quarta-feira, 27 de abril de 2011

Piquenique

Bem avisado, desde moço, de que o tempo voa, sou, em regra, avesso a repetir livros ou filmes, mesmo quando tenha gostado muito deles. O diabo é que eu não sou o mais regrado dos homens, e há uns poucos livros e filmes a que não posso deixar de voltar.
O «Sideways» é uma destas ficções que são como lugares a que apetece às vezes recolher. Fica na Califórnia vinhateira, é soalheiro e arejado, e tem a melancolia própria das coisas belas. As personagens do filme são velhos amigos que não me conhecem; a sua história é um bálsamo para o desalento; a música, um conforto que se pode ouvir continuamente.
Há pouco, chegou-me à caixa do correio o livro que originou o filme. Espero que não faça tanta sede ― mas duvido muito.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um côvado de veludo

«Conheci um viajante inglês que só gostava de um vinho quando ele fazia a cauda de pavão na boca; todos conhecem a expressão do habitante de Auvergne bebendo um copo de vinho velho e generoso; é um côvado de veludo que desce pela garganta

Jules Guyot, em «Culture de la Vigne et Vinification», p. 375

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pelintra de bom coração

Domingo, toda a gente sabe, é dia santo. Ora, beber qualquer vinhito a um domingo não só desgosta a família como, com toda a certeza, ofende especialmente a Deus.
Zeloso das minhas atribuições de escanção doméstico, e cheio de escrúpulo cristão, anteontem, quando eram horas, fui buscar as garrafas de tinto que havia abertas. Um, o Quinta da Infesta 2003, um Dão de Santar, havia tempo que andava desconfiado dele e do seu aroma tosco, em que, por sobre a fruta, pairava algum verdor que o desfeava. O outro, o Quinta do Encontro 2008, um Bairrada que abrira na véspera, parecera-me então um vinho magro e inexpressivo. Tornei a prová-los; com efeito, não eram dignos de um almoço de domingo.
Cismei um instante. «Deitá-los fora, não posso. Desarrolhar outra, não convém, porque ficam três abertas para a semana, e algum se há-de estragar.» De súbito, veio o Espírito Santo (ou talvez o do próprio Alexandre de Almeida) soprar-me ao ouvido: ― «Tens um Dão taninoso e um Bairrada franzino. Nenhum é desengraçado de todo. Faz mas é o teu próprio Bussaco, anda!»
Entusiasmado (mas solene), primeiro ensaiei o lote no copo de prova. Depois, munido de um copo medidor, deitei numa garrafa de cristal 25 cl do Quinta da Infesta. Em seguida, verifiquei que, do Quinta do Encontro, havia exactamente a quantidade que eu pretendia usar, ou seja, 50 cl (sem dúvida, uma manifestação da Providência divina). Misturei o vinho, desejando o impossível, que era poder estagiá-lo, para o casar. Em todo o caso, ali estava a minha primeira obra vinícola: o Palace Pelintra 2005.

Palace Pelintra 2005
Se tivesse rótulos, rezariam o seguinte: ― «Eis um vinho de lote do Dão e da Bairrada. Os vinhos que o compõem não eram maus. Este, porque se fez com conceito e bom coração, pode melhor contentar, a si, aos seus e a Deus. Saúde!»

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Os bons, os maus e os outros

«Os homens são como os vinhos: com o tempo, os bons apuram e os maus azedam.»

Ocorreu-me que havia de pôr aqui esta máxima, atribuída a Cícero, depois de, na última entrada, ter separado o gosto do vinho velho do gosto do outro, que é de beber em novo, antes que o tempo lhe roube a graça.
Tencionava simplesmente transcrever a frase, mas, quando procurava atestar a sua autoria, reparei melhor no sentido do que diz. Se, no plano moral, ela se compreende bem (como convém num aforismo), já é muito discutível a ideia de que os vinhos que o tempo não beneficia não são bons.
É claro que, à época em que Cícero viveu (na hipótese de a frase realmente lhe pertencer, o que não é certo), vinha ainda longe nos séculos o nascimento de Robert Parker, da «Revista de Vinhos» e da blogosfera. Por consequência, não haveria muitos outros adjectivos para qualificar o vinho: quando se deixava beber, e dessedentava e embriagava devidamente, era bom; quando não, era mau.
Muitas eras depois, em 1844, Paul Ben ensinava às donas de casa que o vinho tinha lá os seus requisitos: ― «Um bom vinho é sempre de uma cor clara e brilhante; ao paladar, oferece um sabor macio, um bouquet agradável, não tem nada de duro, de acerbo e de picante, e causa na garganta uma sensação de aveludado.»
Em 1860, nas palavras cientistas de Jules Guyot, o bom vinho aparecia como alimento do espírito: ― «Todo o vinho natural, forte ou fraco em álcool, é um bom vinho, se conserva a sua vida orgânica e se a manifesta por um franco odor, por um concerto de todos os seus elementos num sabor harmonioso ao paladar, por uma digestão fácil, um aumento sensível das forças musculares e por uma actividade maior do corpo e do espírito.» Em seguida, sublinhava-se uma observação elementar: ― «O vinho é bom relativamente e não absolutamente.»
Hoje, na esteira de Guyot, o Professor Virgílio Loureiro afirma: ― «Todo o vinho que não tem defeito é, por definição, um produto de qualidade.» Não quer isto dizer, certamente, que todo o vinho isento de defeito é bom por igual. Recentemente, depois de dar a provar aos seus alunos o ribatejano Tinto Velho 1966, da Casa Francisco Ribeiro, o Professor finalizava assim uma aula: ― «A imagem de um país não se constrói com vinhos do ano ou com vinhos que levaram 80 pontos na “Wine Spectator”; faz-se com vinhos que vencem a prova do tempo.»
Não desmerecendo a sentença de Cícero, eu, por prudência, antes comparava os vinhos aos amigos: é que ambos são para as ocasiões ― mas nem todos, nem sempre, se revelam à altura delas.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Vinho oferecido

Talvez não precise já de proclamar o meu gosto dos vinhos velhos; ele está mais ou menos expresso em entradas e comentários anteriores. Este apreço pelas virtudes da maturidade, pela sua elegância e pelo aperfeiçoamento que o tempo geralmente opera em todas as criaturas de boa natureza, não impede, contudo, que me empolgue com um vinho forte e exuberante, desses que positivamente se oferecem a um prazer guloso e imediato.
Foi o que aconteceu há tempos, quando se reuniram à mesa a família, um cozido e o Quinta de Alcube Trincadeira 2008, um vinho com a indicação geográfica «Terras do Sado» (entretanto mudada em «Península de Setúbal». A propósito, vale a pena espreitar a portaria que determina a alteração, com a sua bela prosa legisladora, uma extensa lista das castas aptas ao fabrico de vinho com a nova denominação e, acima de tudo, a mimosa geologia do seu artigo terceiro: ― «Solos litólitos não húmicos derivados de materiais arenáceos pouco consolidados» etc.)
Não me sucede muito, levar o copo à boca e, fatalmente sentindo o aroma do vinho, ter de o pousar de novo, sem ter bebido, ao mesmo tempo que me recosto na cadeira e solto exclamações (discretíssimas) de um grande júbilo. Ultimamente, só me lembra beber assim, com tal dificuldade, o Falcoaria 2007, um Fernão Pires de alto gabarito ― e agora este Trincadeira sensualão da Quinta de Alcube. Na primeira oportunidade, fui até lá.

O caminho para a adega
A quinta fica no Parque Natural da Arrábida e é um lugar de muitas delícias: amenidade e bons ares para respirar, ricos queijos, uma manteiga de ovelha preciosa e saborosas laranjas de Setúbal. Depois, há os vinhos.
O seu produtor, João Serra, tem a respeito deles tiradas curiosas. Por exemplo, enquanto se provavam os brancos, declarou: ― «Branco não é vinho!» Sabendo de uma chalaça do mesmo teor, atribuída ao Eça (não se entende porquê), que diz ― «Como não há vinho, beba-se branco» ―, não me engasguei.
Passando aos tintos, o produtor confessou que, em prova cega, já tem dito mal dos próprios vinhos. Também reconheceu que eles não são longevos. De resto, João Serra faz da transparência ponto de honra. Apontando, no contra-rótulo de uma das suas garrafas, as informações que julga imprescindíveis para não se enganar o consumidor, desafiou-me a procurar outro vinho que as apresentasse. Se o conseguir encontrar, ele compromete-se a oferecer garrafas suas em troca dessas, mesmo vazias, desde que exibam todas as três indicações obrigatórias, a saber: «Consumir já ou guardar por um período máximo de tantos anos»; «Desta colheita, fizeram-se tantas garrafas»; «A esta garrafa cabe o número tal». Fiquemos de olho, leitores.
Em conclusão, o produtor pode bem permitir-se dar a ideia de não morrer de amores pelos vinhos que fabrica com o enólogo Jaime Quendera. Aromáticos, capitosos e sedutores, eles cuidam de se vender a si mesmos.

terça-feira, 22 de março de 2011

Por mor da ciência

No final de um «A Hora de Baco» recente, inteiramente dedicado às Caves São João, o seu actual gerente, Manuel José Costa, atira que, quem quer fazer vinho, mais lhe vale ler o Padre António Vieira do que o Robert Parker.
Não creio que o enólogo da casa acompanhe o gerente nos seus gostos literários. José Carvalheira não ignora que é indispensável conhecer o Mercado e, em certa medida, seguir os seus ditames.
Carvalheira é, porém, mais do que um pragmático, um homem de ciência. Não é preciso frequentar as suas aulas na Estação Vitivinícola da Bairrada (de que dirige a adega experimental, o laboratório e o departamento de Enologia) para perceber o valor do seu conhecimento, não só no que toca aos preceitos da Enologia moderna, mas também aos legados pela tradição. Para tanto, basta provar os seus vinhos — e ouvi-lo atentamente neste «A Hora de Baco».
Colhem-se aí vários ensinamentos, como quais são as propriedades que determinam a longevidade do vinho, quais são as principais qualidades de um vinho velho, ou, o que é mais interessante, que, quantos mais anos de engarrafado tiver, menos recomendável é decantar-se e arejar-se o vinho.
Depois disto, por sinal, também ouvi ao Professor Virgílio Loureiro (outro homem de muita ciência, que tem ajudado a mitigar a minha ignorância) desaconselhar o arejamento prévio e forçado dos vinhos velhos, sobretudo porque assim se perde a oportunidade de presenciar, no copo, a sua ressurreição. Em alguns casos, todavia, sempre se mostra necessário decantar o vinho e esperar que ele se liberte do chamado «pivete da garrafa».
Por conseguinte, e por mor da ciência, devo talvez retirar o que aqui deixei dito, em finais de Novembro, a um amigo, e soa a regra — que eu, no lugar dele, decantaria um certo Riesling de 1997 etc.
Ele tomou em consideração, no que mais importava, o que eu sugeria, e trouxe-me, não o Riesling, mas uma garrafa de Trimbach Gewürtztraminer 1997. Há dias, abri-a. O vinho tinha uma linda cor, estava morto, e não ressuscitou. Sempre era uma bela perda!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O suave milagre

«Vede a chuva que desce do céu para os nossos vinhedos; aí, entra nas raízes das videiras, para ser mudada em vinho; uma prova contínua de que Deus nos ama e gosta muito de nos ver felizes.»

Benjamin Franklin, numa carta para o abade Morellet

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vinhos essenciais

Um copo de Velletri
O Francisco José Viegas possui um talento raro entre os romancistas, os cronistas e até os críticos da especialidade contemporâneos: sempre que toca em assuntos de gastronomia, a sua escrita desperta apetites irresistíveis. A Academia Portuguesa de Gastronomia reconheceu-o em 2007, quando lhe atribuiu o Grande Prémio da Cultura e Literatura Gastronómica.
Na altura, Francisco José Viegas escrevia na «Notícias Sábado», revista do «Diário de Notícias» e do «Jornal de Notícias». Conservo algumas dessas páginas de tentação, preenchidas com charutos, cervejas e receitas de cozinha, que se liam já com delícias.
Há dois anos, numa crónica sobre Roma, publicada na revista «Volta ao Mundo», ele falava de um certo restaurante, onde se serve «a mais genuína comida romana», — e evocava os seus vinhos: «temperados e frios, essenciais».
Eu, que tive, entretanto, a felicidade de jantar nesse bendito restaurante e de provar os vinhos, o branco e o tinto, trazidos à mesa em jarros de vidro, senti-me grato à prosa inspirada e generosa do Francisco José Viegas.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Rudimentos de gastronomia

«XI. A ordem dos comestíveis é dos mais substanciais aos mais ligeiros.

XII. A ordem das bebidas é das mais temperadas às mais capitosas e às mais perfumadas.

XIII. Pretender que não é preciso mudar de vinhos é uma heresia; a língua satura-se; e, depois do terceiro copo, o melhor vinho não suscita mais do que uma sensação obtusa.»

Brillat-Savarin, em «Fisiologia do Gosto»

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Boas festas

Bebi, no período das festas, incontáveis copos de vinho. Na maioria, eram vinhos que ainda não provara.
Penitencio-me por não ter tirado notas, mesmo se as circunstâncias não fossem as mais apropriadas. No entanto, tomo sempre sentido no vinho. Não me perco a esquadrinhar o seu mistério, mas reparo na sua qualidade e no bem que me sabe.
De entre esses vinhos que bebi, conservo na memória o Ribamar Garrafeira 2006, um tinto da Estremadura, frutado e tradicional; o Frei João 2005, tinto, confiável bairradino, uma colheita no ponto; o Conde de Sabugal 2006, tinto, um Douro maduro e aprazível; o amo.te 2009, um tinto alentejano temperado e uma agradável surpresa, não obstante o nome; o Vinha Paz Reserva 2006, forte tinto, um rico Dão; e o Três Bagos 2009, um branco duriense de cor viva, aromático e refrescante.
Foram bem boas, as festas.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Inverno chegou

«Afasta o frio, repondo sem parcimónia na lareira
a lenha, e ainda mais generosamente retira,
    ó Taliarco, da sabina ânfora
        o vinho de quatro anos:

confia o resto aos deuses, pois mal eles acalmem
os ventos que no impetuoso mar pelejam
    nem os ciprestes se agitarão
        nem os velhos freixos.»

Horácio, em «Odes», p. 65 (Cotovia, 2008)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sonho de uma noite de Outono

Sogrape Garrafeira Bairrada 1999
Uma noite de intempérie na Madeira. Um velho casarão rodeado de jardins escuros. A mulher amada. Uma ceia consoladora. Um vinho suave, bondoso, que sacia. Vinho que abriga. Confortável vinho.