quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Vinho que sabe a vinho que sabe a vinho

Um velho reclame

A especial dificuldade em descrever os aromas de um Colares com dezasseis anos levou-me, de novo, a questionar a valia de uma nota de prova. Em que medida podemos confiar nos próprios sentidos? — no rigor das impressões? — na precisão da memória olfactiva?
Ressalvemos desde logo que o tema é sério (pela simples razão de que a crítica do vinho, mais ou menos influente, não deixa de ser a crítica do produtor), mas não se trata propriamente de um assunto de Estado, nem de ciência de foguetões. Usemos de alguma candura.
Em geral, gosto pouco de ler as notas de prova dos outros: são mal escritas, papagueadas, delirantes — e não despertam outro apetite senão de tisanas calmantes. Bem entendido, não quer dizer que as minhas sejam menos más. Longe disso. Todas são falíveis; simplesmente, umas são mais tragáveis do que outras.
Repare-se como, de uma penada airosa e clara, Ferreira Lapa caracterizava o Colares, em 1867: — «(…) os vinhos de Colares são intermediários aos vinhos maduros e aos vinhos verdes, possuindo daqueles a suavidade e o grato paladar, e destes a frescura, a viveza e o aroma aldeídico e tartaroso.»
Em 2009, no «Público», Miguel Esteves Cardoso, sabiamente repimpado na santa vizinhança da Adega Regional, escrevia sobre o seu Colares:
«Numa época em que tudo tem de saber a frutas tropicais, chocolate, baunilha, compotas e mijo de gato, os vinhos de Colares, sejam os tintos Ramisco ou os brancos Malvasia, estão entre os poucos que sabem… a vinho.
São raridades artesanais, blá blá blá, mas o que interessa é que são, de facto, uma delícia. Então o Colarinho branco (…) é uma frescura sequinha, extorquida à areia e ao vento e ao mar, como não há outra neste mundo.»
Nós, tão falhos em Ciência como em Arte, resta-nos o comezinho recurso dos descritores aromáticos: são as tintas prosaicas e fracas com que tentamos pintar uma ideia do vinho: uma vez por outra, é muito natural que saia borrada.

(Não perca, na próxima publicação, a nota de prova do tal Colares. Verá como eu, conturbado mas digno, resisto à tentação de apontar entre os aromas do vinho — o almíscar e o sândalo.)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ao Sul o sol. Um tipo de crónica

Alento

Certa manhã prometedora de sol, um tipo agarra o volante e põe-se a caminho de Estremoz. Andados poucos quilómetros, ao virar de uma curva na auto-estrada, depara-se uma muralha extensa de nevoeiro. O carro fura, adentrando outra estação, parda, nevoenta, chuvosa.
Até à ponte sobre o Tejo, é um trajecto curto mas congestionado de centos de alminhas, que rodam arrastadamente para Lisboa. Uma vez liberto, preocupado com as horas e convicto de reaver ao Sul o sol, um tipo acelera. São pontuais 10h30 quando cruza o portal e sobe à Adega do Monte Branco. Sol, está de chuva.
Um tipo é ali bem recebido, por caras jovens, gentis, que sorriem e conversam de boa vontade. Vê-se a adega, que é moderna, porém simpática, moderada em dimensões e apetrechos. Sente-se o cheiro do vinho acabado de fermentar. Conhece-se que o negócio prospera, na larga medida em que crescem as exportações. Pela janela, admira-se um momento a paisagem fria: não há uvas; não há cor; não há sol.
Vai-se dali para a Quinta do Mouro — propriedade de Miguel Louro — pai de Luís Louro — proprietário da Adega do Monte Branco. (Um tipo topa a coincidência entre «Mouro», «Louro», «M. Louro».) Tem-se aí o gosto de apertar a mão tinta do vinicultor Luís Chouriço. Ouve-se-lo explicar as modas mais conservadoras da casa, como a pisa a pés ou o uso de uma velha prensa a força de braços. Vê-se a adega, que não é moderna, porém funcional, austera em dimensões e apetrechos.
Daí, ascende-se a uma vetusta sala de visitas. Sobre a mesa, perfilam-se copos e garrafas: de um lado, os vinhos contemporâneos do Louro filho; do outro, os vinhos classicistas do Louro pai. Provam-se os primeiros, branco, rosé, tinto e reservas, que são muito bons, e um tipo tem forçosamente de elogiar o nome deles, no que tem de bem achado, e luminoso, e singelo: Luís Louro produz e engarrafa Alento.
Prossegue-se com os demais, Vinha do Mouro, Casa dos Zagalos, Quinta do Mouro, «Rótulo Dourado», e um tipo observa que, quanto mais severo o rótulo, tanto maior o condão que o vinho tem de emudecer em reverência um tipo.
Entretanto, é hora de almoço. O céu parece clarear um pouco. Trocam-se adeuses e obrigados.
Sozinho em Estremoz, famélico, pouco abonado — que há-de um tipo fazer? Suprema sofisticação da simplicidade: vai comer uma açorda fumegante, que é de poejos e recende.
Depois, sai-se para a rua. Está sol, finalmente. Parecendo que não, é outro alento.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os rapazes

Os rapazes

Encantei-me por esta fotografia. Descobrimo-la recentemente, vasculhando com a minha Avó as suas recordações.
Não sabemos de que grupo se trata, nem qual era a ocasião. Fosse qual fosse, tinha suficiente importância para se vestir casaco e tirar retrato. A brilhantina, suponho que era de uso quotidiano. Naquela época (finais de cinquenta, começos de sessenta), os rapazes, se algum tempo passavam ao espelho, não era a despentear-se.
Quanto se pode perceber, a esta mesa todos bebem vinho, mesmo os petizes. Há um rapazito de buço, meio escondido, que tem o copo vazio: ou foi o primeiro a emborcá-lo, ou, o que é mais certo, é o copinho-de-leite da ordem. Já o fedelho defronte tem um copo cheio, e tão danadinho estaria, que até saiu desfocado. A senhora risonha do fundo também não tem vinho; mas repare o leitor no brilho daquele rosto; no regalo daquela perna traçada.
(Antes de voltarmos aos rapazes, não lhe parece um tanto lúbrico aquele olhar fêmeo, por detrás do crianço de colarinhos? Não? É talvez da minha vista.)
Então, os rapazes: em ziguezague, depois do copinho-de-leite e o outro fedelho, temos um flagrante delitro de arregalar o olho; um rapazola todo contente; um sujeito que prefere não ver; outro prestes a decilitrar — ou a escavacar o fotógrafo; o seguinte, de que se vê somente a testa, talvez já comesse qualquer coisinha mais do que pão e azeitonas.
Quanto ao cavalheiro mais garboso de entre todos, chamava-se José Reinaldo Ferreira Inácio. Viveu entre 1932 e 2006. Foi meu Avô, e um bom rapaz.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Almojanda 2003

Mais uma excentricidade emanada do que se chama «as leis de mercado»: o Intermarché de Mafra está a vender o Almojanda 2003, da Tapada do Chaves, a 1,89 €. A promoção (salvo seja) estará relacionada com a descontinuação da marca, mas também, por certo, com a idade do vinho.
Já agora, registe-se que certo branco de Sandra Tavares da Silva, passível de inspirar exclamações, continua a poder comprar-se por 1,99 €, no Ecomarché da Merceana. Grande negócio...
Enfim, é o desconcerto do mundo. Está certíssimo.

Almojanda 2003
Tapada do Chaves. Regional Alentejano. Trincadeira, Castelão, Aragonez. 13,5% Vol. 1,89 €.
Vermelho-escuro, com um halo de evolução. Aroma doce e perfumado, de fruta perfeitamente casada com madeira, temperado por notas vegetais, como de eucalipto ou resina. Assim também na boca, bem vivo, bem fresco, bem bom.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Vinhas do Lasso Colheita Seleccionada 2009

Quinta do Pinto. Regional Lisboa. Touriga Nacional, Syrah, Cabernet Sauvignon. 14% Vol. 8 € (em restaurante).
Vermelho-escuro opaco. Aroma licoroso de fruta, balsâmico, de pimento, cremoso, de baunilha, com pós de canela. Na boca, repete-se a impressão de pimento sobre fruta, junta com apreciável frescura e uma ponta de adstringência. Fez bela figura com um cozido.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma questão de tempo

Ao fundo, a adega

O tempo foge. Como é possível que passasse outro Natal, e outro Ano Novo, e outro Janeiro? Ainda há tão pouco éramos novos. Não sabíamos o que eram cãs, nem dívidas, nem mortos. O Mundo girava mansamente, com o fim único de presenciar a nossa glória. Nós não falharíamos: havia tempo para tudo — e tudo é uma questão de tempo.
Entretanto, correm os dias. O leitor sabe como são velozes os dias que correm, indiferentes a angústias e fadigas. Infindos afazeres, obrigações, cuidados, e Internet a perder de vista, e navegar é preciso. Quando se dá conta, não há tempo para nada.
Admiravelmente alheia a este aspecto de corrida contra o tempo, que a vida sempre parece adquirir, a adega do Mouchão, toda serenidade, método, harmonia, afigura-se-me a mais amável de quantas tenho conhecido.

Adega do Mouchão

Na propriedade dos Reynolds, família de origem escocesa, a celebrada fleuma britânica é sinónimo de grande paciência, de falta de pressa — de vagar. Quanto a indiferença, se alguma, só, precisamente, pelo ar do tempo. «Não tencionamos mudar.» Eis a voz corrente, e uma afirmação que não deslustraria como insígnia; mas a casa é bem servida, também nesse particular: — «VINUM SANGUIS VITAE». O vinho é o sangue da vida.
Para esquentar o meu, quem dera agora o calor que fazia quando atravessei a Vinha dos Carapetos, berço provável da Alicante Bouschet em Portugal. A casta é a base de todos os tintos do Mouchão. São vinhos de um carácter extraordinário, retintos, ricos, longevos, como é exemplo o notável 1990 que me foi dado provar.

O sangue da vida

Nesse ano, leitor, ainda a bendita adega não tinha electricidade. Chegou em 91, mas tudo permanece capaz de laborar sem ela. É que o vinho é ali feito hoje como há cem anos; e é regra no Mouchão não haver mais novidades do que duas por século. Afinal de contas, é preciso dar tempo ao tempo.
Ainda vai ser um longo Inverno. Então não vai...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Esplanada 2008

DFJ Vinhos. Regional Algarve. Negra Mole, Trincadeira. 14,5% Vol. Cerca de 4 €.
Vermelho. Aromas doces de fruta madura, com um perfume vegetal subtil. Agradável de beber, harmonioso, simples, liso, qual esfera.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Monte Mayor 2010

Adega Mayor. Regional Alentejano. Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet, Syrah, Petit Verdot. 14% Vol. Oferta do produtor.
Vermelho-escuro. Aroma intensamente frutado, de morangos e amoras, com um fundo de baunilha, que suscita a mesma impressão cremosa dos caramelos de fruta. Corresponde na boca, bem saboroso e estruturado, de final fresco e cativante.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Batem forte, fortemente

A ler com atenção, a crónica de Jancis Robinson sobre as razões da escalada do grau alcoólico do vinho nos últimos anos.
«Os economistas do vinho foram capazes de mostrar que o aumento dos níveis médios de álcool era muito maior do que podia ser explicado por qualquer mudança no clima, e concluíram: “as nossas descobertas levam-nos a pensar que a subida do teor alcoólico do vinho é principalmente obra humana”. Apontaram em particular “preferências dos consumidores em evolução e pontuações de peritos” como mais provável a ter feito subir os níveis de álcool. Por outras palavras, os produtores de vinho entendem que tanto consumidores como especialistas querem vinhos com um sabor mais maduro, taninos mais suaves e acidez mais baixa (os níveis de ácidos caem à medida que as uvas amadurecem), e optaram deliberadamente por fazer colher as uvas mais tarde do que em tempos foram.»

sábado, 21 de janeiro de 2012

Casal Freitas 2008

Por falar em Castelão e Fernando Pó, eis a nota de prova de um vinho aludido há tempos.
A propósito, quando vi comparar Castelão a Pinot Noir, o que primeiro me lembrou foram justamente as notas aromáticas animais, que julgo serem características de ambas as castas, quando criadas nos melhores terroirs.

Casal Freitas 2008
José Bento da Silva Freitas. Regional Terras do Sado. Castelão, Touriga Nacional, Syrah. 13,5% Vol. Cerca de 2,50 €.
Vermelho-escuro intenso. Aroma frutado, de feição gorda, com certa nota animal, que parece lembrar ovelhas… Corpo fluido, sabor equilibrado, com um toque vegetal.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma palavrinha

Que máquina extravagante é o cérebro humano. Hoje, sem mais nem porquê, meteu-se-me na ideia que falhara uma palavra na primeira citação do artigo anterior, sobre os vinhos de Castelão de Palmela. Fui ver, e de facto faltava essa palavra (já não falta, assim como o par de aspas que havia também subtraído ao original).
Para me redimir, copio aqui o mesmo trecho, alargando-o, por ser de interesse. Ora veja o leitor que diferença faz uma palavra.
«A Península de Setúbal é, talvez, a zona do País onde ela [a Castelão] melhor se adapta, embora se lhe reconheçam comportamentos muito distintos. Assim, nas areias do Poceirão e Fernando Pó, em bons anos de colheita, pode atingir 6 a 8 toneladas de uva por hectare, com um grau provável de 13-13,5%, rica de cor, muito aromática e equilibrada na acidez. Origina, então, belos vinhos de guarda, carnudos, com notas aromáticas de frutos vermelhos e plantas silvestres, que “casam” muito bem com o perfume do carvalho francês.»

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conhecer. Comunicar.

Há umas poucas semanas, trouxe finalmente para casa certa garrafa que me trazia curioso: Hero da Machoca Grande Escolha 2001. Não sabia do vinho senão, como estava à vista, que era Castelão de Palmela estreme, vinificado em lagares tradicionais, premiado em Bruxelas com medalha de prata, em 2004.
Desarrolhei a dita garrafa no outro fim-de-semana, por ocasião de um almoço em família. Não pude na circunstância tomar grande sentido no copo, mas o vinho era uma flagrante delícia, caso sério a requerer atenção. No dia seguinte, voltei ao supermercado e deitei mão às três garrafas que restavam na prateleira, as mesmíssimas que havia semanas lá deixara.
Este domingo, cá se bebeu outra, de par com uma travessa de almôndegas, récipe de influência transmontano-neerlandesa. O vinho confirmou-se esplêndido (a nota de prova terá de esperar pela garrafa seguinte), com todas as qualidades que se reconhecem aos melhores exemplares da Castelão de Palmela, como são apontadas no guia de referência em matérias de ciência vitivinícola nacional: — «belos vinhos de guarda, carnudos, com notas aromáticas de frutos vermelhos e plantas silvestres, que “casam” muito bem com o perfume do carvalho francês.» Sobre o produtor deste Hero da Machoca, diz-se aí também que as suas vinhas são maioritariamente velhas e «estão situadas no Poceirão e na Marateca, consideradas zonas excepcionais para a produção de uvas da casta Castelão.» Depois há «a mão do enólogo António Saramago — um verdadeiro mestre da casta e da região».
Note-se ainda que Filipa Tomaz da Costa, a primeira das enólogas portuguesas, compara mesmo a Castelão da Península de Setúbal à Pinot Noir da Borgonha.
Quero eu afinal chegar ao preço que paguei por este vinho rico e longevo, feito de uma casta autóctone de Portugal, no seu terroir mais propício, por um dos nossos mais conceituados vinicultores — portanto, um produto de qualidade superior, que serviria bem o fim de ilustrar e promover nos mercados de exportação o carácter genuíno dos vinhos portugueses. Embora ele se venda na origem a 9,45 €, eu comprei num Intermarché o Hero da Machoca Grande Escolha 2001 por 3,99 €.
Casos destes são, no imediato, formidáveis para o consumidor escasso de finanças; mas para o produtor, para a Economia, para o futuro do país, não se conhecer de entre o bom o singular, não o comunicar, e malbaratar a riqueza que se tem — é aviltante.