Luís Louro. Regional Alentejano. Arinto, Antão Vaz. 13% Vol. Oferta do produtor.
Amarelo-claro. Notas aromáticas tostadas, de baunilha, sobre citrinos e marmelo. Bem proporcionado na boca, saboroso, com acidez e persistência apreciáveis.
segunda-feira, 26 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
Entrevista com José Bento dos Santos
O que é, de concreto, que distingue um vinho bom de um outro sublime? O que é a quinta-essência do vinho?
Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona. Num vinho, tal como na arte, o factor complexidade é determinante. Pode ser um clássico, que nos toca essencialmente pela sua consistência ao longo da história, pode ser um moderno, que nos impressiona pela criatividade, pela diferença ou pela surpresa. Mas o sublime tem sempre que nos provocar uma sentida emoção.
Algum vinho em particular lhe merece o mesmo apreço que tem por pão com manteiga?
O pão com manteiga não é, nunca é, simplesmente «pão» com «manteiga». É pão sublime, de formato natural, ácido, fresco, com odor e gosto profundo, e a manteiga, de grande qualidade, de leite inteiro, recolhido na hora adequada, batida à mão. A simplicidade aparente do enunciado «pão com manteiga» torna-se na complexidade extrema do gosto sublime. Tal como no vinho, um grande borgonha, produzido num terroir único, por um produtor de referência e num ano excepcional, pode ser mais que o sublime, o êxtase. E até vai bem com o pão com manteiga referido…
Desculpe o prosaísmo, mas não se pode ir ao mestre e não pedir ensinamento. Afinal, que vinho acompanha na perfeição os nossos pratos de bacalhau mais tradicionais?
Quando dizemos que temos 1000 maneiras de confeccionar bacalhau, com elementos de cozedura distintos, com diferentes acompanhamentos para cada caso, os vinhos mais adequados podem (devem) ser diferentes. Se, no bacalhau cozido com todos, um tinto jovem e vivo parece indicado (dos meus, sugeriria o Lybra tinto), já um bacalhau assado ou no forno pode configurar um tinto um pouco mais elaborado (tenho tido óptimas experiências com o meu Têmpera). Se for um bacalhau com natas, um bacalhau espiritual, ou mesmo um bacalhau à Braz (com a presença dos ovos), não hesitava num vinho branco com algum estágio, que lhe conferisse peso e complexidade (não resisto a aconselhar o nosso Madrigal…). Mas acompanharia um bacalhau à Gomes de Sá com um branco jovem cheio de garra!
Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona. Num vinho, tal como na arte, o factor complexidade é determinante. Pode ser um clássico, que nos toca essencialmente pela sua consistência ao longo da história, pode ser um moderno, que nos impressiona pela criatividade, pela diferença ou pela surpresa. Mas o sublime tem sempre que nos provocar uma sentida emoção.
Algum vinho em particular lhe merece o mesmo apreço que tem por pão com manteiga?
O pão com manteiga não é, nunca é, simplesmente «pão» com «manteiga». É pão sublime, de formato natural, ácido, fresco, com odor e gosto profundo, e a manteiga, de grande qualidade, de leite inteiro, recolhido na hora adequada, batida à mão. A simplicidade aparente do enunciado «pão com manteiga» torna-se na complexidade extrema do gosto sublime. Tal como no vinho, um grande borgonha, produzido num terroir único, por um produtor de referência e num ano excepcional, pode ser mais que o sublime, o êxtase. E até vai bem com o pão com manteiga referido…
Desculpe o prosaísmo, mas não se pode ir ao mestre e não pedir ensinamento. Afinal, que vinho acompanha na perfeição os nossos pratos de bacalhau mais tradicionais?
Quando dizemos que temos 1000 maneiras de confeccionar bacalhau, com elementos de cozedura distintos, com diferentes acompanhamentos para cada caso, os vinhos mais adequados podem (devem) ser diferentes. Se, no bacalhau cozido com todos, um tinto jovem e vivo parece indicado (dos meus, sugeriria o Lybra tinto), já um bacalhau assado ou no forno pode configurar um tinto um pouco mais elaborado (tenho tido óptimas experiências com o meu Têmpera). Se for um bacalhau com natas, um bacalhau espiritual, ou mesmo um bacalhau à Braz (com a presença dos ovos), não hesitava num vinho branco com algum estágio, que lhe conferisse peso e complexidade (não resisto a aconselhar o nosso Madrigal…). Mas acompanharia um bacalhau à Gomes de Sá com um branco jovem cheio de garra!
segunda-feira, 12 de março de 2012
O que nos emociona
Esta semana, o «Amável Vinho» tem a alegria de publicar uma autêntica pérola. É uma pequena entrevista, esperançadamente a primeira de uma série de entrevistas frugais. Só três perguntas, dirigidas a um conjunto de personalidades, por razões de admiração e simpatia. Pelo grato, supremo privilégio de comunicar.
O primeiro entrevistado foi tão generoso como dizem, e tão cativante como costuma. Um almoço com ele deve ser matéria de legenda, um banho de civilização. (Vejo agora que posso apresentar de modo mais simples o conjunto de entrevistados: são pessoas com quem gostava de partilhar uma refeição.) As palavras que bondosamente nos ofereceu são de apetite.
Por ora, leitores, degustemos a frase que abre as respostas de José Bento dos Santos: — «Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona.»
O primeiro entrevistado foi tão generoso como dizem, e tão cativante como costuma. Um almoço com ele deve ser matéria de legenda, um banho de civilização. (Vejo agora que posso apresentar de modo mais simples o conjunto de entrevistados: são pessoas com quem gostava de partilhar uma refeição.) As palavras que bondosamente nos ofereceu são de apetite.
Por ora, leitores, degustemos a frase que abre as respostas de José Bento dos Santos: — «Tal como em quase tudo na vida, o sublime é o que nos emociona.»
quinta-feira, 8 de março de 2012
Um brinde a um recém-contemporâneo
A Benjamin Zenner Branco, nosso contemporâneo desde há exactamente um mês.
Dedico-te esta tradução, que fiz há tempos para mim mesmo (sê benévolo). Não te será agora tão útil como um «Babygro», mas é um poema que convém teres por perto.
Que tenhas uma vida boa!
Oh Eu! Oh Vida!
Oh eu! Oh vida!... das questões de estas recorrendo;
Dos infindáveis comboios dos descrentes — de cidades atestadas com os tolos;
De eu próprio continuamente recriminando a mim próprio, (pois quem mais tolo que eu, e quem mais descrente?)
De olhos que debalde anseiam a luz — dos objectos vis — da luta sempre renovada;
Dos pobres resultados de tudo — das multidões arrastadas e sórdidas que vejo ao meu redor;
Dos vazios e inúteis anos dos restantes — com os restantes eu irmanado;
A questão, Oh eu! tão triste, recorrendo — Que bem no meio destes, Oh eu, Oh vida?
Que tu estás aqui — que a vida existe, e a identidade;
Que o poderoso drama continua, e tu contribuirás um verso.
Walt Whitman
Dedico-te esta tradução, que fiz há tempos para mim mesmo (sê benévolo). Não te será agora tão útil como um «Babygro», mas é um poema que convém teres por perto.
Que tenhas uma vida boa!
§
Oh Eu! Oh Vida!
Oh eu! Oh vida!... das questões de estas recorrendo;
Dos infindáveis comboios dos descrentes — de cidades atestadas com os tolos;
De eu próprio continuamente recriminando a mim próprio, (pois quem mais tolo que eu, e quem mais descrente?)
De olhos que debalde anseiam a luz — dos objectos vis — da luta sempre renovada;
Dos pobres resultados de tudo — das multidões arrastadas e sórdidas que vejo ao meu redor;
Dos vazios e inúteis anos dos restantes — com os restantes eu irmanado;
A questão, Oh eu! tão triste, recorrendo — Que bem no meio destes, Oh eu, Oh vida?
Resposta.
Que tu estás aqui — que a vida existe, e a identidade;
Que o poderoso drama continua, e tu contribuirás um verso.
Walt Whitman
terça-feira, 6 de março de 2012
Quem dera um bem-haja
Aprendi hoje que «bem-haja», para além de ser uma forma de agradecimento, também designa um cacho de uvas que se encontre na vinha depois da vindima.
Imagine. Uma videira agradecida pelos cuidados, estendendo-lhe as uvas madurinhas: — Toma. Guardei para ti este cachinho.
Que maravilha.
Imagine. Uma videira agradecida pelos cuidados, estendendo-lhe as uvas madurinhas: — Toma. Guardei para ti este cachinho.
Que maravilha.
Um brinde aos corteses
A todos os que não deixam de responder a uma mensagem recebida. A todos os que dão bons-dias a desconhecidos. A todos os que sorriem.
A quantos sabem o valor de uma palavra; que a cortesia é um sinal de inteligência; que todos somos fundamentalmente irmanados, por tempo, espaço e condição.
Bem hajam. À sua.
A quantos sabem o valor de uma palavra; que a cortesia é um sinal de inteligência; que todos somos fundamentalmente irmanados, por tempo, espaço e condição.
Bem hajam. À sua.
Brindemos
Para exprimir um desejo — façamos um brinde. Para dar graças — outro. À saúde, à memória — à nossa, à vossa — brindemos.
Bebemos todos os dias: pois façamos um brinde a cada um, a hoje e a amanhã.
Brindemos.
Bebemos todos os dias: pois façamos um brinde a cada um, a hoje e a amanhã.
Brindemos.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Tem de ser amor
Se eu soubesse alinhavar um texto — manso como a planície — recto como a vinha — sólido como o edifício caiado.
Sorte é começar bem cedo o dia. Deus ajuda a quem madruga. Nesse dia, partimos suficientemente cedo.
Fomos directos a Arraiolos, para eu comprar uma cestinha de piquenique, para dar à mulher amada, para fazer piqueniques com ela. Continuámos até Estremoz.
Comemos açordas, migas, carne, bebemos vinho e café. Deixámos no quarto as bagagens e a garrafa meia do almoço. Seguimos para Campo Maior.
Esperava-nos Mélanie. Estava sentada na recepção da Adega Mayor, assente numa afloração da planície. Mostrou-nos um filme, projectado na pedra cinzenta e nua. Era Rui Nabeiro, vertido na obra apaixonada, acolhendo o visitante.
Mélanie conduziu-nos ao longo do edifício amplo, cru e direito. Com grossas paredes duplas, a adega dispensa ajustes térmicos. Em cima, é isolada por um terraço relvado e um espelho de água. Um sistema computorizado regula a humidade, aspergindo a atmosfera onde repousam as barricas.
Tocada pelo entusiasmo vital dos Nabeiro, Mélanie teve frases ternas. Disse que o vinho é um produto emocional. Falou do namoro entre o vinho e a barrica. Sentámo-nos a prová-lo. Era verdade. Tem de ser fruto de amor, a graça delicada, feminil e sensual que marca aqueles vinhos, cada um. Discretamente, a barrica amadurou-o, realçou-lhe as virtudes, fundiu nele qualidades.
Apontei como dilectos o Solista Touriga Nacional e os dois Reserva do Comendador, branco e tinto. Dias depois, seduzido, pedi uma garrafa do branco. Seria cerne e seiva deste texto. Veio, não a bebi. Se a beber, fico sem ela. Não sei como há-de ser.
(Continua disponível uma fabulosa publicação de 2007, com cerca de 90 páginas dedicadas por inteiro à Adega Mayor e ao projecto de Álvaro Siza Vieira. São textos, desenhos, plantas, a memória descritiva do edifício e, acima de tudo, muitas fotografias maravilhosas. Não deixe de folhear.)
Sorte é começar bem cedo o dia. Deus ajuda a quem madruga. Nesse dia, partimos suficientemente cedo.
Fomos directos a Arraiolos, para eu comprar uma cestinha de piquenique, para dar à mulher amada, para fazer piqueniques com ela. Continuámos até Estremoz.
Comemos açordas, migas, carne, bebemos vinho e café. Deixámos no quarto as bagagens e a garrafa meia do almoço. Seguimos para Campo Maior.
Esperava-nos Mélanie. Estava sentada na recepção da Adega Mayor, assente numa afloração da planície. Mostrou-nos um filme, projectado na pedra cinzenta e nua. Era Rui Nabeiro, vertido na obra apaixonada, acolhendo o visitante.
Mélanie conduziu-nos ao longo do edifício amplo, cru e direito. Com grossas paredes duplas, a adega dispensa ajustes térmicos. Em cima, é isolada por um terraço relvado e um espelho de água. Um sistema computorizado regula a humidade, aspergindo a atmosfera onde repousam as barricas.
Tocada pelo entusiasmo vital dos Nabeiro, Mélanie teve frases ternas. Disse que o vinho é um produto emocional. Falou do namoro entre o vinho e a barrica. Sentámo-nos a prová-lo. Era verdade. Tem de ser fruto de amor, a graça delicada, feminil e sensual que marca aqueles vinhos, cada um. Discretamente, a barrica amadurou-o, realçou-lhe as virtudes, fundiu nele qualidades.
| Cena de amor |
Apontei como dilectos o Solista Touriga Nacional e os dois Reserva do Comendador, branco e tinto. Dias depois, seduzido, pedi uma garrafa do branco. Seria cerne e seiva deste texto. Veio, não a bebi. Se a beber, fico sem ela. Não sei como há-de ser.
(Continua disponível uma fabulosa publicação de 2007, com cerca de 90 páginas dedicadas por inteiro à Adega Mayor e ao projecto de Álvaro Siza Vieira. São textos, desenhos, plantas, a memória descritiva do edifício e, acima de tudo, muitas fotografias maravilhosas. Não deixe de folhear.)
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Unilar Reserva 1977
Todavia, até o mais recatado comete o seu pecadilho; e quando o vinho supera em idade o provador — que diabo, fechemos os olhos.
Caves Bonifácio. Engarrafado em 81, oriundo de Palmela, sem mais indicações (decerto é Castelão). 12,5% Vol. Cerca de 7,50 €.
Vermelho-acastanhado, com halo mais claro; não aparenta 35 anos. Desaparecido, em poucos minutos, algum cheiro de couro, as notas aromáticas mais evidentes são de fruta, ainda, licorosas e doces; também lembra osmazoma, chocolate, figo. Muito macio na boca, tem certo sabor de carne fumada, que faz pensar em enchidos; persistente e bastante aprazível.
| Unilar Reserva 1977 |
Caves Bonifácio. Engarrafado em 81, oriundo de Palmela, sem mais indicações (decerto é Castelão). 12,5% Vol. Cerca de 7,50 €.
Vermelho-acastanhado, com halo mais claro; não aparenta 35 anos. Desaparecido, em poucos minutos, algum cheiro de couro, as notas aromáticas mais evidentes são de fruta, ainda, licorosas e doces; também lembra osmazoma, chocolate, figo. Muito macio na boca, tem certo sabor de carne fumada, que faz pensar em enchidos; persistente e bastante aprazível.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Collares Viúva Gomes Reserva Tinto 1996
(Ei-la. Diga lá que não está de um recato heróico.)
Jacinto Lopes Baeta, Filhos. DOC Colares. Ramisco. 11% Vol. ? €.
Vermelho transparente. Um bouquet rico, complexo, em que se reconhecem notas aromáticas animais, balsâmicas, doces, de especiarias e madeiras. Incomparável na boca, na reunião de acidez, macieza e longor.
Jacinto Lopes Baeta, Filhos. DOC Colares. Ramisco. 11% Vol. ? €.
Vermelho transparente. Um bouquet rico, complexo, em que se reconhecem notas aromáticas animais, balsâmicas, doces, de especiarias e madeiras. Incomparável na boca, na reunião de acidez, macieza e longor.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Vinho que sabe a vinho que sabe a vinho
| Um velho reclame |
A especial dificuldade em descrever os aromas de um Colares com dezasseis anos levou-me, de novo, a questionar a valia de uma nota de prova. Em que medida podemos confiar nos próprios sentidos? — no rigor das impressões? — na precisão da memória olfactiva?
Ressalvemos desde logo que o tema é sério (pela simples razão de que a crítica do vinho, mais ou menos influente, não deixa de ser a crítica do produtor), mas não se trata propriamente de um assunto de Estado, nem de ciência de foguetões. Usemos de alguma candura.
Em geral, gosto pouco de ler as notas de prova dos outros: são mal escritas, papagueadas, delirantes — e não despertam outro apetite senão de tisanas calmantes. Bem entendido, não quer dizer que as minhas sejam menos más. Longe disso. Todas são falíveis; simplesmente, umas são mais tragáveis do que outras.
Repare-se como, de uma penada airosa e clara, Ferreira Lapa caracterizava o Colares, em 1867: — «(…) os vinhos de Colares são intermediários aos vinhos maduros e aos vinhos verdes, possuindo daqueles a suavidade e o grato paladar, e destes a frescura, a viveza e o aroma aldeídico e tartaroso.»
Em 2009, no «Público», Miguel Esteves Cardoso, sabiamente repimpado na santa vizinhança da Adega Regional, escrevia sobre o seu Colares:
«Numa época em que tudo tem de saber a frutas tropicais, chocolate, baunilha, compotas e mijo de gato, os vinhos de Colares, sejam os tintos Ramisco ou os brancos Malvasia, estão entre os poucos que sabem… a vinho.Nós, tão falhos em Ciência como em Arte, resta-nos o comezinho recurso dos descritores aromáticos: são as tintas prosaicas e fracas com que tentamos pintar uma ideia do vinho: uma vez por outra, é muito natural que saia borrada.
São raridades artesanais, blá blá blá, mas o que interessa é que são, de facto, uma delícia. Então o Colarinho branco (…) é uma frescura sequinha, extorquida à areia e ao vento e ao mar, como não há outra neste mundo.»
(Não perca, na próxima publicação, a nota de prova do tal Colares. Verá como eu, conturbado mas digno, resisto à tentação de apontar entre os aromas do vinho — o almíscar e o sândalo.)
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Ao Sul o sol. Um tipo de crónica
| Alento |
Certa manhã prometedora de sol, um tipo agarra o volante e põe-se a caminho de Estremoz. Andados poucos quilómetros, ao virar de uma curva na auto-estrada, depara-se uma muralha extensa de nevoeiro. O carro fura, adentrando outra estação, parda, nevoenta, chuvosa.
Até à ponte sobre o Tejo, é um trajecto curto mas congestionado de centos de alminhas, que rodam arrastadamente para Lisboa. Uma vez liberto, preocupado com as horas e convicto de reaver ao Sul o sol, um tipo acelera. São pontuais 10h30 quando cruza o portal e sobe à Adega do Monte Branco. Sol, está de chuva.
Um tipo é ali bem recebido, por caras jovens, gentis, que sorriem e conversam de boa vontade. Vê-se a adega, que é moderna, porém simpática, moderada em dimensões e apetrechos. Sente-se o cheiro do vinho acabado de fermentar. Conhece-se que o negócio prospera, na larga medida em que crescem as exportações. Pela janela, admira-se um momento a paisagem fria: não há uvas; não há cor; não há sol.
Vai-se dali para a Quinta do Mouro — propriedade de Miguel Louro — pai de Luís Louro — proprietário da Adega do Monte Branco. (Um tipo topa a coincidência entre «Mouro», «Louro», «M. Louro».) Tem-se aí o gosto de apertar a mão tinta do vinicultor Luís Chouriço. Ouve-se-lo explicar as modas mais conservadoras da casa, como a pisa a pés ou o uso de uma velha prensa a força de braços. Vê-se a adega, que não é moderna, porém funcional, austera em dimensões e apetrechos.
Daí, ascende-se a uma vetusta sala de visitas. Sobre a mesa, perfilam-se copos e garrafas: de um lado, os vinhos contemporâneos do Louro filho; do outro, os vinhos classicistas do Louro pai. Provam-se os primeiros, branco, rosé, tinto e reservas, que são muito bons, e um tipo tem forçosamente de elogiar o nome deles, no que tem de bem achado, e luminoso, e singelo: Luís Louro produz e engarrafa Alento.
Prossegue-se com os demais, Vinha do Mouro, Casa dos Zagalos, Quinta do Mouro, «Rótulo Dourado», e um tipo observa que, quanto mais severo o rótulo, tanto maior o condão que o vinho tem de emudecer em reverência um tipo.
Entretanto, é hora de almoço. O céu parece clarear um pouco. Trocam-se adeuses e obrigados.
Sozinho em Estremoz, famélico, pouco abonado — que há-de um tipo fazer? Suprema sofisticação da simplicidade: vai comer uma açorda fumegante, que é de poejos e recende.
Depois, sai-se para a rua. Está sol, finalmente. Parecendo que não, é outro alento.