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quinta-feira, 31 de março de 2016

Terra d'Alter Reserva 2012

Ih... deixei-me hibernar. Granda urso.



Terras de Alter, Comp. de Vinhos. Regional Alentejano (Fronteira). Trincadeira, Tinta Caiada, Aragonez e outras de vinhas velhas. Peter Bright (enol.). 15% vol. Cerca de 14 € (Café Alentejo).

Aroma complexo, insinuante, de flores, frutos e plantas silvestres, com notas balsâmicas e uma exalação de perfume feminino. Grande na boca, em estrutura, sabor e final. Seriamente bom.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sinais

Cultura, história, sabedoria: Fernando Alves com o Prof. Virgílio Loureiro, primeiro molhando a palavra em branco de talha, depois voltando da Amareleja. O exemplo dos antigos e o exemplo da Geórgia. Sinais de apreensão.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Elogio da simpleza

Já deitando o Inverno mais as suas filhinhas intempéries pelos olhos, recolhemos ao nosso São Alentejo para uma cura de vinhos de talha, iguarias de toda a sorte, paisagens bucólicas, bons ares — e sol, muito sol. O Alentejo, como ancião e sábio, benévolo e verdadeiro, é naturalmente pródigo em gentilezas. Todos os dias nos abençoou com céu azul e sol em abundância.

Banhámo-nos dele o mais que pudemos. Enquanto não caísse a noite, peregrinávamos: em Évora, deambulámos vagarosamente pelas ruas, provámos um Riesling de Sousel e tomámos uma chávena de Earl Grey numa livraria; em Portalegre, sentámo-nos na Sé, descemos ao Rossio para ver o plátano e tornámos acima para ir beber o gin e comer o touro; subimos à Serra, respirámos, parámos a ouvir os rebanhos; passámos na Adega Mayor, trouxemos vinho tinto e chocolates; em Vila de Frades, fomos às laranjas e às talhas e ao pão.

Ao fim do dia, rumávamos de volta ao Al-Andaluz. Al-Andaluz, aprendemos, é o nome do antigo território árabe no sul da Península Ibérica, abrangendo o Alentejo, o Algarve e a Andaluzia de hoje. O emirado, devindo califado e depois reino, desapareceu, como todas as coisas à face da Terra. Contudo, um pequeno reduto dessa civilização de antanho subsiste em Reguengos de Monsaraz. O emir — ou califa — ou rei — da Taberna Al-Andaluz chama-se José Manuel Morgado. Chamemos-lhe D. José.

D. José é um amante do toreo, um carácter galhardo e um gastrónomo culto. Recebe com brios e é um matador exímio, um espada triunfal, dos apetites que o procuram. Entremeses, platos, postres — y vinos, por supuesto: D. José desfere uma só estocada, certeira e fatal.

Nós outros, ainda o prândio ia no adro e já estávamos deliciados, graças a um senhor pomadão sugerido por ele, da vizinha Granja de Mourão, com uma redolência maravilhosa de maracujá (era tinto, sim, senhoras e senhores) e um destes corpinhos de fazer parar operações STOP.

Seguidamente, foi um ver se te avias de manjares los más exquisitos. Saboreemo-los de novo e em nuvem:

Torradinhas com azeite bastantes. Grossos cogumelos assados. Ovos com espargos-bravos. Filetes alimados do melhor biqueirão do mundo, nidificado na foz do Guadiana. Saladinha de sangue de porco cozido. Um módico de rodelas de um embutido dito Catalão de Barrancos. Uma açorda — uma perfeição — recendente a poejo e hortelã-da-ribeira, com duas postas da pescada mais branca — «cor da neve recém-caída» — e fresca jamais pescada. Bolo “rançoso” de Reguengos, que de râncio nada tinha. Com ele, uma dose mélea de xerez. Uma fatia de queijo de Serpa, uma colher de doce de abóbora, um raminho virente de poejo. Et cetera, enfim, tudo bem arrematado ora com uma infusão calmante, ora com a ínfima dose de uma aguardente digestiva — lotada por D. José ele mesmo.

Da Vinci ensina: «A simplicidade é a sofisticação suprema». Thoreau insiste: «Simplicidade, simplicidade, simplicidade!» Eu, só sabendo que nada sei, soarei simplesmente sobre os telhados do mundo, por respeito dos mestres e despeito das filhinhas intempéries do Inverno, o meu barbárico — OLÉ!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Duas Pedras 2011

Sonho Lusitano Vinhos. Regional Alentejano. Touriga Nacional, Syrah, Viognier. Rui Reguinga (enol.). 14,5% vol. 5,89 € (Jumbo).

Como a frescura da Serra lhes não bastasse, Mayson e Reguinga ajuntaram às castas negras deste tinto um pouco de Viognier, à moda do Côte-Rotie e do Monte d'Oiro*. Oh, vinho raro! Oh, formosura! Oh, pureza! Eia, Serra! Hup-lá-hô, sensibilidade enológica! (Enológica, ouviram? Enológica: ramo da filosofia vinícola que visa determinar o que é verdadeiro.) Tanto engraçaram contigo, Duas Pedras, o lacão assado no forno como o arroz de favas com cacholeira e chouriço mouro de Portalegre.

* Segundo os franceses, a casta Viognier acresce à Syrah finesse e aroma. Jancis Robinson, citando vinicultores da Austrália e da Califórnia, diz que «também ajuda a estabilizar a cor do vinho e aprofunda a sua textura.»

sábado, 21 de setembro de 2013

Monte da Esperança 2008


Mundo Salgueiro. Regional Alentejano (Esperança). Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon. Rui Reguinga (enol.). 14,5% vol. 12 € (Restaurante Solar do Forcado, Portalegre).

Escuro, denso, profundo, aromático, forte. Perfeitamente afinado com o lombelo de touro de lide que comemos. Eis um vinho de pasto, gerado na Esperança da Serra de São Mamede.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Folha do Meio Reserva 2008


Terrenus Veritae. Regional Alentejano (Alegrete). Touriga Nacional, Syrah, Alicante Bouschet, Aragonez. Paolo Fiuza Nigra (enol.). 14,5% vol. 8,49 € (Intermarché).

Um tinto cheiroso, civilizado (não obstante o volume capitoso), verdadeiro, como a Serra. Cauda longa como a de uma pega-rabuda. Leia-se o texto de Pedro Garcias no Fugas, que me fez desejar ver Alegrete e provar este vinho de vinhas velhas.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Reguengos Garrafeira dos Sócios 2003


Coop. Agr. de Reguengos de Monsaraz. DOC Alentejo. Aragonez, Trincadeira, Castelão. 14% vol. Cerca de 16,50 € (Intermarché).

Deixámos que acumulasse fantasmas até um domingo de neblina, apropriado e frio, em pleno Agosto. A garrafa esvaziada conserva essas marcas no peito e, no fundo, o último ai de um bouquet maduro e licoroso. Enquanto bebíamos, mulher amada, pensei em Rilke: dez anos não são nada.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Adega do Calvário 2006

Regional Alentejano (Monforte). Aragonez, Touriga Nacional, Syrah. António Moita Maçanita (enol.). 14% Vol. 5 € (?).
Aromas doces, mais frutados que vegetais, também evocatórios de leite achocolatado e até de chocolate de menta. Com macieza, frescura e sabor quanto baste, acaba a lembrar compota de tomate.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Adega Coop. de Borba Reserva 1978

Sabendo da minha religião pelo vinho, uma alma magnânima doou-me uma garrafa de 1978. 34 anos, um tinto de Borba. Quantos dariam alguma coisa por ele? Eu mesmo, apesar do bom estado da cápsula e do satisfatório nível de vinho na garrafa, talvez só o comprasse muito barato.

Em todo o caso, abri com fé e o devido cuidado a atenciosa dádiva. Mal retirei o topo da cápsula, começou a cheirar bem. A rolha quebrou-se no gargalo, mas saiu em metades inteiras. Para não o deitar a perder, não decantei o vinho.

Ah, leitor. Ele não só estava bebível, como estava vivo e bom. Bem entendido, não era nenhum alto prodígio. Mas não me enterneceu menos que a visão das muitas andorinhas que veraneiam pelas ruas frescas da Ericeira.

Almas magnânimas, vinho vivaz, as andorinhas. Afinal, podemos ter esperança.

Um copo de esperança

Adega Coop. de Borba Reserva 1978
12,5% Vol. Sem mais indicações.
Rubi alourado. Café, chocolate, couro, uma nota vegetal balsâmica, outra a lembrar espargos. Um côvado de veludo! Persistência notável.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um brinde com Solista Touriga Nacional 2009

No dia em que Sokolov, muitas vezes referido como o maior pianista vivo, toca em Sintra, um brinde à sua grande arte!

Solista Touriga Nacional 2009
Adega Mayor. Regional Alentejano. Touriga Nacional. 14% Vol. Oferta do produtor (11,90 €).
Muito perfumoso. Frutado, torradinho, condimentado, com sinais de baunilha e canela. Airoso e sedutor.

Adenda § Não posso brindar a Sokolov e deixar de saudar, com a mesma admiração, a actuação de Artur Pizarro no Palácio de Queluz, anteontem. O leitor sabe como o sublime nos transporta, nos aproxima do Divino, nos reconcilia com o Mundo. Assim foi Pizarro. Importa reconhecê-lo, seguindo o preceito legado por Rodin: — «A admiração é um vinho generoso para os espíritos nobres.»

terça-feira, 3 de julho de 2012

Horta do Bispo 2005

Agora que por fim dei sumiço a uma caixa deste vinho, desconfio estar involuntariamente participando num estudo sociológico, ou de mercado, ou do psiquismo colectivo, cujo método consiste em vender, disfarçado com um rótulo enigmático, um tintão de categoria a um preçozito ridículo, para depois avaliar como reagem os compradores.
Parece que se chama «Horta do Bispo». Os rótulos indicam 2005, Herdade da Sobreira, Estremoz. «Cuidada selecção de uvas das castas Syrah, Trincadeira e Alicante Bouschet», «12 meses em barricas de carvalho francês e americano», «elegante, equilibrado e persistente».
As pesquisas na Internet não deram em nada. A correspondência com a Rota dos Vinhos do Alentejo também não.
Seja como for, quero deixar declarado, só para o caso, que podem sempre contar comigo para estudos desta natureza. Por mor da ciência, tudo.

Consta que é «Horta do Bispo»

Horta do Bispo 2005
Herdade da Sobreira. Regional Alentejano. Syrah, Trincadeira, Alicante Bouschet. 14% Vol. 2,29 € (Jumbo, Almada).
Retinto. Recendente a fruta madura, ameixas, framboesas, plantas silvestres, especiarias. Taninos levemente amargos, para durar.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Rayo 2010

Descobri este tinto no Supercor. O letreiro junto às garrafas informava que «Rayo de Arraiolos» é uma marca exclusiva do El Corte Inglés e que o enólogo é Rui Reguinga.
A julgar pela coincidência de castas, teor alcoólico e demais indicações, o vinho em apreço e o Fonte da Serrana poderão ser o mesmo.

Rayo 2010
Soc. Agr. D. Diniz. Regional Alentejano. Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional. 13,5% Vol. 2,85 €.
Rubi transparente. Bem aromático. Fruta, torrefacção, caramelos de fruta. Bom de beber.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Alento Reserva 2008 (Tinto)

Luís Louro. Regional Alentejano. Aragonez, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah. 14,5% Vol. Oferta do produtor (preço ronda 11 €).
Vermelho bem escuro. Aroma rico, de compotas de fruta vermelha e silvestre, com um frescor como de coentros, que se faz balsâmico. Elegante, saboroso, persistente. Um vinho esmerado.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Monte Mayor 2010 (Rosê)

Adega Mayor. Regional Alentejano. Aragonez, Castelão. 13% Vol. Oferta do produtor.
Cor clara, entre vermelho e rosa. Mais expressivo na boca do que no nariz, tem aroma de cássis e sabor de caramelo, framboesa, e caramelo de framboesa. Agradavelmente seco, bem feito, com uma rica acidez.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Jovem senhora de idade

O Jogo da Bola, como é conhecida a airosa praça central da Ericeira, tem dois renques de plátanos centenários. São dezoito, ao todo. Desde que o Mundo se não acabe entretanto, devemos visitá-los e saudá-los repetidas vezes em 2013. Completarão 110 anos, votados à abnegada função de prover oxigénio à atmosfera, refúgio às aves e sombra aos veraneantes.
Estes plátanos vetustos, comparados com o grandioso espécime do Rossio de Portalegre, não passam de uns rapazes entradotes. Aquela soberba árvore, cuja copa rondará 35 metros de diâmetro, foi plantada em 1838. Camilo não tinha mais que 13 anos, e outros sete andariam antes de nascer o Eça.

O plátano de Portalegre

Posta em sossego a pouca distância, a Tapada do Chaves, embora muito mais jovem, também é senhora de provecta idade.
Placidamente estirada numa encosta da Serra de São Mamede, a contemplar a paisagem bucólica, não pode deixar de notar que, nos anos deste século, os caminhos se afastaram. De raro em raro, lá passa fora um ou outro automóvel transviado.
Se algum entra a propriedade do Frangoneiro, a prestar visita à senhora, ela não se altera nem se espanta. Ao invés, com modos dignos e serenos, chama de volta o enorme cão pachorrento, que sai a ver quem chega. Um belo animal, igualmente entrado na velhice, com um porte de respeito, o olhar doce e melancólico. Obedece de pronto à voz firme e, desinteressado, retorna ao chão e à modorra o corpanzil.

Aspecto da Tapada do Chaves

A senhora, então, fazendo as honras, apresenta os seus domínios. Mostra a vinha mais antiga. Oitenta e tal anos, já não sabe precisar. Na casa onde moraram os Baptista Fino, conta como, em 1998, quatro anos após se ter construído uma linda adega, a família vendeu tudo aquilo ao grupo da Murganheira. Depois passou-se um mau bocado, com o imbróglio em que se achou a Sociedade Lusa de Negócios. Uma macacoa que, por pouco, levava desta pra melhor a senhora.
Agora, convalescida, no seio de um Interior abatido, observa que o fulgor dos tempos áureos pouco alumia o Futuro. Do alto posto da idade, olha-se ao redor com prudente cepticismo.
Mas então. Lá o que se há-de fazer é persistir em fabricar o bom vinho do Alto Alentejo. Ora coma você este queijo, esse enchido, uma côdea de pão, e prove cá o branco novo e os tintos «Reserva». Quanto ao mais, cavalheiro, é vento que passa sobre os plátanos.

(A propósito da Tapada do Chaves, deve ler-se um texto de Pedro Garcias, publicado há tempo no «Fugas». Aliás, este redactor lê-se sempre com proveito. Escreve sobre o vinho como poucos, num estilo desenvolto, elegante e sensato. Confira.)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Alento Reserva 2010

Luís Louro. Regional Alentejano. Arinto, Antão Vaz. 13% Vol. Oferta do produtor.
Amarelo-claro. Notas aromáticas tostadas, de baunilha, sobre citrinos e marmelo. Bem proporcionado na boca, saboroso, com acidez e persistência apreciáveis.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tem de ser amor

Se eu soubesse alinhavar um texto — manso como a planície — recto como a vinha — sólido como o edifício caiado.

Sorte é começar bem cedo o dia. Deus ajuda a quem madruga. Nesse dia, partimos suficientemente cedo.
Fomos directos a Arraiolos, para eu comprar uma cestinha de piquenique, para dar à mulher amada, para fazer piqueniques com ela. Continuámos até Estremoz.
Comemos açordas, migas, carne, bebemos vinho e café. Deixámos no quarto as bagagens e a garrafa meia do almoço. Seguimos para Campo Maior.
Esperava-nos Mélanie. Estava sentada na recepção da Adega Mayor, assente numa afloração da planície. Mostrou-nos um filme, projectado na pedra cinzenta e nua. Era Rui Nabeiro, vertido na obra apaixonada, acolhendo o visitante.
Mélanie conduziu-nos ao longo do edifício amplo, cru e direito.  Com grossas paredes duplas, a adega dispensa ajustes térmicos. Em cima, é isolada por um terraço relvado e um espelho de água. Um sistema computorizado regula a humidade, aspergindo a atmosfera onde repousam as barricas.
Tocada pelo entusiasmo vital dos Nabeiro, Mélanie teve frases ternas. Disse que o vinho é um produto emocional. Falou do namoro entre o vinho e a barrica. Sentámo-nos a prová-lo. Era verdade. Tem de ser fruto de amor, a graça delicada, feminil e sensual que marca aqueles vinhos, cada um. Discretamente, a barrica amadurou-o, realçou-lhe as virtudes, fundiu nele qualidades.

Cena de amor

Apontei como dilectos o Solista Touriga Nacional e os dois Reserva do Comendador, branco e tinto. Dias depois, seduzido, pedi uma garrafa do branco. Seria cerne e seiva deste texto. Veio, não a bebi. Se a beber, fico sem ela. Não sei como há-de ser.

(Continua disponível uma fabulosa publicação de 2007, com cerca de 90 páginas dedicadas por inteiro à Adega Mayor e ao projecto de Álvaro Siza Vieira. São textos, desenhos, plantas, a memória descritiva do edifício e, acima de tudo, muitas fotografias maravilhosas. Não deixe de folhear.)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ao Sul o sol. Um tipo de crónica

Alento

Certa manhã prometedora de sol, um tipo agarra o volante e põe-se a caminho de Estremoz. Andados poucos quilómetros, ao virar de uma curva na auto-estrada, depara-se uma muralha extensa de nevoeiro. O carro fura, adentrando outra estação, parda, nevoenta, chuvosa.
Até à ponte sobre o Tejo, é um trajecto curto mas congestionado de centos de alminhas, que rodam arrastadamente para Lisboa. Uma vez liberto, preocupado com as horas e convicto de reaver ao Sul o sol, um tipo acelera. São pontuais 10h30 quando cruza o portal e sobe à Adega do Monte Branco. Sol, está de chuva.
Um tipo é ali bem recebido, por caras jovens, gentis, que sorriem e conversam de boa vontade. Vê-se a adega, que é moderna, porém simpática, moderada em dimensões e apetrechos. Sente-se o cheiro do vinho acabado de fermentar. Conhece-se que o negócio prospera, na larga medida em que crescem as exportações. Pela janela, admira-se um momento a paisagem fria: não há uvas; não há cor; não há sol.
Vai-se dali para a Quinta do Mouro — propriedade de Miguel Louro — pai de Luís Louro — proprietário da Adega do Monte Branco. (Um tipo topa a coincidência entre «Mouro», «Louro», «M. Louro».) Tem-se aí o gosto de apertar a mão tinta do vinicultor Luís Chouriço. Ouve-se-lo explicar as modas mais conservadoras da casa, como a pisa a pés ou o uso de uma velha prensa a força de braços. Vê-se a adega, que não é moderna, porém funcional, austera em dimensões e apetrechos.
Daí, ascende-se a uma vetusta sala de visitas. Sobre a mesa, perfilam-se copos e garrafas: de um lado, os vinhos contemporâneos do Louro filho; do outro, os vinhos classicistas do Louro pai. Provam-se os primeiros, branco, rosé, tinto e reservas, que são muito bons, e um tipo tem forçosamente de elogiar o nome deles, no que tem de bem achado, e luminoso, e singelo: Luís Louro produz e engarrafa Alento.
Prossegue-se com os demais, Vinha do Mouro, Casa dos Zagalos, Quinta do Mouro, «Rótulo Dourado», e um tipo observa que, quanto mais severo o rótulo, tanto maior o condão que o vinho tem de emudecer em reverência um tipo.
Entretanto, é hora de almoço. O céu parece clarear um pouco. Trocam-se adeuses e obrigados.
Sozinho em Estremoz, famélico, pouco abonado — que há-de um tipo fazer? Suprema sofisticação da simplicidade: vai comer uma açorda fumegante, que é de poejos e recende.
Depois, sai-se para a rua. Está sol, finalmente. Parecendo que não, é outro alento.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Almojanda 2003

Mais uma excentricidade emanada do que se chama «as leis de mercado»: o Intermarché de Mafra está a vender o Almojanda 2003, da Tapada do Chaves, a 1,89 €. A promoção (salvo seja) estará relacionada com a descontinuação da marca, mas também, por certo, com a idade do vinho.
Já agora, registe-se que certo branco de Sandra Tavares da Silva, passível de inspirar exclamações, continua a poder comprar-se por 1,99 €, no Ecomarché da Merceana. Grande negócio...
Enfim, é o desconcerto do mundo. Está certíssimo.

Almojanda 2003
Tapada do Chaves. Regional Alentejano. Trincadeira, Castelão, Aragonez. 13,5% Vol. 1,89 €.
Vermelho-escuro, com um halo de evolução. Aroma doce e perfumado, de fruta perfeitamente casada com madeira, temperado por notas vegetais, como de eucalipto ou resina. Assim também na boca, bem vivo, bem fresco, bem bom.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma questão de tempo

Ao fundo, a adega

O tempo foge. Como é possível que passasse outro Natal, e outro Ano Novo, e outro Janeiro? Ainda há tão pouco éramos novos. Não sabíamos o que eram cãs, nem dívidas, nem mortos. O Mundo girava mansamente, com o fim único de presenciar a nossa glória. Nós não falharíamos: havia tempo para tudo — e tudo é uma questão de tempo.
Entretanto, correm os dias. O leitor sabe como são velozes os dias que correm, indiferentes a angústias e fadigas. Infindos afazeres, obrigações, cuidados, e Internet a perder de vista, e navegar é preciso. Quando se dá conta, não há tempo para nada.
Admiravelmente alheia a este aspecto de corrida contra o tempo, que a vida sempre parece adquirir, a adega do Mouchão, toda serenidade, método, harmonia, afigura-se-me a mais amável de quantas tenho conhecido.

Adega do Mouchão

Na propriedade dos Reynolds, família de origem escocesa, a celebrada fleuma britânica é sinónimo de grande paciência, de falta de pressa — de vagar. Quanto a indiferença, se alguma, só, precisamente, pelo ar do tempo. «Não tencionamos mudar.» Eis a voz corrente, e uma afirmação que não deslustraria como insígnia; mas a casa é bem servida, também nesse particular: — «VINUM SANGUIS VITAE». O vinho é o sangue da vida.
Para esquentar o meu, quem dera agora o calor que fazia quando atravessei a Vinha dos Carapetos, berço provável da Alicante Bouschet em Portugal. A casta é a base de todos os tintos do Mouchão. São vinhos de um carácter extraordinário, retintos, ricos, longevos, como é exemplo o notável 1990 que me foi dado provar.

O sangue da vida

Nesse ano, leitor, ainda a bendita adega não tinha electricidade. Chegou em 91, mas tudo permanece capaz de laborar sem ela. É que o vinho é ali feito hoje como há cem anos; e é regra no Mouchão não haver mais novidades do que duas por século. Afinal de contas, é preciso dar tempo ao tempo.
Ainda vai ser um longo Inverno. Então não vai...