terça-feira, 8 de novembro de 2011

Atrás dos fantasmas

Não há muito tempo, por razões que não vêm ao caso, fui à procura de um homem que não conhecia, a quem pretendia falar. «Fui à procura» é como quem diz, porque eu nem sequer me levantei. Pouco mais sabia dele do que o nome. Fiz pesquisas, inferências, conjecturas. No fim, enviei um e-mail. Poucos minutos depois, na volta do correio, chegava uma mensagem lapidar: — «Ex.mo Senhor: O Dr. A. C. faleceu em Janeiro de 2003.»
Quando, no começo do Verão, fui à procura (por assim dizer) de certo branco esquisito, muito famoso e apetecido no seu tempo, não quiseram dar-me a notícia de chofre. Foi preciso levantar-me e rumar à Casa das Gaeiras para perceber que andava atrás de outro fantasma.

A Casa das Gaeiras
A velha propriedade de muros amarelo-ocre da vila das Gaeiras, no concelho de Óbidos, tem uma história que se perde no tempo — e na Internet, onde a informação sobre ela é escassa e pouco exacta. Por conseguinte, talvez seja de interesse a publicação de uma pequena cronologia da Casa das Gaeiras, que alinhavei cruzando a genealogia dos seus senhores, os materiais e depoimentos lá recolhidos e as fontes digitais.
1720
Construção da Casa das Gaeiras. O seu fundador, um comerciante hamburguês, consagra-a ao fabrico de curtumes.
C. 1800
António Gomes da Silva Pinheiro (1763-1834), médico e militar, adquire a propriedade.
1803-1858
Vida de José Maria Gomes da Silva Pinheiro, filho de António Gomes da Silva Pinheiro.
1850-1904
Vida de José Maria Gomes Viseu da Silva Pinheiro, filho de José Maria Gomes da Silva Pinheiro. Segundo um folheto da própria Casa das Gaeiras, a sua parte mais moderna é construída «mesmo no final do século XIX, bem como os vastos jardins (…) vinhas e instalações vinárias». Tudo indica que é este Silva Pinheiro quem impulsiona a produção vitivinícola. Muitos prémios obtidos (quiçá os primeiros) em exposições como a de Filadélfia são do seu tempo. O mesmo folheto reproduz um anúncio antigo, onde se lê: — «Bebam Gaeiras, o vinho de meza superior. Comprovado nos 25 primeiros prémios obtidos nas exposições nacionais e estrangeiras desde 1876».
1874-1957
Vida de Emília Garrido Pinheiro, filha de José Maria Gomes Viseu da Silva Pinheiro.
1908-1998 (?)
Vida de José Pinheiro Ferreira Pinto Basto, filho de Emília Garrido Pinheiro. Enólogo diplomado em Montpellier, onde terá sido colega de António Porto Soares Franco (1906-1968), da José Maria da Fonseca.
1934-2008
Vida de Frederico Eduardo Ferreira Pinto Basto Lupi, sobrinho de José Pinheiro Ferreira Pinto Basto.
Nos últimos anos, a vitivinicultura das Gaeiras foi confiada aos técnicos da Parras, empresa ligada à Quinta do Gradil, por sinal outra casa com tradição na Estremadura, que produz um conjunto de vinhos passível de agradar a todos os gostos.
Bem diferente consta que era o antigo branco das Gaeiras. Em 2002, no «Guia Repsol», o Prof. Virgílio Loureiro apresentava-o como uma referência, «parte da história do vinho em Portugal»:
«[O Gaeiras branco] ainda hoje é feito à moda antiga, fermentando em tonéis e estagiando sobre a “mãe” durante vários meses. Com uma cor amarelo palha e notas fumadas, é um vinho para conhecedores, com aromas resinosos e de querosene, bom corpo e excelente acidez, que tem, por vezes, um envelhecimento nobre em garrafa.»
A tipicidade do Gaeiras provinha das uvas de Vital, da influência marítima e, com certeza, da «moda antiga». Hoje, a Vital deu lugar a outras castas. A moda antiga perdeu para as modas novas. Afinal, o moderno Casa das Gaeiras está como nós: resta-lhe a proximidade do mar e os fantasmas do que se vai perdendo. É a vida.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Notas Amadoras: Pedra Basta 2008

Sonho Lusitano Vinhos. Regional Alentejano. Trincadeira, Aragonez, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon. 13,5% Vol. 16,50 € (em restaurante).
Cor púrpura. Aroma doce, gulosinho, da fruta e da madeira. Depois, revela-se um alentejano fresco, todo macio, saboroso, de cauda longa.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Notas Amadoras: Vinha do Mouro 2008

Miguel Louro. Regional Alentejano. Trincadeira, Aragonez, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon. 14% Vol. 10 € (em restaurante).
Cor púrpura. Aroma de fruta, temperado de café, baunilha, uma nota mentolada. Corresponde na boca, cremoso, harmonioso e agradável.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Retrato do amador enquanto farroupilha

Eu estava miseravelmente despenteado quando a D. Leonor Freitas apareceu, digna e séria, no seu terraço sobre os vinhedos de Fernando Pó. Aliás, o que eu estava era desgrenhado de todo. Mal-amanhado, no geral, com umas calças de ganga esgaçadas, um pólo que não me assenta, a face suada, as barbas empoeiradas — e o cabelo ridículo.
D. Leonor cumprimentou-me com uma expressão intrigada. Na certa, perguntava-se o que fazia em sua casa o cavalheiro da triste figura. Como percebesse a hesitação da patroa, o viticultor Nuno Rodrigues foi dizendo que estávamos a começar as provas, depois de uma volta de jipe pelas vinhas. «Janelas abertas, golpes de vento, daí o cabelo», pensei eu, mas comentei que o passeio fora excelente.
Na companhia de Nuno Rodrigues, vi os campos da Casa Ermelinda Freitas, variados nas castas, nas técnicas, no solo, na altitude, na idade. Pude mesmo, cruzando a Quinta da Mimosa, admirar as velhas cepas de Castelão Francês, plantadas em 1952.
Entretanto, o viticultor fazia boa conversa. Convencido de que a cultura da vinha tem um aspecto místico, ele crê que, embora se conheça com razoável detalhe a sua composição química, há no vinho um pequeno reduto de mistério, onde é possível que se esconda o que separa o vulgar do sublime. A sorte e o imponderável também fazem o vinho.
Não tardou que D. Leonor, vencendo a estranheza do farroupilha, entrasse a falar com entusiasmo e largueza sobre o legado familiar, o sucesso fulgurante do negócio, a urgência de se dignificar o trabalho rural. Disse, a propósito, que quer ser uma «rural moderna»; e, apesar de gostar muito de todos os seus vinhos de casta, quer também continuar a ser «a senhora do Castelão de Palmela».
A mim, impressionou-me a mulher enlevada que contou como acompanhou o crescimento da primeira vinha como o de um filho. Não me impressionou menos a sua superior discrição: D. Leonor nunca olhou para o meu estúpido cabelo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Notas Amadoras: Quinta da Alorna Castelão 2001

DOC Ribatejo. 12,5% Vol. 14,5 € (em restaurante).
Vermelho-escuro. Um perfume afinado de framboesas, tomate em compota, chocolate. Fresquíssimo, longo, delicioso de beber.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Notas Amadoras: Casa Ermelinda Freitas Cabernet Sauvignon 2009

Regional Península de Setúbal. 14,5% Vol. Oferta do produtor.
Vermelho-escuro. De aroma, é um Cabernet Sauvignon como vem nos livros: fruta e pimento verde. O sabor é consonante, equilibrado e muito agradável.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Notas Amadoras: Quinta do Ribeirinho Primeira Escolha 2003

Luis Pato. Regional Beiras. Baga, Touriga Nacional. 14% Vol. Oferta.
Cor púrpura viva. Aroma tão frutado quanto balsâmico, com um fumo de especiaria. No beber, fresco e gastronómico. Tinha saúde para durar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Notas Amadoras: Casa Ermelinda Freitas Sauvignon Blanc & Verdelho 2010

Regional Península de Setúbal. 13,5% Vol. Oferta do produtor.
Amarelo-claro esverdeado. Um branco de aromas doces, cozidos, fumados. No sabor, a mesma sensação de fumo parece envolver um corpo agradável de fruta e acidez.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Notas Amadoras: Monte Carreira (Branco)

Vinho de mesa. Fernão Pires. 13,5% Vol. 5,50 € (5 L).
Forte cor dourada. Aromas adocicados de pêssego e como de arroz cozido, juntos com uma nota salgada, que lembra sardinhas de conserva ― ou salada de polvo... De sabor, igualmente rústico e encorpado.

domingo, 21 de agosto de 2011

Notas Amadoras: Casa das Gaeiras 2006 (Branco)

Frederico Eduardo Pinto Basto Lupi. Regional Estremadura. Sem informação de castas. 12% Vol. Cerca de 4 €.
Amarelo vivo. Aroma amanteigado (como a «manteiga azeda» que alguns acham em vinhos de Arinto com uns poucos anos), com uma nota vegetal que lembra hipericão seco. O sabor é correspondente, conservando uma acidez muito capaz.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Notas Amadoras: Casal da Azenha 2006 (Tinto)

António Bernardino Paulo da Silva. Regional Lisboa. Vinho de lote. 13% Vol. Oferta do produtor.
Vermelho-escuro arroxeado. Aroma frutado, feição rústica, um toque acídulo que chega a lembrar cebola. Semelhante na boca, com acidez e taninos para a mesa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Notas Amadoras: Casa das Gaeiras 2010 (Branco)

Regional Lisboa. Arinto, Chardonnay, Fernão Pires. 13,5% Vol. 3,49 €.
Amarelo-claro esverdeado. Aroma de ananás, um tanto vegetal. Acidez agradável, com a mesma sensação vegetal e uma certa espessura.