No final de um «A Hora de Baco» recente, inteiramente dedicado às Caves São João, o seu actual gerente, Manuel José Costa, atira que, quem quer fazer vinho, mais lhe vale ler o Padre António Vieira do que o Robert Parker.
Não creio que o enólogo da casa acompanhe o gerente nos seus gostos literários. José Carvalheira não ignora que é indispensável conhecer o Mercado e, em certa medida, seguir os seus ditames.
Carvalheira é, porém, mais do que um pragmático, um homem de ciência. Não é preciso frequentar as suas aulas na Estação Vitivinícola da Bairrada (de que dirige a adega experimental, o laboratório e o departamento de Enologia) para perceber o valor do seu conhecimento, não só no que toca aos preceitos da Enologia moderna, mas também aos legados pela tradição. Para tanto, basta provar os seus vinhos — e ouvi-lo atentamente neste «A Hora de Baco».
Colhem-se aí vários ensinamentos, como quais são as propriedades que determinam a longevidade do vinho, quais são as principais qualidades de um vinho velho, ou, o que é mais interessante, que, quantos mais anos de engarrafado tiver, menos recomendável é decantar-se e arejar-se o vinho.
Depois disto, por sinal, também ouvi ao Professor Virgílio Loureiro (outro homem de muita ciência, que tem ajudado a mitigar a minha ignorância) desaconselhar o arejamento prévio e forçado dos vinhos velhos, sobretudo porque assim se perde a oportunidade de presenciar, no copo, a sua ressurreição. Em alguns casos, todavia, sempre se mostra necessário decantar o vinho e esperar que ele se liberte do chamado «pivete da garrafa».
Por conseguinte, e por mor da ciência, devo talvez retirar o que aqui deixei dito, em finais de Novembro, a um amigo, e soa a regra — que eu, no lugar dele, decantaria um certo Riesling de 1997 etc.
Ele tomou em consideração, no que mais importava, o que eu sugeria, e trouxe-me, não o Riesling, mas uma garrafa de Trimbach Gewürtztraminer 1997. Há dias, abri-a. O vinho tinha uma linda cor, estava morto, e não ressuscitou. Sempre era uma bela perda!
terça-feira, 22 de março de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
O suave milagre
«Vede a chuva que desce do céu para os nossos vinhedos; aí, entra nas raízes das videiras, para ser mudada em vinho; uma prova contínua de que Deus nos ama e gosta muito de nos ver felizes.»
Benjamin Franklin, numa carta para o abade Morellet
Benjamin Franklin, numa carta para o abade Morellet
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Vinhos essenciais
| Um copo de Velletri |
Na altura, Francisco José Viegas escrevia na «Notícias Sábado», revista do «Diário de Notícias» e do «Jornal de Notícias». Conservo algumas dessas páginas de tentação, preenchidas com charutos, cervejas e receitas de cozinha, que se liam já com delícias.
Há dois anos, numa crónica sobre Roma, publicada na revista «Volta ao Mundo», ele falava de um certo restaurante, onde se serve «a mais genuína comida romana», — e evocava os seus vinhos: «temperados e frios, essenciais».
Eu, que tive, entretanto, a felicidade de jantar nesse bendito restaurante e de provar os vinhos, o branco e o tinto, trazidos à mesa em jarros de vidro, senti-me grato à prosa inspirada e generosa do Francisco José Viegas.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Rudimentos de gastronomia
«XI. A ordem dos comestíveis é dos mais substanciais aos mais ligeiros.
XII. A ordem das bebidas é das mais temperadas às mais capitosas e às mais perfumadas.
XIII. Pretender que não é preciso mudar de vinhos é uma heresia; a língua satura-se; e, depois do terceiro copo, o melhor vinho não suscita mais do que uma sensação obtusa.»
Brillat-Savarin, em «Fisiologia do Gosto»
XII. A ordem das bebidas é das mais temperadas às mais capitosas e às mais perfumadas.
XIII. Pretender que não é preciso mudar de vinhos é uma heresia; a língua satura-se; e, depois do terceiro copo, o melhor vinho não suscita mais do que uma sensação obtusa.»
Brillat-Savarin, em «Fisiologia do Gosto»
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Boas festas
Bebi, no período das festas, incontáveis copos de vinho. Na maioria, eram vinhos que ainda não provara.
Penitencio-me por não ter tirado notas, mesmo se as circunstâncias não fossem as mais apropriadas. No entanto, tomo sempre sentido no vinho. Não me perco a esquadrinhar o seu mistério, mas reparo na sua qualidade e no bem que me sabe.
De entre esses vinhos que bebi, conservo na memória o Ribamar Garrafeira 2006, um tinto da Estremadura, frutado e tradicional; o Frei João 2005, tinto, confiável bairradino, uma colheita no ponto; o Conde de Sabugal 2006, tinto, um Douro maduro e aprazível; o amo.te 2009, um tinto alentejano temperado e uma agradável surpresa, não obstante o nome; o Vinha Paz Reserva 2006, forte tinto, um rico Dão; e o Três Bagos 2009, um branco duriense de cor viva, aromático e refrescante.
Foram bem boas, as festas.
Penitencio-me por não ter tirado notas, mesmo se as circunstâncias não fossem as mais apropriadas. No entanto, tomo sempre sentido no vinho. Não me perco a esquadrinhar o seu mistério, mas reparo na sua qualidade e no bem que me sabe.
De entre esses vinhos que bebi, conservo na memória o Ribamar Garrafeira 2006, um tinto da Estremadura, frutado e tradicional; o Frei João 2005, tinto, confiável bairradino, uma colheita no ponto; o Conde de Sabugal 2006, tinto, um Douro maduro e aprazível; o amo.te 2009, um tinto alentejano temperado e uma agradável surpresa, não obstante o nome; o Vinha Paz Reserva 2006, forte tinto, um rico Dão; e o Três Bagos 2009, um branco duriense de cor viva, aromático e refrescante.
Foram bem boas, as festas.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
O Inverno chegou
«Afasta o frio, repondo sem parcimónia na lareira
a lenha, e ainda mais generosamente retira,
ó Taliarco, da sabina ânfora
o vinho de quatro anos:
confia o resto aos deuses, pois mal eles acalmem
os ventos que no impetuoso mar pelejam
nem os ciprestes se agitarão
nem os velhos freixos.»
Horácio, em «Odes», p. 65 (Cotovia, 2008)
a lenha, e ainda mais generosamente retira,
ó Taliarco, da sabina ânfora
o vinho de quatro anos:
confia o resto aos deuses, pois mal eles acalmem
os ventos que no impetuoso mar pelejam
nem os ciprestes se agitarão
nem os velhos freixos.»
Horácio, em «Odes», p. 65 (Cotovia, 2008)
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Sonho de uma noite de Outono
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Uma qualidade deliciosa
O Professor José Hermano Saraiva é um venerando cavalheiro de 91 anos, que se vê e se ouve sempre com grande prazer. Os seus programas televisivos de divulgação cultural contam já 40 anos.
No último Verão, o Professor dedicou um episódio do seu «A Alma e a Gente» a Anadia, coração da Bairrada e berço dos vinhos espumantes portugueses. É pouco antes dos 6 minutos de programa que ele se serve um copo do espumante bruto da Estação Vitivinícola da Bairrada — «de uma qualidade deliciosa. Deliciosa.»
Saboreando o vinho, remata: — «Não distinguiria este espumante dos champanhes franceses; mas eu não sou um entendido.»
A não perder, este episódio de «A Alma e a Gente».
No último Verão, o Professor dedicou um episódio do seu «A Alma e a Gente» a Anadia, coração da Bairrada e berço dos vinhos espumantes portugueses. É pouco antes dos 6 minutos de programa que ele se serve um copo do espumante bruto da Estação Vitivinícola da Bairrada — «de uma qualidade deliciosa. Deliciosa.»
Saboreando o vinho, remata: — «Não distinguiria este espumante dos champanhes franceses; mas eu não sou um entendido.»
A não perder, este episódio de «A Alma e a Gente».
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Dois companheiros dourados
Bebi ontem dois bons vinhos de 2003: Terra Cota, um branco ribatejano, e o Colheita Tardia da Niepoort.
Foi uma feliz coincidência, reunirem-se no frigorífico dois companheiros de colheita. Imagino que um tal encontro não pudesse ocorrer em muitos outros lares, pela simples razão de que o Mercado, esse brutamontes, não gosta de brancos com mais de dois ou três anos de idade. O Mercado não tem vagar para subtilezas.
Os sete anos destes dois vinhos puseram em ambos sensivelmente o mesmo suave dourado. O Terra Cota, feito de Fernão Pires, está melífluo de aroma, mas não perdeu a frescura. Tem mesmo um agradável fundo vegetal, viçoso, que o torna muito bom de beber. A 3 € a garrafa, foi um achado.
O Colheita Tardia da Niepoort, comprei-o depois de ouvir na rádio a entrevista que o Francisco José Viegas fez a Alfredo Saramago, a propósito do lançamento de um livro em que o gastrónomo apresenta uma selecção de 125 vinhos. Esse programa, de 2007, ainda pode, e merece, ser ouvido. Sobre a degustação de um vinho e a linguagem dos críticos, diz Alfredo Saramago: — «Por exemplo: um determinado aroma a chocolate; um determinado aroma a frutos maduros. Sim, porque aquilo é feito de fruta, não é verdade? Mais madura ou menos madura. Há uma quantidade de termos que são perfeitamente compreensíveis, e que nós, de uma maneira ou de outra, chegamos lá. Há outros que são delírio.»
Mais adiante, o Francisco José Viegas confessa-se «destruído» por não ter encontrado uma garrafa deste Colheita Tardia, que, no livro do seu entrevistado, aparece assim descrito: «Cor magnífica. Bem estruturado. Aromas ricos. Mais um ano e será paixão.»
Quanto a mim, trata-se realmente de um belo vinho, com um aroma que lembra maracujá e uma doçura bem temperada de acidez. Não o achei apaixonante, mas agradou-me; e, como também dizia Alfredo Saramago, «esse agradar-me já é muito bom».
Foi uma feliz coincidência, reunirem-se no frigorífico dois companheiros de colheita. Imagino que um tal encontro não pudesse ocorrer em muitos outros lares, pela simples razão de que o Mercado, esse brutamontes, não gosta de brancos com mais de dois ou três anos de idade. O Mercado não tem vagar para subtilezas.
Os sete anos destes dois vinhos puseram em ambos sensivelmente o mesmo suave dourado. O Terra Cota, feito de Fernão Pires, está melífluo de aroma, mas não perdeu a frescura. Tem mesmo um agradável fundo vegetal, viçoso, que o torna muito bom de beber. A 3 € a garrafa, foi um achado.
O Colheita Tardia da Niepoort, comprei-o depois de ouvir na rádio a entrevista que o Francisco José Viegas fez a Alfredo Saramago, a propósito do lançamento de um livro em que o gastrónomo apresenta uma selecção de 125 vinhos. Esse programa, de 2007, ainda pode, e merece, ser ouvido. Sobre a degustação de um vinho e a linguagem dos críticos, diz Alfredo Saramago: — «Por exemplo: um determinado aroma a chocolate; um determinado aroma a frutos maduros. Sim, porque aquilo é feito de fruta, não é verdade? Mais madura ou menos madura. Há uma quantidade de termos que são perfeitamente compreensíveis, e que nós, de uma maneira ou de outra, chegamos lá. Há outros que são delírio.»
Mais adiante, o Francisco José Viegas confessa-se «destruído» por não ter encontrado uma garrafa deste Colheita Tardia, que, no livro do seu entrevistado, aparece assim descrito: «Cor magnífica. Bem estruturado. Aromas ricos. Mais um ano e será paixão.»
Quanto a mim, trata-se realmente de um belo vinho, com um aroma que lembra maracujá e uma doçura bem temperada de acidez. Não o achei apaixonante, mas agradou-me; e, como também dizia Alfredo Saramago, «esse agradar-me já é muito bom».
domingo, 21 de novembro de 2010
Favorável vinho
«Depois do jantar, com a cabeça quente mas direitinho nas minhas pernas como a torre gótica da igreja românica de Meursault, sentia-me numa forma olímpica. Não vi nenhum conviva sair do château a cambalear. Os vinhos medíocres tornam o joelho mole e a língua pastosa; os vinhos muito bons favorecem as articulações dos ossos e das palavras.»
Bernard Pivot, em «Dicionário Sentimental do Vinho», p. 183 (Casa das Letras, 2007)
Bernard Pivot, em «Dicionário Sentimental do Vinho», p. 183 (Casa das Letras, 2007)
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Civilização
De acordo com a Antena 1, o Presidente Cavaco Silva e o Presidente Barack Obama, que hoje almoçaram juntos no Palácio de Belém, beberam Cerro das Mouras Grande Escolha 2009, um branco do Douro.
Também se sabe que o presidente português ofereceu ao norte-americano um decantador e os cálices oficiais do Vinho do Porto, ambos da autoria de Siza Vieira, juntamente com uma garrafa de Quinta do Noval Vintage 2008, o ano em que Obama foi eleito.
Sobre o generoso, a jornalista da Antena 1 esclareceu: — «É considerado um vinho quase perfeito, muito elegante, um vinho guloso, e é um excelente cartaz para os nossos vinhos do Porto.»
Não é todos os dias que há tanta civilização nas notícias.
Também se sabe que o presidente português ofereceu ao norte-americano um decantador e os cálices oficiais do Vinho do Porto, ambos da autoria de Siza Vieira, juntamente com uma garrafa de Quinta do Noval Vintage 2008, o ano em que Obama foi eleito.
Sobre o generoso, a jornalista da Antena 1 esclareceu: — «É considerado um vinho quase perfeito, muito elegante, um vinho guloso, e é um excelente cartaz para os nossos vinhos do Porto.»
Não é todos os dias que há tanta civilização nas notícias.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
V. Q. P. R. D.
Os primeiros copos de vinho, bebi-os por volta dos 18 anos, numa tasca que ficava a dois passos da escola. Era o estabelecimento da severa D. Custódia, onde os estudantes, antes, depois ou em vez das aulas, regularmente jogavam matraquilhos e matavam a sede.
De entre esses fregueses, nós, que formávamos a equipa de voleibol da escola, éramos talvez os mais assíduos. No fim do treino físico, rumávamos à Custódia, para o treino de especialidade. Aliás, passado pouco tempo, «os treinos» designavam menos o tempo de correr ou de ensaiar jogadas do que o tempo de beber. «Ir aos treinos» significava ir beber copos à Custódia.
A verdade é que, se nos fizemos uma equipa aguerrida, unida, difícil de bater, o devemos ao vinho. O bebermos vinho já nos distinguia dos demais rapazes; bebê-lo juntos, numa congregação ritual, irmanáva-nos. E depois, o vinho, na sua bondade, conferia-nos força e emprestava-nos o seu melhor espírito. Nós jogávamos com a mesma galhardia com que esvaziávamos os jarros da velha Custódia.
Para além disso, éramos uns vaidosos. Nos torneios da escola, que ganhávamos impiedosamente, a nossa equipa dava pelo nome de «V. Q. P. R. D.». No início de cada jogo, como uma bruta invocação às musas, rugíamos o nosso grito de alento: — «TINTO!»
De entre esses fregueses, nós, que formávamos a equipa de voleibol da escola, éramos talvez os mais assíduos. No fim do treino físico, rumávamos à Custódia, para o treino de especialidade. Aliás, passado pouco tempo, «os treinos» designavam menos o tempo de correr ou de ensaiar jogadas do que o tempo de beber. «Ir aos treinos» significava ir beber copos à Custódia.
A verdade é que, se nos fizemos uma equipa aguerrida, unida, difícil de bater, o devemos ao vinho. O bebermos vinho já nos distinguia dos demais rapazes; bebê-lo juntos, numa congregação ritual, irmanáva-nos. E depois, o vinho, na sua bondade, conferia-nos força e emprestava-nos o seu melhor espírito. Nós jogávamos com a mesma galhardia com que esvaziávamos os jarros da velha Custódia.
Para além disso, éramos uns vaidosos. Nos torneios da escola, que ganhávamos impiedosamente, a nossa equipa dava pelo nome de «V. Q. P. R. D.». No início de cada jogo, como uma bruta invocação às musas, rugíamos o nosso grito de alento: — «TINTO!»