Caves Velhas. DOC Douro. Arinto, Viosinho, Malvasia Fina. 12,5% Vol. 2,98 €.
Cor esverdeada. Aromas ténues. Acidez curiosa, com um toque de vinagrinho. Um branco para a mesa.
terça-feira, 12 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Notas Amadoras: Quinta de Alcube Castelão 2008
Regional Península de Setúbal. 14% Vol. 5,50 €.
Vermelho-escuro. Aroma quente de fruta madura. Menos exuberante do que outros vinhos do Alcube, mas guloso.
Vermelho-escuro. Aroma quente de fruta madura. Menos exuberante do que outros vinhos do Alcube, mas guloso.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Acta de um sacrifício
Aos dois dias do mês de Julho do ano da desgraça de dois mil e onze, reuniu em casa do Sr. C. R., cavalheiro, uma pequena assembleia de sete, contando todos. Tinham como desígnio sacrificar duas garrafas de Barca Velha, deste modo assinalando o desaparecimento do Eng. S. e o advento da Austeridade.
Tomou-se assento na sala de jantar do Sr. C. R. cerca das 18h. Dos sete presentes, apenas cinco se perfilavam para beber. O vinho estava na mesa, em garrafas de decantar. O trasfegador não sabia dizer qual continha a colheita de 1991, qual a de 1999. Pediu-se ao redactor que tentasse fazer a destrinça. Ele observou que a cor o não permitia, por ser nas duas igualmente viçosa. Para não pespegar nariz e bigodes na garrafa, deitou um pouco de vinho no seu copo: mas, mal tinha inspirado, já o Sr. D. o distribuía a jorros pelos demais. Era o 99.
A entrada em força causou efeito. O vinho, rico, vigoroso, cheio de borras, impunha recolhimento, estorvava o convívio. O redactor passou mudo toda a tarde, enfiado no copo. O anfitrião admoestou-o com bondade: era necessário comer e era necessário falar.
Comeu-se, queijos, enchidos, foie gras. Nenhum sabor contendeu com o vinho, o de doze como o de vinte anos.
Findo o Barca Velha, foi para a mesa outro Douro: Casa da Palmeira 2004. A assembleia agradou-se.
Seguiu-se um Châteauneuf-du-Pape, Cuvée Lucile Avril 2005. Segundo depois se apurou, este vinho é feito, na maior parte, de Grenache com 90 anos de idade e de Mourvèdre com 60. O redactor regalou-se, inebriado com o perfume do desconhecido. Viu-se então obrigado a falar: achava que o francês teria anos de vida pela frente; e o mesmo do Barca Velha 91, mais do que o 99.
Fechou-se com um Real Companhia Velha Vintage 2000: e assim também o redactor deve concluir, notando que o generoso fez justiça à generosidade do anfitrião, o Sr. C. R., verdadeiro cavalheiro, a quem se deseja as mesmas saúde e longa vida deste Porto. Bem haja!
Tomou-se assento na sala de jantar do Sr. C. R. cerca das 18h. Dos sete presentes, apenas cinco se perfilavam para beber. O vinho estava na mesa, em garrafas de decantar. O trasfegador não sabia dizer qual continha a colheita de 1991, qual a de 1999. Pediu-se ao redactor que tentasse fazer a destrinça. Ele observou que a cor o não permitia, por ser nas duas igualmente viçosa. Para não pespegar nariz e bigodes na garrafa, deitou um pouco de vinho no seu copo: mas, mal tinha inspirado, já o Sr. D. o distribuía a jorros pelos demais. Era o 99.
A entrada em força causou efeito. O vinho, rico, vigoroso, cheio de borras, impunha recolhimento, estorvava o convívio. O redactor passou mudo toda a tarde, enfiado no copo. O anfitrião admoestou-o com bondade: era necessário comer e era necessário falar.
Comeu-se, queijos, enchidos, foie gras. Nenhum sabor contendeu com o vinho, o de doze como o de vinte anos.
Findo o Barca Velha, foi para a mesa outro Douro: Casa da Palmeira 2004. A assembleia agradou-se.
Seguiu-se um Châteauneuf-du-Pape, Cuvée Lucile Avril 2005. Segundo depois se apurou, este vinho é feito, na maior parte, de Grenache com 90 anos de idade e de Mourvèdre com 60. O redactor regalou-se, inebriado com o perfume do desconhecido. Viu-se então obrigado a falar: achava que o francês teria anos de vida pela frente; e o mesmo do Barca Velha 91, mais do que o 99.
Fechou-se com um Real Companhia Velha Vintage 2000: e assim também o redactor deve concluir, notando que o generoso fez justiça à generosidade do anfitrião, o Sr. C. R., verdadeiro cavalheiro, a quem se deseja as mesmas saúde e longa vida deste Porto. Bem haja!
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Notas Amadoras: Vale dos Barris Castelão 2009
Resolvi passar a publicar no «Amável Vinho» as notas de prova que vou tomando para mim mesmo, com a ideia de que elas possam aproveitar a mais alguém. São notas amadoras, singelas, resumidas ao que julgo essencial. Não atribuem pontos nem veredictos: registam simplesmente as minhas impressões de cada vinho. Têm uma só preocupação fundamental, que é a de ser sérias.
Começo com um tinto de emergência social. Sabia que Portugal fabrica vinhos medalhados com ouro em França, que vende a menos de dois euros? Sinais da crise. Razões da crise.
Vale dos Barris Castelão 2009
Adega Cooperativa de Palmela. Regional Península de Setúbal. 13,5% Vol. 1,89 €.
Cor púrpura opaca. Aromas doces como de pêra cozida e de fruta bem madura. Um bombom de beber e continuar a beber.
Começo com um tinto de emergência social. Sabia que Portugal fabrica vinhos medalhados com ouro em França, que vende a menos de dois euros? Sinais da crise. Razões da crise.
Vale dos Barris Castelão 2009
Adega Cooperativa de Palmela. Regional Península de Setúbal. 13,5% Vol. 1,89 €.
Cor púrpura opaca. Aromas doces como de pêra cozida e de fruta bem madura. Um bombom de beber e continuar a beber.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Espantosa realidade das coisas
«A espantosa realidade das coisasAndamos desencontrados, leitores. Nós todos, os que ora estamos vivos. Somos apressados, desconfiados, desapaixonados. Não nos interessamos. Não comunicamos. Não reparamos. Não nos espantamos. Não temos tempo. Andamos desirmanados, leitores.
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.»
(Alberto Caeiro)
Os vinhos que apreciamos são enxovalhados pelas luminárias (que inda pretendem endireitar-nos à bordoada); os nossos emblemas definham, moribundos; e mesmo as pessoas que nos estimam crêem que nos chamamos José. Oh eu! Oh vida! Oh sorte malvada!
Que se há-de fazer? Vamos andando. De vez em quando, até calha que algum produtor mais extravagante responde às nossas mensagens ― talvez por achar conveniente não desprezar a clientela, talvez por ser bem educado ― e se presta a receber-nos nos seus vinhedos e a conversar connosco. Recentemente, Ana Pereira da Fonseca Reis, responsável pelo enoturismo da Quinta do Sanguinhal, fez-me esse grande favor.
Bisneta de Abel Pereira da Fonseca, Ana tem o jeito pragmático e pressuroso dos empresários. À chegada, explicou que ia um dia de muito trabalho e não se podia demorar: levou-me numa visita às visitas organizadas e pagas (a 18 €) para turistas. No fim, com simpatia, permitiu que eu repetisse a volta, a fazer fotografias. Depois, convidou-me a segui-la até à Quinta das Cerejeiras, onde tem loja a Companhia Agrícola do Sanguinhal. Aí, mostrou-me as garrafas à venda, uma adega com quadros pintados pela avó e uma profusão de alfaias do labor dos vinhos. Falámos alguns minutos mais e despedimo-nos. Antes de partir, cuidei de tirar o retrato à velha casa de Abel Pereira da Fonseca, desenhada pelo famoso Norte Júnior. Eis tudo.
No entanto, recolhi esta história engraçada. Certo dia de boa sorte, Gary Vaynerchuck, comerciante de vinhos que se fez célebre com uma série de vídeos na Internet, resolveu comprar um Cerejeiras tinto. No catálogo do Sanguinhal, é a marca mais modesta: deu muito bem para o empolgar até aos 88 pontos ― e sem precisar fazer contas. Uma ou duas paletes que seguiam até então para os Estados Unidos passaram, num ápice, a uns poucos contentores. Pois não é espantosa a realidade das coisas?
Amigos leitores: é Verão; e nós estamos vivos.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Este país não é para meninos
Falando em ferocidade:
«É verdade que vão longe os tempos daqueles brancos oxidados, dos Fernão Pirão como lhe chamavam, com 14 ou 15 graus, intragáveis. Hoje, os vinhos defeituosos quase não existem.» (Luís Ramos Lopes, director da «Revista de Vinhos»)Às vezes, não há como uma boa bordoada para nos restituir ao caminho do Bem.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Regressar a Fernando Pó
Nos nossos dias, dominados pela Economia e pelo Mercado, encontrar um vinicultor que persiste em fabricar vinhos guiado pelo seu próprio gosto, pouco importado em saber como param as modas ou se algum vizinho ou freguês desdenha do seu obsoleto branco, chamando-o de «amarelão», é uma sorte de regalar a alma. A última vez que me avistei com um tal homem foi uma manhã nublosa de domingo, quando regressei a Fernando Pó.
O Sr. António José da Costa Carreira saiu a porta a que chamámos já oferecendo um aperto de mão; acto contínuo, encaminhou-nos para a adega. Respondeu com parcimónia às minhas perguntas. Em poucos minutos, estávamos aviados: 10 litros de «Fernão Pirão», 11 euros.
Conformados a ir à nossa vida, o Sr. António, num tom franco, interpelou-nos familiarmente: ― «Querem provar alguma pinga?» Pois não havíamos de querer! Desapareceu por um instante; quando voltou, trazia dois grossos copos de vidro um tanto baço, que acabara de enxaguar e vinha ainda esfregando com os dedos. Provámos as «pingas» de Castelão que ia extraindo das cubas, variadas no grau alcoólico e no pertencente designativo técnico: água-pé, «Fórmula 1», «supersónico». Conversámos um bom bocado, até serem horas de almoço: depois despedimo-nos, consolados e agradecidos, comprometendo-nos a voltar pelos vinhos de beber do Monte Carreira.
Tornámos à estrada. Do outro lado da linha férrea, tomando a direcção de Poceirão, logo enfiámos para uma mata, fronteira a um vinhedo. Virámos para ele o carro e aí comemos a bucha ― ao mesmo tempo desembuchando com dois valentes copos de «amarelão». Esticámos as pernas, respirámos; e, tendo visto que o Casal Freitas era ao lado, tocámos para lá.
O próprio José Bento da Silva Freitas apareceu para nos atender. O velho senhor, ouvindo mal, foi parco em palavras: compreensivelmente, não estava na disposição de fazer sala a forasteiros. Foi o tempo de lhe comprarmos o excelente tinto que eu conhecera na Mostra, o Casal Freitas 2008, e de sabermos que o obreiro destes vinhos também é Jaime Quendera. Seguimos caminho.
Avançando de novo para o apeadeiro de Fernando Pó, parámos junto ao portão aberto da Freitas & Palhoça. Era o adegueiro Marcolino Cardoso quem estava. Sem hesitar, conversador e simpático, levou-nos a ver a adega, deu-nos a provar algum vinho, fez explicações; teve mesmo a gentileza de nos ofertar uma garrafa. Tomaram muitos proprietários ser tão capazes para o negócio: mais importante do que um enoturismo organizado é uma pouca de boa hospitalidade ― e até fica mais em conta.
Longe da Economia, do Mercado, da Crítica e de outras feras, Portugal vive. É preciso regressar a Fernando Pó.
O Sr. António José da Costa Carreira saiu a porta a que chamámos já oferecendo um aperto de mão; acto contínuo, encaminhou-nos para a adega. Respondeu com parcimónia às minhas perguntas. Em poucos minutos, estávamos aviados: 10 litros de «Fernão Pirão», 11 euros.
Conformados a ir à nossa vida, o Sr. António, num tom franco, interpelou-nos familiarmente: ― «Querem provar alguma pinga?» Pois não havíamos de querer! Desapareceu por um instante; quando voltou, trazia dois grossos copos de vidro um tanto baço, que acabara de enxaguar e vinha ainda esfregando com os dedos. Provámos as «pingas» de Castelão que ia extraindo das cubas, variadas no grau alcoólico e no pertencente designativo técnico: água-pé, «Fórmula 1», «supersónico». Conversámos um bom bocado, até serem horas de almoço: depois despedimo-nos, consolados e agradecidos, comprometendo-nos a voltar pelos vinhos de beber do Monte Carreira.
| Tarde em Fernando Pó |
O próprio José Bento da Silva Freitas apareceu para nos atender. O velho senhor, ouvindo mal, foi parco em palavras: compreensivelmente, não estava na disposição de fazer sala a forasteiros. Foi o tempo de lhe comprarmos o excelente tinto que eu conhecera na Mostra, o Casal Freitas 2008, e de sabermos que o obreiro destes vinhos também é Jaime Quendera. Seguimos caminho.
Avançando de novo para o apeadeiro de Fernando Pó, parámos junto ao portão aberto da Freitas & Palhoça. Era o adegueiro Marcolino Cardoso quem estava. Sem hesitar, conversador e simpático, levou-nos a ver a adega, deu-nos a provar algum vinho, fez explicações; teve mesmo a gentileza de nos ofertar uma garrafa. Tomaram muitos proprietários ser tão capazes para o negócio: mais importante do que um enoturismo organizado é uma pouca de boa hospitalidade ― e até fica mais em conta.
Longe da Economia, do Mercado, da Crítica e de outras feras, Portugal vive. É preciso regressar a Fernando Pó.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Um vinho emocionante
São imagens já com cerca de um ano, mas não se podem deixar passar: no inestimável «A Alma e a Gente», o Professor José Hermano Saraiva, de visita ao Bombarral, aventura mais uma nota de prova. Desta feita, desperta mesmo mais surpresa e simpatia; em padecendo da maleita dos sentimentais (creio que somos poucos, graças a Deus), é muito natural até que sorriamos às suas palavras com alguma ternura.
Por volta dos 19:30 minutos de programa, o Professor conta resumidamente a história do célebre comerciante de vinhos Abel Pereira da Fonseca, fundador da Companhia Agrícola do Sanguinhal, ainda hoje em laboração e na posse dos seus descendentes. Depois, segurando nas mãos uma garrafa de vinho tinto, diz ele: ― «Eu provei-o ― Quinta do Sanguinhal [2006] ― e, de facto, é um vinho extraordinário.» Sem se deter, tem uma inspiração: ― «Um vinho que sabe a família; sabe a lareira; sabe a paisagem; sabe a saúde. É um vinho emocionante. Compreendo perfeitamente que tenha tido um prémio internacional.»
E agora, leitores que vos deixais comover: que faremos com esta sede?
Por volta dos 19:30 minutos de programa, o Professor conta resumidamente a história do célebre comerciante de vinhos Abel Pereira da Fonseca, fundador da Companhia Agrícola do Sanguinhal, ainda hoje em laboração e na posse dos seus descendentes. Depois, segurando nas mãos uma garrafa de vinho tinto, diz ele: ― «Eu provei-o ― Quinta do Sanguinhal [2006] ― e, de facto, é um vinho extraordinário.» Sem se deter, tem uma inspiração: ― «Um vinho que sabe a família; sabe a lareira; sabe a paisagem; sabe a saúde. É um vinho emocionante. Compreendo perfeitamente que tenha tido um prémio internacional.»
E agora, leitores que vos deixais comover: que faremos com esta sede?
terça-feira, 17 de maio de 2011
We will always have Bucelas
A Enoteca das Caves Velhas é uma loja de vinhos muito especial. Em bom rigor, o lugar já não se chama «Enoteca», já não é uma «loja de vinhos», e as Caves Velhas fazem agora parte do Grupo Enoport ― que, desde o ano passado, se apresenta como «Enoport United Wines». Por sua vez, a «Enoteca» foi mudada em «Enopoint» e a «loja de vinhos» passou a «wine shop». Eu, como não aprecio frequentar «wine shops» (e também acho que «Enojoint» é que era um nome chamativo), continuarei a chamar «Enoteca» àquela esplêndida loja de vinhos. De mais a mais, nunca um sisudo, como eu aspiro a ser, podia deitar-se a escrever: ― «O Enopoint da Enoport United Wines é uma wine shop muito especial.» Sainete, sim, mas com moderação. Avancemos para o que interessa.
Visitar a Enoteca é para mim sempre um prazer. As suas prateleiras acolhem muitos vinhos excepcionais que o Mercado despreza ou desconhece. As mais recentes colheitas do diverso catálogo do grupo coabitam com velhas garrafas de rótulos desfeitos, antiquados ou tão-só preteridos por não serem já suficientemente novos.
Para além dos vinhos velhos, a Enoteca tem outros encantos particulares, como um retrato de Sir Winston Churchill com uma caixa das Adegas Camillo Alves e, possivelmente, as poltronas mais confortáveis onde eu tenho repousado os ossos. Ainda por cima, está instalada no seio de uma das regiões vitícolas mais estimáveis que tem Portugal: a vetusta Bucelas, que agora celebra 100 anos como região demarcada.
Na passada quarta-feira, fui até lá. Eram apresentadas as últimas colheitas do Bucellas e dos tintos Topázio e Quinta do Boição Special Selection Old Vineyards (sim, sim, leitores). Desgraçadamente, comparecemos somente três gatos-pingados ― e nem por isso os nossos anfitriões foram menos diligentes ou atenciosos para connosco. Aliás, depois de conhecer o enólogo João Vicêncio, autor dos vinhos em apreço (com excepção do Topázio), entendo melhor o carácter afável do meu prezado Bucellas. O que agora se lança no mercado, de 2010, não deslustra a tradição deste bom branco de Arinto.
O Topázio 2009, um tinto com denominação de origem Douro, é do tipo insinuante, que quer ser bebido sem demora. A menos de 3 € a garrafa, tem sucesso garantido.
O Quinta do Boição etc. 2008 é outra fruta ― naturalmente. Se tomei boa nota das palavras de João Vicêncio, este Regional Lisboa (por sinal, acabado de premiar em Bruxelas) é feito, em partes iguais, de Touriga Nacional e de Syrah; as videiras de Touriga têm cerca de 80 anos, enquanto as de Syrah são novas, razão por que a idade das vinhas indicada nos contra-rótulos e nas fichas de produto é de 40 anos. O vinho tem um aroma inusitado e cativante, e apetece passar um bocado a conversar com ele. Aí está demonstrado como em Bucelas, com saber, também se podem fabricar tintos interessantes.
De modo que, caiam governos, entrem governos, venham credores, partam credores, desça o Belenenses e torne a descer: nós teremos sempre Bucelas.
Visitar a Enoteca é para mim sempre um prazer. As suas prateleiras acolhem muitos vinhos excepcionais que o Mercado despreza ou desconhece. As mais recentes colheitas do diverso catálogo do grupo coabitam com velhas garrafas de rótulos desfeitos, antiquados ou tão-só preteridos por não serem já suficientemente novos.
Para além dos vinhos velhos, a Enoteca tem outros encantos particulares, como um retrato de Sir Winston Churchill com uma caixa das Adegas Camillo Alves e, possivelmente, as poltronas mais confortáveis onde eu tenho repousado os ossos. Ainda por cima, está instalada no seio de uma das regiões vitícolas mais estimáveis que tem Portugal: a vetusta Bucelas, que agora celebra 100 anos como região demarcada.
Na passada quarta-feira, fui até lá. Eram apresentadas as últimas colheitas do Bucellas e dos tintos Topázio e Quinta do Boição Special Selection Old Vineyards (sim, sim, leitores). Desgraçadamente, comparecemos somente três gatos-pingados ― e nem por isso os nossos anfitriões foram menos diligentes ou atenciosos para connosco. Aliás, depois de conhecer o enólogo João Vicêncio, autor dos vinhos em apreço (com excepção do Topázio), entendo melhor o carácter afável do meu prezado Bucellas. O que agora se lança no mercado, de 2010, não deslustra a tradição deste bom branco de Arinto.
O Topázio 2009, um tinto com denominação de origem Douro, é do tipo insinuante, que quer ser bebido sem demora. A menos de 3 € a garrafa, tem sucesso garantido.
O Quinta do Boição etc. 2008 é outra fruta ― naturalmente. Se tomei boa nota das palavras de João Vicêncio, este Regional Lisboa (por sinal, acabado de premiar em Bruxelas) é feito, em partes iguais, de Touriga Nacional e de Syrah; as videiras de Touriga têm cerca de 80 anos, enquanto as de Syrah são novas, razão por que a idade das vinhas indicada nos contra-rótulos e nas fichas de produto é de 40 anos. O vinho tem um aroma inusitado e cativante, e apetece passar um bocado a conversar com ele. Aí está demonstrado como em Bucelas, com saber, também se podem fabricar tintos interessantes.
De modo que, caiam governos, entrem governos, venham credores, partam credores, desça o Belenenses e torne a descer: nós teremos sempre Bucelas.
sábado, 14 de maio de 2011
O amador em viagem
| Areias de Fernando Pó |
O que eu então rememorava eram as paisagens do caminho andado para chegar à 16.ª Mostra de Vinhos de Marateca e Poceirão. Muitos e muitos campos de vinha e de pasto, as povoações parecendo abandonadas, a linha do comboio parecendo inútil ― tudo dava a doce impressão de nos estarmos afastando do presente.
Ia no desejo de conhecer os vinhos feitos do Castelão criado nas areias e no calor de Fernando Pó. A primeira boa surpresa foi, porém, um branco de Fernão Pires, num estilo com tradição mas hoje quase desaparecido, a que se chamava «Fernão Pirão». Era um vinho das Fazendas de Almeirim, elaborado à maneira de um tinto, de cor acastanhada, forte, saboroso e, tomando a palavra de quem sabe, com um «torradinho» característico. O que ali encontrei, de marca Monte Carreira, não obstante provir de Fernando Pó, possui sensivelmente as mesmas qualidades. O preço de uma tal relíquia da vinicultura portuguesa? 2,25 € a garrafa!
Os tintos a que ia foram, no geral, uma grata descoberta. Provei, é claro, os famosos vinhos da Casa Ermelinda Freitas; mas é que aprendi que há outros Freitas naquelas terras, e muitos outros vinicultores de que se não ouve falar, a fazer outros vinhos, que são bons de outras maneiras ― e que talvez transportem nas suas redondezas, com outra naturalidade, o suave fumo de um tempo perdido para sempre, o mesmo que pressenti na viagem.
O amador prolongando a sua vida.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Piquenique
Bem avisado, desde moço, de que o tempo voa, sou, em regra, avesso a repetir livros ou filmes, mesmo quando tenha gostado muito deles. O diabo é que eu não sou o mais regrado dos homens, e há uns poucos livros e filmes a que não posso deixar de voltar.
O «Sideways» é uma destas ficções que são como lugares a que apetece às vezes recolher. Fica na Califórnia vinhateira, é soalheiro e arejado, e tem a melancolia própria das coisas belas. As personagens do filme são velhos amigos que não me conhecem; a sua história é um bálsamo para o desalento; a música, um conforto que se pode ouvir continuamente.
Há pouco, chegou-me à caixa do correio o livro que originou o filme. Espero que não faça tanta sede ― mas duvido muito.
O «Sideways» é uma destas ficções que são como lugares a que apetece às vezes recolher. Fica na Califórnia vinhateira, é soalheiro e arejado, e tem a melancolia própria das coisas belas. As personagens do filme são velhos amigos que não me conhecem; a sua história é um bálsamo para o desalento; a música, um conforto que se pode ouvir continuamente.
Há pouco, chegou-me à caixa do correio o livro que originou o filme. Espero que não faça tanta sede ― mas duvido muito.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Um côvado de veludo
«Conheci um viajante inglês que só gostava de um vinho quando ele fazia a cauda de pavão na boca; todos conhecem a expressão do habitante de Auvergne bebendo um copo de vinho velho e generoso; é um côvado de veludo que desce pela garganta.»
Jules Guyot, em «Culture de la Vigne et Vinification», p. 375
Jules Guyot, em «Culture de la Vigne et Vinification», p. 375