leitor amigo!
Oh, mas as Circes e as sereias que a cada passo se insinuam! Sibilino apelo sussurrante de certas vasilhas d’Alsácia! Sabe Deus quantas verti daquele glorioso Bucellas 2005, ao cabo de apurado quatro anos…
O caso é que o meu enlevo hoje, embora outro, escorre de outra alsaciana, e tem outros quatro anos de apurado. Daqui a poucas garrafas, míseras 18, hei-de chorar um rio sobre o Arinto derramado. É o tal da Quinta de Chocapalha, que não verga o formoso nervo nem diante um risoto de grelos com Roquefort. Com Roquefort, senhores!
| Arinto com taça de grelos, livros e lunetas |
A cada novo copo deste branco, e vão dúzias, sinto-me um Jacinto a descobrir a fava autêntica.
«(…) Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!… Tentou todavia uma garfada tímida — e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:Nunca por nunca abominei o Arinto. Que disparate. Mas quando embebo o Chocapalha, dou em bradar (entre mim) como o Príncipe de Tormes: — Óptimo!… Ah, deste Arinto, sim! Oh, que Arinto! Que delícia!
— Óptimo!… Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!
E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…
— Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!»
Deste, nem em Bucelas, leitor amigo!
sexta-feira, 30 de março de 2012
Um brinde a Vincent
À memória de Vincent van Gogh, nascido neste dia, em 1853.
É uma boa ocasião para (re)vermos o encantador «Lust for Life», de V. Minelli, ou para nos voltarmos a deixar comover com «Vincent», de Don McLean.
Este quadro, datado de 1888, consta que foi o único que compraram a Van Gogh. No ano da sua morte.
«Mas domingo, se tu tivesses estado connosco! — vimos uma vinha vermelha, toda vermelha como vinho tinto. Na lonjura tornava-se amarela, e depois um céu verde com um sol, terrenos violeta após a chuva e cintilando amarelo aqui e além, onde se reflectia o sol poente.»
(Carta de Vincent para o irmão Theo van Gogh)
É uma boa ocasião para (re)vermos o encantador «Lust for Life», de V. Minelli, ou para nos voltarmos a deixar comover com «Vincent», de Don McLean.
Este quadro, datado de 1888, consta que foi o único que compraram a Van Gogh. No ano da sua morte.
![]() |
| «Vinha Vermelha em Arles» |
«Mas domingo, se tu tivesses estado connosco! — vimos uma vinha vermelha, toda vermelha como vinho tinto. Na lonjura tornava-se amarela, e depois um céu verde com um sol, terrenos violeta após a chuva e cintilando amarelo aqui e além, onde se reflectia o sol poente.»
(Carta de Vincent para o irmão Theo van Gogh)
segunda-feira, 26 de março de 2012
Alento Reserva 2010
Luís Louro. Regional Alentejano. Arinto, Antão Vaz. 13% Vol. Oferta do produtor.
Amarelo-claro. Notas aromáticas tostadas, de baunilha, sobre citrinos e marmelo. Bem proporcionado na boca, saboroso, com acidez e persistência apreciáveis.
Amarelo-claro. Notas aromáticas tostadas, de baunilha, sobre citrinos e marmelo. Bem proporcionado na boca, saboroso, com acidez e persistência apreciáveis.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Entrevista com José Bento dos Santos
O que é, de concreto, que distingue um vinho bom de um outro sublime? O que é a quinta-essência do vinho?
Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona. Num vinho, tal como na arte, o factor complexidade é determinante. Pode ser um clássico, que nos toca essencialmente pela sua consistência ao longo da história, pode ser um moderno, que nos impressiona pela criatividade, pela diferença ou pela surpresa. Mas o sublime tem sempre que nos provocar uma sentida emoção.
Algum vinho em particular lhe merece o mesmo apreço que tem por pão com manteiga?
O pão com manteiga não é, nunca é, simplesmente «pão» com «manteiga». É pão sublime, de formato natural, ácido, fresco, com odor e gosto profundo, e a manteiga, de grande qualidade, de leite inteiro, recolhido na hora adequada, batida à mão. A simplicidade aparente do enunciado «pão com manteiga» torna-se na complexidade extrema do gosto sublime. Tal como no vinho, um grande borgonha, produzido num terroir único, por um produtor de referência e num ano excepcional, pode ser mais que o sublime, o êxtase. E até vai bem com o pão com manteiga referido…
Desculpe o prosaísmo, mas não se pode ir ao mestre e não pedir ensinamento. Afinal, que vinho acompanha na perfeição os nossos pratos de bacalhau mais tradicionais?
Quando dizemos que temos 1000 maneiras de confeccionar bacalhau, com elementos de cozedura distintos, com diferentes acompanhamentos para cada caso, os vinhos mais adequados podem (devem) ser diferentes. Se, no bacalhau cozido com todos, um tinto jovem e vivo parece indicado (dos meus, sugeriria o Lybra tinto), já um bacalhau assado ou no forno pode configurar um tinto um pouco mais elaborado (tenho tido óptimas experiências com o meu Têmpera). Se for um bacalhau com natas, um bacalhau espiritual, ou mesmo um bacalhau à Braz (com a presença dos ovos), não hesitava num vinho branco com algum estágio, que lhe conferisse peso e complexidade (não resisto a aconselhar o nosso Madrigal…). Mas acompanharia um bacalhau à Gomes de Sá com um branco jovem cheio de garra!
Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona. Num vinho, tal como na arte, o factor complexidade é determinante. Pode ser um clássico, que nos toca essencialmente pela sua consistência ao longo da história, pode ser um moderno, que nos impressiona pela criatividade, pela diferença ou pela surpresa. Mas o sublime tem sempre que nos provocar uma sentida emoção.
Algum vinho em particular lhe merece o mesmo apreço que tem por pão com manteiga?
O pão com manteiga não é, nunca é, simplesmente «pão» com «manteiga». É pão sublime, de formato natural, ácido, fresco, com odor e gosto profundo, e a manteiga, de grande qualidade, de leite inteiro, recolhido na hora adequada, batida à mão. A simplicidade aparente do enunciado «pão com manteiga» torna-se na complexidade extrema do gosto sublime. Tal como no vinho, um grande borgonha, produzido num terroir único, por um produtor de referência e num ano excepcional, pode ser mais que o sublime, o êxtase. E até vai bem com o pão com manteiga referido…
Desculpe o prosaísmo, mas não se pode ir ao mestre e não pedir ensinamento. Afinal, que vinho acompanha na perfeição os nossos pratos de bacalhau mais tradicionais?
Quando dizemos que temos 1000 maneiras de confeccionar bacalhau, com elementos de cozedura distintos, com diferentes acompanhamentos para cada caso, os vinhos mais adequados podem (devem) ser diferentes. Se, no bacalhau cozido com todos, um tinto jovem e vivo parece indicado (dos meus, sugeriria o Lybra tinto), já um bacalhau assado ou no forno pode configurar um tinto um pouco mais elaborado (tenho tido óptimas experiências com o meu Têmpera). Se for um bacalhau com natas, um bacalhau espiritual, ou mesmo um bacalhau à Braz (com a presença dos ovos), não hesitava num vinho branco com algum estágio, que lhe conferisse peso e complexidade (não resisto a aconselhar o nosso Madrigal…). Mas acompanharia um bacalhau à Gomes de Sá com um branco jovem cheio de garra!
segunda-feira, 12 de março de 2012
O que nos emociona
Esta semana, o «Amável Vinho» tem a alegria de publicar uma autêntica pérola. É uma pequena entrevista, esperançadamente a primeira de uma série de entrevistas frugais. Só três perguntas, dirigidas a um conjunto de personalidades, por razões de admiração e simpatia. Pelo grato, supremo privilégio de comunicar.
O primeiro entrevistado foi tão generoso como dizem, e tão cativante como costuma. Um almoço com ele deve ser matéria de legenda, um banho de civilização. (Vejo agora que posso apresentar de modo mais simples o conjunto de entrevistados: são pessoas com quem gostava de partilhar uma refeição.) As palavras que bondosamente nos ofereceu são de apetite.
Por ora, leitores, degustemos a frase que abre as respostas de José Bento dos Santos: — «Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona.»
O primeiro entrevistado foi tão generoso como dizem, e tão cativante como costuma. Um almoço com ele deve ser matéria de legenda, um banho de civilização. (Vejo agora que posso apresentar de modo mais simples o conjunto de entrevistados: são pessoas com quem gostava de partilhar uma refeição.) As palavras que bondosamente nos ofereceu são de apetite.
Por ora, leitores, degustemos a frase que abre as respostas de José Bento dos Santos: — «Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona.»
quinta-feira, 8 de março de 2012
Um brinde a um recém-contemporâneo
A Benjamin Zenner Branco, nosso contemporâneo desde há exactamente um mês.
Dedico-te esta tradução, que fiz há tempos para mim mesmo (sê benévolo). Não te será agora tão útil como um «Babygro», mas é um poema que convém teres por perto.
Que tenhas uma vida boa!
Oh Eu! Oh Vida!
Oh eu! Oh vida!... das questões de estas recorrendo;
Dos infindáveis comboios dos descrentes — de cidades atestadas com os tolos;
De eu próprio continuamente recriminando a mim próprio, (pois quem mais tolo que eu, e quem mais descrente?)
De olhos que debalde anseiam a luz — dos objectos vis — da luta sempre renovada;
Dos pobres resultados de tudo — das multidões arrastadas e sórdidas que vejo ao meu redor;
Dos vazios e inúteis anos dos restantes — com os restantes eu irmanado;
A questão, Oh eu! tão triste, recorrendo — Que bem no meio destes, Oh eu, Oh vida?
Que tu estás aqui — que a vida existe, e a identidade;
Que o poderoso drama continua, e tu contribuirás um verso.
Walt Whitman
Dedico-te esta tradução, que fiz há tempos para mim mesmo (sê benévolo). Não te será agora tão útil como um «Babygro», mas é um poema que convém teres por perto.
Que tenhas uma vida boa!
§
Oh Eu! Oh Vida!
Oh eu! Oh vida!... das questões de estas recorrendo;
Dos infindáveis comboios dos descrentes — de cidades atestadas com os tolos;
De eu próprio continuamente recriminando a mim próprio, (pois quem mais tolo que eu, e quem mais descrente?)
De olhos que debalde anseiam a luz — dos objectos vis — da luta sempre renovada;
Dos pobres resultados de tudo — das multidões arrastadas e sórdidas que vejo ao meu redor;
Dos vazios e inúteis anos dos restantes — com os restantes eu irmanado;
A questão, Oh eu! tão triste, recorrendo — Que bem no meio destes, Oh eu, Oh vida?
Resposta.
Que tu estás aqui — que a vida existe, e a identidade;
Que o poderoso drama continua, e tu contribuirás um verso.
Walt Whitman
