Mostrar mensagens com a etiqueta Vinhos Velhos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vinhos Velhos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Quinta do Boição 2000


Caves Velhas. Regional Estremadura (Bucelas). Trincadeira, Castelão, Tinta Miúda, Camarate. 13% vol. 1 € (Caves Velhas).

Um bouquet muito capaz, com notas aromáticas de couro, compota, licor, flores, plantas balsâmicas, eucalipto, unto, cogumelos, osmazoma, fumo, bacon, caramelo tostado etc. Boa acidez e bom travo.

Dê-se-lhe tempo! Nisto de vinhos velhos (e nos novos, igual; e nos whiskies; e em tudo), nem hesitações, nem precipitações. Há que deixá-los perder o pivete da garrafa, assentar e abrir. Que é como quem diz, não entrar a matar. Um bom princípio geral.

Custa um euro (o negócio é duas garrafas, dois euros) na Enoteca das Caves Velhas. O Casal da Eira, também ali à venda, já se atira aí prò euro e meio. Mas é preciso ver que é em Tetra Brik.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O perfume do tempo

«The business of life is the acquisition of memories. In the end, that's all there is.» O negócio da vida é a aquisição de memórias. No fim, é tudo o que há.

A cogitação é de Mr. Carson, mordomo — e adegueiro, e escanção — de Downton Abbey. Havemos de ir a Yorkshire, shall we?

Aí ficam duas aquisições recentes. O Casal da Azenha Reserva Velho 1960 foi uma alegria que o Barrete Saloio nos deu. Uma cortesia entre Inácios, para nos consolar da falta do Morgado de Bucelas.

Aroma gordo, balsâmico, de café, carne, especiarias e sei lá
que mais. Excelente com o toucinho do céu da D. Fernanda.

Essoutra memória, o José de Sousa 1998, adquiri-a particularmente, numa tardinha de domingo. No mesmo dia, ao almoço, tivemos Tapada do Chaves 2000 branco. Ambos agradaram muito. Como notou a dona da casa, tinham perfume.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Terra Franca Garrafeira 1987


Sogrape. DOC Bairrada. 12% vol. 8 € (Adega do Albertino, Imaginário, Caldas da Rainha).

Vinte e seis anos aquela garrafa esperou até que a mandámos abrir no início de uma tarde mansa de férias, numa terra curiosamente chamada Imaginário. O conteúdo, um veludo com aromas delicados, lembrando mel e chocolate. Tão bom e convivial que gostou de tudo: um queijinho de meia cura, óptimos pães de trigo e de milho, a azeitona bem temperada e um soberbo prato de polvo, ambos guarnecidos com alhinho, com que o vinho pacientíssimo também se entendeu. Oito euros... Só no Imaginário.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Casal da Azenha Reserva Velho 1990


António Bernardino Paulo da Silva (Azenhas do Mar). 12,5% vol. Sem mais indicações. 3 € (produtor).

Um Casal da Azenha como novo, salvo seja, mas muitíssimo melhor (e pelo inacreditável preço de três euros): os vários aromas, mais finos, mais perfeitos, estão graciosamente entrelaçados.

É por afinidade que se harmoniza com um feijão verde à mediterrânea, derivação cá de casa do esparguete à bolonhesa, com um molho de tomate verdadeiro, azeite dos Avós e orégãos colhidos pela Tia Maria. Imagine-se. Depois, com o Sol mais baixo no céu, vá-se até à beira-mar e confira-se que são pilritos-das-praias as simpáticas avezinhas que andam debicando pelas pocinhas nas rochas, fugindo a correr do alcance do mar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Uma coisa viva

Quinta da Fidalga 1980
(Muito obrigado, F.)

«Gosto de pensar na vida do vinho. Em como é uma coisa viva. Gosto de pensar sobre o que se passava no ano em que as uvas estavam a crescer. Como o sol brilhava. Se choveu. Gosto de pensar em todas as pessoas que cuidaram e colheram as uvas. E, se é um vinho velho, quantas delas devem estar agora mortas. Gosto de como o vinho continua a evoluir, de como, se eu abrisse uma garrafa de vinho hoje, ele teria um sabor diferente do que se a tivesse aberto noutro dia qualquer. Porque uma garrafa de vinho está de facto viva. E está constantemente a evoluir e a ganhar complexidade. Isto é, até atingir o auge, como o teu 61. E então começa o seu firme, inevitável declínio.
And it tastes so fucking good.»

Maya para Miles, no filme Sideways

terça-feira, 17 de julho de 2012

Adega Coop. de Borba Reserva 1978

Sabendo da minha religião pelo vinho, uma alma magnânima doou-me uma garrafa de 1978. 34 anos, um tinto de Borba. Quantos dariam alguma coisa por ele? Eu mesmo, apesar do bom estado da cápsula e do satisfatório nível de vinho na garrafa, talvez só o comprasse muito barato.

Em todo o caso, abri com fé e o devido cuidado a atenciosa dádiva. Mal retirei o topo da cápsula, começou a cheirar bem. A rolha quebrou-se no gargalo, mas saiu em metades inteiras. Para não o deitar a perder, não decantei o vinho.

Ah, leitor. Ele não só estava bebível, como estava vivo e bom. Bem entendido, não era nenhum alto prodígio. Mas não me enterneceu menos que a visão das muitas andorinhas que veraneiam pelas ruas frescas da Ericeira.

Almas magnânimas, vinho vivaz, as andorinhas. Afinal, podemos ter esperança.

Um copo de esperança

Adega Coop. de Borba Reserva 1978
12,5% Vol. Sem mais indicações.
Rubi alourado. Café, chocolate, couro, uma nota vegetal balsâmica, outra a lembrar espargos. Um côvado de veludo! Persistência notável.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Angelus Reserva 2000

Decididamente, preciso aqui de um marcador para absurdos.
Este vinho, encontrei-o no Intermarché de Torres Vedras. (Começa a tomar forma um padrão…) Apanhei a última das últimas garrafas.
2,48 €? Mas anda tudo doudo?

Angelus Reserva 2000
Caves Aliança. DOC Bairrada. Baga. 13% Vol. 2,48 €.
Vermelho-escuro. Aroma complexo, maduro, frutado, fumado, balsâmico. Fino, fresco, taninoso e longo. Óptimo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

Prova Régia 2000

«Em 1987 a recém-criada empresa Alcântara Agrícola, SA, ligada ao grupo Tate & Lyle, adquiriu a Quinta da Romeira, com uma área rondando os 130 hectares. Aí procedeu à plantação de 80 ha de vinha, com as castas recomendadas para a região de Bucelas — Arinto (85%), Esgana-Cão (10%) e Rabo-de-Ovelha (5%). Tinha acabado de se iniciar um grande projecto vitivinícola, sob a batuta do conceituado enólogo Nuno Cancela de Abreu, que iria restituir à região e aos vinhos de Bucelas o fulgor dos séculos passados.»
Prova Régia 2000
Soc. Agr. da Quinta da Romeira de Cima. DOC Bucelas. Arinto. 12% Vol. 3,99 €.
Amarelo. Mais próximo a manteiga do que a mel, o aroma conserva algumas notas frutadas, principalmente citrinas. Semelhante na boca, amanteigado e ainda esperto.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Hero da Machoca Grande Escolha 2001

Hero do Castanheiro. DOC Palmela. Castelão. 14,2% Vol. 3,99 €.
Vermelho-escuro. A princípio, um odor forte e adocicado, que, não sendo desagradável, chega a lembrar algo parecido com estrume… Depois, primorosamente casado com o carvalho, um vivo aroma de fruta vermelha em compota, que, abrindo, se torna mais fresco e mais fino. Vibrante na boca, com muito sabor e cauda longa. Realmente, um belo vinho.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

As relíquias

Sábado à tarde, neurose ligeira. No entanto, o projecto de fazer arroz-doce.
É senso comum que o arroz-doce reclama um Tawny decente. (Isso, um homem com a telha e Você a fazer piadinhas. «Tawny Carreira»… Francamente.)
Como de ordinário, vamos às compras de vitualhas. Não vejo nem Porto santo, nem Porto alegre. Acode-me à lembrança o supermercado na vila, onde é raro irmos.
Então aí, que foi que eu pilhei? Duas relíquias portuguesas. JP Garrafeira 1989. Menos de 5 €. Prova Régia 2000. Menos de 4.

Portuguese relics with citrus and morning sunshine

Não dei com um Porto seguro. Mas é que já a neurose, deliquescida, me não ralou.
O pequeno, suave milagre.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Unilar Reserva 1977

Todavia, até o mais recatado comete o seu pecadilho; e quando o vinho supera em idade o provador — que diabo, fechemos os olhos.

Unilar Reserva 1977

Caves Bonifácio. Engarrafado em 81, oriundo de Palmela, sem mais indicações (decerto é Castelão). 12,5% Vol. Cerca de 7,50 €.
Vermelho-acastanhado, com halo mais claro; não aparenta 35 anos. Desaparecido, em poucos minutos, algum cheiro de couro, as notas aromáticas mais evidentes são de fruta, ainda, licorosas e doces; também lembra osmazoma, chocolate, figo. Muito macio na boca, tem certo sabor de carne fumada, que faz pensar em enchidos; persistente e bastante aprazível.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Collares Viúva Gomes Reserva Tinto 1996

(Ei-la. Diga lá que não está de um recato heróico.)

Jacinto Lopes Baeta, Filhos. DOC Colares. Ramisco. 11% Vol. ? €.
Vermelho transparente. Um bouquet rico, complexo, em que se reconhecem notas aromáticas animais, balsâmicas, doces, de especiarias e madeiras. Incomparável na boca, na reunião de acidez, macieza e longor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conhecer. Comunicar.

Há umas poucas semanas, trouxe finalmente para casa certa garrafa que me trazia curioso: Hero da Machoca Grande Escolha 2001. Não sabia do vinho senão, como estava à vista, que era Castelão de Palmela estreme, vinificado em lagares tradicionais, premiado em Bruxelas com medalha de prata, em 2004.
Desarrolhei a dita garrafa no outro fim-de-semana, por ocasião de um almoço em família. Não pude na circunstância tomar grande sentido no copo, mas o vinho era uma flagrante delícia, caso sério a requerer atenção. No dia seguinte, voltei ao supermercado e deitei mão às três garrafas que restavam na prateleira, as mesmíssimas que havia semanas lá deixara.
Este domingo, cá se bebeu outra, de par com uma travessa de almôndegas, récipe de influência transmontano-neerlandesa. O vinho confirmou-se esplêndido (a nota de prova terá de esperar pela garrafa seguinte), com todas as qualidades que se reconhecem aos melhores exemplares da Castelão de Palmela, como são apontadas no guia de referência em matérias de ciência vitivinícola nacional: — «belos vinhos de guarda, carnudos, com notas aromáticas de frutos vermelhos e plantas silvestres, que “casam” muito bem com o perfume do carvalho francês.» Sobre o produtor deste Hero da Machoca, diz-se aí também que as suas vinhas são maioritariamente velhas e «estão situadas no Poceirão e na Marateca, consideradas zonas excepcionais para a produção de uvas da casta Castelão.» Depois há «a mão do enólogo António Saramago — um verdadeiro mestre da casta e da região».
Note-se ainda que Filipa Tomaz da Costa, a primeira das enólogas portuguesas, compara mesmo a Castelão da Península de Setúbal à Pinot Noir da Borgonha.
Quero eu afinal chegar ao preço que paguei por este vinho rico e longevo, feito de uma casta autóctone de Portugal, no seu terroir mais propício, por um dos nossos mais conceituados vinicultores — portanto, um produto de qualidade superior, que serviria bem o fim de ilustrar e promover nos mercados de exportação o carácter genuíno dos vinhos portugueses. Embora ele se venda na origem a 9,45 €, eu comprei num Intermarché o Hero da Machoca Grande Escolha 2001 por 3,99 €.
Casos destes são, no imediato, formidáveis para o consumidor escasso de finanças; mas para o produtor, para a Economia, para o futuro do país, não se conhecer de entre o bom o singular, não o comunicar, e malbaratar a riqueza que se tem — é aviltante.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Notas Amadoras: Dom Martinho 1998

Soc. Agr. Quinta do Carmo. Regional Alentejano. Sem informação de castas. 13% Vol. 10 € (em restaurante).
Vermelho-escuro transparente. Tinha o grato perfume do vinho velho, mas já declinando. À mesa, ainda se mostrou capaz, refrescando e agradando bem a boca.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Notas Amadoras: Quinta da Alorna Castelão 2001

DOC Ribatejo. 12,5% Vol. 14,5 € (em restaurante).
Vermelho-escuro. Um perfume afinado de framboesas, tomate em compota, chocolate. Fresquíssimo, longo, delicioso de beber.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Notas Amadoras: Dom Teodósio Garrafeira 1995

DOC Bairrada. Baga, Castelão, Tinta Pinheira. 12% Vol. 5 €.
Vermelho-escuro transparente. Aroma fino de fruta, balsâmico, refrescante. São, fresco, longo, destes que matam a sede. No ponto.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Acta de um sacrifício

Aos dois dias do mês de Julho do ano da desgraça de dois mil e onze, reuniu em casa do Sr. C. R., cavalheiro, uma pequena assembleia de sete, contando todos. Tinham como desígnio sacrificar duas garrafas de Barca Velha, deste modo assinalando o desaparecimento do Eng. S. e o advento da Austeridade.
Tomou-se assento na sala de jantar do Sr. C. R. cerca das 18h. Dos sete presentes, apenas cinco se perfilavam para beber. O vinho estava na mesa, em garrafas de decantar. O trasfegador não sabia dizer qual continha a colheita de 1991, qual a de 1999. Pediu-se ao redactor que tentasse fazer a destrinça. Ele observou que a cor o não permitia, por ser nas duas igualmente viçosa. Para não pespegar nariz e bigodes na garrafa, deitou um pouco de vinho no seu copo: mas, mal tinha inspirado, já o Sr. D. o distribuía a jorros pelos demais. Era o 99.
A entrada em força causou efeito. O vinho, rico, vigoroso, cheio de borras, impunha recolhimento, estorvava o convívio. O redactor passou mudo toda a tarde, enfiado no copo. O anfitrião admoestou-o com bondade: era necessário comer e era necessário falar.
Comeu-se, queijos, enchidos, foie gras. Nenhum sabor contendeu com o vinho, o de doze como o de vinte anos.
Findo o Barca Velha, foi para a mesa outro Douro: Casa da Palmeira 2004. A assembleia agradou-se.
Seguiu-se um Châteauneuf-du-Pape, Cuvée Lucile Avril 2005. Segundo depois se apurou, este vinho é feito, na maior parte, de Grenache com 90 anos de idade e de Mourvèdre com 60. O redactor regalou-se, inebriado com o perfume do desconhecido. Viu-se então obrigado a falar: achava que o francês teria anos de vida pela frente; e o mesmo do Barca Velha 91, mais do que o 99.
Fechou-se com um Real Companhia Velha Vintage 2000: e assim também o redactor deve concluir, notando que o generoso fez justiça à generosidade do anfitrião, o Sr. C. R., verdadeiro cavalheiro, a quem se deseja as mesmas saúde e longa vida deste Porto. Bem haja!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Os bons, os maus e os outros

«Os homens são como os vinhos: com o tempo, os bons apuram e os maus azedam.»

Ocorreu-me que havia de pôr aqui esta máxima, atribuída a Cícero, depois de, na última entrada, ter separado o gosto do vinho velho do gosto do outro, que é de beber em novo, antes que o tempo lhe roube a graça.
Tencionava simplesmente transcrever a frase, mas, quando procurava atestar a sua autoria, reparei melhor no sentido do que diz. Se, no plano moral, ela se compreende bem (como convém num aforismo), já é muito discutível a ideia de que os vinhos que o tempo não beneficia não são bons.
É claro que, à época em que Cícero viveu (na hipótese de a frase realmente lhe pertencer, o que não é certo), vinha ainda longe nos séculos o nascimento de Robert Parker, da «Revista de Vinhos» e da blogosfera. Por consequência, não haveria muitos outros adjectivos para qualificar o vinho: quando se deixava beber, e dessedentava e embriagava devidamente, era bom; quando não, era mau.
Muitas eras depois, em 1844, Paul Ben ensinava às donas de casa que o vinho tinha lá os seus requisitos: ― «Um bom vinho é sempre de uma cor clara e brilhante; ao paladar, oferece um sabor macio, um bouquet agradável, não tem nada de duro, de acerbo e de picante, e causa na garganta uma sensação de aveludado.»
Em 1860, nas palavras cientistas de Jules Guyot, o bom vinho aparecia como alimento do espírito: ― «Todo o vinho natural, forte ou fraco em álcool, é um bom vinho, se conserva a sua vida orgânica e se a manifesta por um franco odor, por um concerto de todos os seus elementos num sabor harmonioso ao paladar, por uma digestão fácil, um aumento sensível das forças musculares e por uma actividade maior do corpo e do espírito.» Em seguida, sublinhava-se uma observação elementar: ― «O vinho é bom relativamente e não absolutamente.»
Hoje, na esteira de Guyot, o Professor Virgílio Loureiro afirma: ― «Todo o vinho que não tem defeito é, por definição, um produto de qualidade.» Não quer isto dizer, certamente, que todo o vinho isento de defeito é bom por igual. Recentemente, depois de dar a provar aos seus alunos o ribatejano Tinto Velho 1966, da Casa Francisco Ribeiro, o Professor finalizava assim uma aula: ― «A imagem de um país não se constrói com vinhos do ano ou com vinhos que levaram 80 pontos na “Wine Spectator”; faz-se com vinhos que vencem a prova do tempo.»
Não desmerecendo a sentença de Cícero, eu, por prudência, antes comparava os vinhos aos amigos: é que ambos são para as ocasiões ― mas nem todos, nem sempre, se revelam à altura delas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Por mor da ciência

No final de um «A Hora de Baco» recente, inteiramente dedicado às Caves São João, o seu actual gerente, Manuel José Costa, atira que, quem quer fazer vinho, mais lhe vale ler o Padre António Vieira do que o Robert Parker.
Não creio que o enólogo da casa acompanhe o gerente nos seus gostos literários. José Carvalheira não ignora que é indispensável conhecer o Mercado e, em certa medida, seguir os seus ditames.
Carvalheira é, porém, mais do que um pragmático, um homem de ciência. Não é preciso frequentar as suas aulas na Estação Vitivinícola da Bairrada (de que dirige a adega experimental, o laboratório e o departamento de Enologia) para perceber o valor do seu conhecimento, não só no que toca aos preceitos da Enologia moderna, mas também aos legados pela tradição. Para tanto, basta provar os seus vinhos — e ouvi-lo atentamente neste «A Hora de Baco».
Colhem-se aí vários ensinamentos, como quais são as propriedades que determinam a longevidade do vinho, quais são as principais qualidades de um vinho velho, ou, o que é mais interessante, que, quantos mais anos de engarrafado tiver, menos recomendável é decantar-se e arejar-se o vinho.
Depois disto, por sinal, também ouvi ao Professor Virgílio Loureiro (outro homem de muita ciência, que tem ajudado a mitigar a minha ignorância) desaconselhar o arejamento prévio e forçado dos vinhos velhos, sobretudo porque assim se perde a oportunidade de presenciar, no copo, a sua ressurreição. Em alguns casos, todavia, sempre se mostra necessário decantar o vinho e esperar que ele se liberte do chamado «pivete da garrafa».
Por conseguinte, e por mor da ciência, devo talvez retirar o que aqui deixei dito, em finais de Novembro, a um amigo, e soa a regra — que eu, no lugar dele, decantaria um certo Riesling de 1997 etc.
Ele tomou em consideração, no que mais importava, o que eu sugeria, e trouxe-me, não o Riesling, mas uma garrafa de Trimbach Gewürtztraminer 1997. Há dias, abri-a. O vinho tinha uma linda cor, estava morto, e não ressuscitou. Sempre era uma bela perda!